segunda-feira, 24 de junho de 2013

A direita também disputa ruas e urnas (Valter Pomar)

Compartilho abaixo o texto escrito por Valter Pomar, dirigente do PT.
 
O texto me agrada muito, pois revela o posicionamento crítico aos erros do PT, inclusive às medidas neoliberais (como priorizar lucros de banqueiros e empresários), às alianças com a direita e ao abandono à esqueda.
 
É bom saber que existem petistas críticos ao modelo adotado e clamando por mudanças, à esquerda.
 
Não se trata de uma certeza de que o partido fará a reestruturação (não só ideológica, mas também moral e ética) de que tanto precisa.
 
Trata-se da constatação de que existem pessoas fortes internamente fazendo essas críticas e apontando que o caminho é à esquerda.
 
Portanto, isso redobra a responsabilidade do partido, que só não mudará se não quiser, pois possui ciência, inclusive interna, de seus erros. Acesso não lhe falta a seus erros.
 
A hora é agora. Ou o PT muda ou se prepa para a resposta negativa nas ruas e nas urnas.
 
E, se resolver se enveredar ainda mais à direita, aí sim será surrado pela mídia e oposição direitista como o primo pobre e oportunista!
 
E a esquerda seguirá se contrapondo.
 
A única saída é e sempre fui uma só: Girar à Esquerda.
 
Não há mais espaço para erros. Dez anos já se passaram!
 
E segue o texto:
 
por Valter Pomar
 
Quem militou ou estudou os acontecimentos anteriores ao golpe de 1964 sabe muito bem que a direita é capaz de combinar todas as formas de luta. Conhece, também, a diferença entre “organizações sociais” e “movimentos sociais”, sendo que os movimentos muitas vezes podem ser explosivos e espontâneos.
 
Já a geração que cresceu com o Partido dos Trabalhadores acostumou-se a outra situação. Nos anos 1980 e 1990, a esquerda ganhava nas ruas, enquanto a direita vencia nas urnas. E a partir de 2002, a esquerda passou a ganhar nas urnas, chegando muitas vezes a deixar as ruas para a oposição de esquerda.
 
A direita, no dizer de alguns, estaria “sem programa”, “sem rumo”, controlando “apenas” o PIG, que já não seria mais capaz de controlar a “opinião pública”, apenas a “opinião publicada”.
 
Era como se tivéssemos todo o tempo do mundo para resolver os problemas que vinham se acumulando: alterações geracionais e sociológicas, crescimento do conservadorismo ideológico, crescente perda de vínculos entre a esquerda e as massas, ampliação do descontentamento com ações (e com falta de ações) por parte dos nossos governos, decaimento do PT à vala comum dos partidos tradicionais etc.
 
Apesar destes problemas, o discurso dominante na esquerda brasileira era, até ontem, de dois tipos.
 
Por um lado, no petismo e aliados, o contentamento com nossas realizações passadas e presentes, acompanhada do reconhecimento mais ou menos ritual de que “precisamos mais” e de que “precisamos mudar práticas”.
 
Por outro lado, na esquerda oposicionista (PSOL, PSTU e outros), a crítica aos limites do petismo, acompanhada da crença de que através da luta política e social, seria possível derrotar o PT e, no lugar, colocar uma “esquerda mais de esquerda”.
 
As manifestações populares ocorridas nos últimos dias, especialmente as de ontem, atropelaram estas e outras interpretações.
 
Primeiro, reafirmaram que os movimentos sociais existem, mas que eles podem ser espontâneos. E que alguns autoproclamados “movimentos sociais”, assim como muitos partidos “populares”, não conseguem reunir, nem tampouco dirigir, uma mínima fração das centenas de milhares de pessoas dispostas a sair ás ruas, para manifestar-se.
 
Em segundo lugar, mostraram que a direita sabe disputar as ruas, como parte de uma estratégia que hoje ainda pretende nos derrotar nas urnas. Mas que sempre pode evoluir em outras direções.
 
Frente a esta nova situação, qual deve ser a atitude do conjunto da esquerda brasileira, especialmente a nossa, que somos do Partido dos Trabalhadores?
 
