A primeira coisa
que é preciso aprender com a redução da tarifa é que o povo tem sim força,
muita força!!
A rua é espaço
irrenunciável de construção democrática.
As pessoas
queriam pagar menos (na verdade, deixar de pagar mais) pelo ônibus e
conseguiram.
Inúmeras
questões justificam o pleito de redução da tarifa.
Eu coloco como
ponto central a viabilidade, inclusive, de o transporte público ser de graça.
Já existiu na
cidade de São Paulo projeto para tarifa zero e que era apoiado por 70% da
população. Então não é coisa da esquerda radical.
Ninguém melhor
do que um dos autores do projeto para explicar isso!
(http://cbn.globoradio.globo.com/programas/cbn-noite-total/2013/06/18/PROPOSTA-PREVIA-TARIFA-ZERO-NO-TRANSPORTE-PUBLICO-DE-SP-DURANTE-GOVERNO-DE-ERUNDINA.htm)
Existem inúmeras
questões a serem colocadas. Como, por exemplo: Quem disse que a inflação é
parâmetro para reajuste de serviço público?
Se o serviço é
público, qual é o problema com o subsídio? Não é para isso que os impostos
servem?
Todo mundo tem
que se matar para pagar esse preço absurdo. O aumento representa redução
indireta da renda do trabalhador, principalmente somada à inflação que, aí sim,
impacta integralmente o orçamento das pessoas.
E o lucro das
empresas de transporte? Esse tem que ser preservado?
Porque utilizar
a inflação? Por acaso os operários do sistema público de transporte ganharam
aumento pela inflação? O diesel, o pneu, os veículos motorizados... Tudo isso
subiu pela inflação?
Que eu me
lembre, os veículos motorizados foram barateados pela redução do IPI... Porque
não zerar o IPI para as concessionárias de ônibus? Isso não interessa ao
governo?
Porque acabar com
a taxa do Controlar, paga pelas classes A e B e jogar o déficit da conta na
tarifa do ônibus, paga pelas classes C e D? Que usem o Controlar para algo
decente, além de enriquecimento ilícito de empresários.
Aliás, porque
existe QUALQUER tributo sobre serviços públicos? Para pagarmos mais caro pelo
serviço que nós mesmos pagamos para que exista?
Porque em NENHUM
momento, se cogita arrumar verba reduzindo a folha salarial da Câmara ou da
Prefeitura e seus secretários? Fala-se em casas populares, hospitais,
escolas... E as verbas administrativas?
E a renda do
trabalhador? Essa é reajustada pela inflação?
Quanta conversa
fiada!
Enfim, são
centenas de questões que explicitam o engodo governamental em morder mais um
pedaço das rendas do povo. Nesse caso, do povo pobre. Aliás, como na maioria
dos casos.
Isso tudo é para
dizer que essa primeira vitória demonstra cabalmente que somos enganados
escancaradamente pelos nossos governantes!
Esse aumento
nunca foi necessário e visava, na verdade, aumentar a arrecadação já absurda e
inescrupulosa das prefeituras.
Isso para não
haver qualquer retorno em serviços de qualidade ou melhora nos péssimos
serviços existentes!
Dito isso, que é
o ponto central, fica claro que a mera retomada do patamar anterior de preço, já
totalmente abusivo, não é suficiente!
O transporte
público diário (mero direito de ir e vir) continua representando, após a
revogação do aumento, mais de 25% do salário mínimo. Um verdadeiro abuso!!!
Portanto, a
causa é justíssima e a vitória é apenas parcial, pois pode-se conseguir muito
mais.
Mas é preciso lembrar de como isso foi conseguido.
Isso foi
conseguido através do comparecimento de mais de 300 mil pessoas às ruas em todo
o Brasil, ao longo de mais de uma semana.
Isso mesmo,
protestos populares, como não se via desde as Diretas Já, é que levaram a essa
vitória.
A grande verdade
é que dentro do período democrático, o brasileiro pareceu se conformar, pensar
“Ah, sou livre, escolho meu governante. As coisas tão ruins mas a vida é
assim...”.
A massa
populacional ficou inerte por mais de 20 anos!
A alçada do PT
ao poder serviu para ampliar ainda mais essa inércia, já que as grandes
movimentações populares sempre partiram de sindicatos, partidos de esquerda e
movimentos sociais. Boa parte deles se manteve alinhada ao PT ou, ao menos,
bateu mais leve no PT, por medo de promover a Direita.
Bom, mas tudo
isso é passado. Pelo menos momentaneamente.
Tentar analisar aqui a conjuntura que levou as
pessoas às ruas é cometer os mesmos erros que sociólogos, cientistas políticos,
jornalistas e políticos vêm cometendo diariamente em suas crônicas.
O fato é que as
pessoas foram às ruas em número significativo. Tomaram uma surra ainda mais
significativa da Polícia Militar.