Em primeiro lugar, não confundir focinho de porco com tomada. As manifestações das últimas semanas não são “de direita” ou "fascistas". Se isto fosse verdade, estaríamos realmente em péssimos lençóis.
 
As manifestações (ainda) são expressão de uma insatisfação social difusa e profunda, especialmente da juventude urbana. Não são predominantemente manifestações da chamada classe média conservadora, tampouco são manifestações da classe trabalhadora clássica.
 
A forma das manifestações corresponde a esta base social e geracional: são como um mural do facebook, onde cada qual posta o que quer. E tem todos os limites políticos e organizativos de uma geração que cresceu num momento "estranho" da história do Brasil, em que a classe dominante continua hegemonizando a sociedade, enquanto a esquerda aparentemente hegemoniza a política.
 
A insatisfação expressa pelas manifestações tem dois focos: as políticas públicas e o sistema político.
 
As políticas públicas demandadas coincidem com o programa histórico do PT e da esquerda. E a crítica ao sistema político dialoga com os motivos pelos quais defendemos a reforma política.
 
Por isto, muita gente no PT e na esquerda acreditava que seria fácil aproximar-se, participar e disputar a manifestação. Alguns, até, sonhavam em dirigir.
 
Acontece que, por sermos o principal partido do país, por conta da ação do consórcio direita/mídia, pelos erros politicos acumulados ao longo dos últimos dez anos, o PT se converteu para muitos em símbolo principal do sistema político condenado pelas manifestações.
 
Esta condição foi reforçada, nos últimos dias, pela atitude desastrosa de duas lideranças do PT: o ministro da Justiça, Cardozo, que ofereceu a ajuda de tropas federais para o governador tucano “lidar” com as manifestações; e o prefeito Haddad, que nem na entrada nem na saída teve o bom senso de diferenciar-se do governador.
 
O foco no PT, aliado ao caráter progressista das demandas por políticas públicas, fez com que parte da oposição de esquerda acreditasse que seria possível cavalgar as manifestações. Ledo engano.
 
Como vimos, a rejeição ao PT se estendeu ao conjunto dos partidos e organizações da esquerda político-social. Mostrando a ilusão dos que pensam que, através da luta social (ou da disputa eleitoral) seriam capazes de derrotar o PT e colocar algo mais à esquerda no lugar.
 
A verdade é que ou o PT se recicla, gira à esquerda, aprofunda as mudanças no país; ou toda a esquerda será atraída ao fundo. E isto inclui os que saíram do PT, e também os que nos últimos anos flertaram abertamente com o discurso anti-partido e com certo nacionalismo. Vale lembrar que a tentativa de impedir a presença de bandeiras partidárias em mobilizações sociais não começou agora.
 
O rechaço ao sistema político, à corrupção, aos partidos em geral e ao PT em particular não significa, entretanto, que as manifestações sejam da direita. Significa algo ao mesmo tempo melhor e pior: o senso comum saiu às ruas. O que inclui certo uso que vem sendo dado nas manifestações aos símbolos nacionais.
 
Este senso comum, construído ao longo dos últimos anos, em parte por omissão e em parte por ação nossa, abre enorme espaço para a direita. Mas, ao mesmo tempo, à medida que este senso comum participa abertamente da disputa política, criam-se condições melhores para que possamos disputá-lo.
 
Hoje, o consórcio direita/mídia está ganhando a disputa pelo pauta das manifestações. Além disso, há uma operação articulada de participação da direita, seja através da presença de manifestantes, seja através da difusão de determinadas palavras de ordem, seja através da ação de grupos paramilitares.
 
Mas a direita tem dificuldades para ser consequente nesta disputa. O sistema político brasileiro é controlado pela direita, não pela esquerda. E as bandeiras sociais que aparecem nas manifestações exigem, pelo menos, uma grande reforma tributária, além de menos dinheiro público para banqueiros e grandes empresários.
 
É por isto que a direita tem pressa em mudar a pauta das manifestações, em direção a Dilma e ao PT. O problema é que esta politização de direita pode esvaziar o caráter espontâneo e a legitimidade do movimento; além de produzir um efeito convocatória sobre as bases sociais do lulismo, do petismo e da esquerda brasileira.
 