Então, foram às
ruas em número muito maior, principalmente pela indignação e busca pela
liberdade de expressão!
Sem lideranças
globais (apenas pontuais), criou-se um movimento horizontal, heterogêneo e
difuso.
Um movimento voluntário, que levou pessoas a levantarem de seus sofás e saírem as ruas, não necessariamente cooptados por um partido ou liderança, mas pelo sentimento de que era preciso se mover, reividicar uma mudança!
Os protestos
pipocaram em todo o país e transcenderam a questão da revogação da passagem do
ônibus, agregando muitas outras questões.
O Movimento
Passe Livre, provavelmente em um ato de coerência, manteve o discurso focado.
Isso pressionou
bastante os governantes e, finalmente, fez com que recuassem e determinassem a
volta do preço da passagem ao (já altíssimo) patamar anterior.
Não sem antes
espernearem, tentarem taxar tudo e todos de vândalos (muito ajudados por mídia
e polícia!), dizerem que tem orçamento baixo, que a prefeitura é pobre coitada,
que vão ter que tirar de outras áreas (NUNCA do exorbitante lucro dos
empresários ou de seus salários, é claro) e muitas outras falácias para tentar
dar mais uma volta na população.
E foi esse
espernear que fez com que brotasse na sociedade brasileira a chance de uma
guinada muito mais relevante.
Se os
governantes tivessem baixado a tarifa logo no início, se a mídia não tivesse
sido deslavadamente desmentida pelas redes sociais ou se a Polícia Militar
tivesse respeitado o direito de todos à manifestação, provavelmente, nada disso
teria acontecido.
A
insensibilidade, demora e autoritarismo de nossos governantes é que fez com que
a revolta popular tomasse corpo, crescesse e passasse a reivindicar muito mais
do que a revogação do aumento das passagens.
Vale lembrar que
muitas cidades não conseguiram nem sequer essa primeira vitória.
Então, estamos
diante de um momento único, que precisa ser aproveitado.
A vitória dessa
batalha não pode ser esquecida e deve ser valorizada.
Mas não pode ser
interpretada como uma vitória definitiva e ampla, pelo contrário.
Precisa servir
de inspiração para que percebamos que a Democracia Direta é viável e eficaz!
Está mais do que
claro que nossos governantes não lutam, em absoluto, por nossos interesses.
Então, temos que
ser mais participativos.
O povo pode sim
mudar decisões políticas e prejudiciais à população, basta ir às ruas.
Mais do que
isso, temos de ir às ruas reivindicar a implementação de novas formas de
participação política, mais eficazes!
Não é hora de
recuar, pois o momento é único e precisa ser aproveitado!
Mudanças
estruturais podem ser alcançadas.
Mas é preciso
estar disposto, é preciso para de se querer disputar a liderança das
manifestações e lutar pelas manifestações em si, para que elas não murchem,
para que tenham pautas concretas e objetivas.
A liderança é
bem vinda e pode existir, mas não imposta. Deve nascer em um contexto de
aceitação!
E aqui faço uma ressalva quanto às lideranças, pois as lideranças possuem seu interesse específico.
Constituir uma liderança significa correr-se o risco de desarticulação quando a liderança se der por satisfeito. Ora, o líder satisfeito não significa que o povo está satisfeito.
Mas se a mobilização estiver centralizada na figura do líder, quando ele recuar, a desarticulação é iminente.
E por isso os partidos podem acabar complicando tudo, pois vêm fazendo esse jogo de negociações pequenas e recuos há anos.
Talvez, a grande força da mobilização nacional seja justamente a pluralidade de pautas. Não é possível frear a população através de medidas pontuais e pouco significantes estruturalmente.
E aqui, é que espero responsabilidade do Movimento Passe Livre para se dar conta do que as manifestações se tornaram.
Não é socialmente justo que se recue agora apenas porque o aumento da passagem foi revogado.
É hora de ler o impacto que o MPL tem na mobilização nacional, organizando protestos, e seguir em frente!
Ainda assim ,talvez seja preciso achar
pontos em comum que os manifestantes queiram implementar em nossa sociedade (a tarifa do ônibus certamente é um deles) e
não criar um verdadeiro cabo de guerra entre as segregações de Esquerda e
Direita (embora ache isso importante em um segundo momento, não agora!).
O momento é de
união e o adversário é o sistema político nacional, sua incompetência e seu desfavor à população.
E o objetivo
deve ser a desconstrução desse sistema político falido, através de uma reforma
estrutural muito mais séria.
Além de uma
profunda reforma na mobilidade urbana, possuo a minha pauta que considero
central: A luta pela Democracia Direta!
E vou escrever sobre isso também.
O mais importante é que não é hora de recuar. É hora de sonharmos com um país melhor!
Muito bom o texto.
ResponderExcluirEstou aguardando o da Democracia Direta