Por isto, é fundamental que o PT e o conjunto da esquerda disputem o espaço das ruas, e disputem corações e mentes dos manifestantes e dos setores sociais por eles representados. Não podemos abandonar as ruas, não podemos deixar de disputar estes setores.
 
Para vencer esta disputa teremos que combinar ação de governo, ação militante na rua, comunicação de massas e reconstruir a unidade da esquerda.
 
A premissa, claro, é que nossos governos adotem medidas imediatas que respondam às demandas reais por mais e melhores políticas públicas. Sem isto, não teremos a menor chance de vencer.
 
Não basta dizer o que já fizemos. É preciso dar conta do que falta fazer. E, principalmente, explicar didaticamente, politicamente, as ações do governo. Marcando a diferença programática, simbólica, política, entre a ação de governo de nosso partido e os demais.
 
O anúncio conjunto (Alckmin/Haddad) de redução da tarifa e a oferta da força pública feita por Cardozo a Alckmin são exemplos do que não pode se repetir. Para não falar das atitudes conservadoras contra os povos indígenas, da atitude complacente com setores conservadores e de direita, dos argumentos errados que alguns adotam para defender as obras da Copa e as hidroelétricas etc.
 
Para dialogar com o sentimento difuso de insatisfação revelado pelas mobilizações, não bastam medidas de governo. Talvez tenha chegado a hora, como algumas pessoas têm sugerido, de divulgarmos uma nova “carta aos brasileiros e brasileiras”. Só que desta vez, uma carta em favor das reformas de base, das reformas estruturais.
 
Quanto a nossa ação de rua, devemos ter presença organizada e massiva nas manifestações que venham a ocorrer. Isto significa milhares de militantes de esquerda, com um adequado serviço de ordem, para proteger nossa militância dos para-militares da direita.
 
É preciso diferenciar as manifestações de massa das ações que a direita faz dentro dos atos de massa. E a depender da evolução da conjuntura, nos caberá convocar grandes atos próprios da esquerda político-social.

Independente da forma, o fundamental, como já dissemos, que a esquerda não perca a batalha pelas ruas.
 
Quanto a batalha da comunicação, novamente cabe ao governo um papel insubstituível. No atual estágio de mobilização e conflito, não basta contratacar a direita nas redes sociais; é preciso enfrentar a narrativa dos monopólios nas televisões e rádios. O governo precisa entender que sua postura frente ao tema precisa ser alterada já.
 
Em resumo: trata-se de combinar ruas e urnas, mudando a estratégia e a conduta geral do PT e da
esquerda.
 
Não há como deslocar a correlação de forças no país, sem luta social. A direita sabe disto tanto quanto nós. A direita quer ocupar as ruas. Não podemos permitir isto. E, ao mesmo tempo, não podemos deixar de mobilizar.

Se não tivermos êxito nesta operação, perderemos a batalha das ruas hoje e a das urnas ano que vem. Mas, se tivermos êxito, poderemos colher aquilo que o direitista Reinaldo Azevedo aponta como risco (para a direita) num texto divulgado recentemente por ele, cujo primeiro parágrafo afirma o seguinte: "o movimento que está nas ruas provocará uma reciclagem do PT pela esquerda, poderá tornar o resultado das urnas ainda mais inóspito para a direita".

Num resumo: a saída para esta situação existe. Pela esquerda.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

MPL e o primeiro grande erro!

Era para eu falar de Democracia Direta, que continua sendo minha pauta principal.

O momento de falar disso vai chegar.

Mas a hora é de escrever sobre algo que muito me preocupa.

Como a maioria viu em algum veículo de comunicação, o Movimento Passe Livre (MPL) de São Paulo se retirou da liderança das manifestações que vêm ocorrendo em todo o Brasil.

Alegam que o objetivo, que era a redução das passagens, foi atingido e não faz sentido continuar utilizando esse instrumento de protesto, mas que continuarão o trabalho de outras formas.

Há também o discurso extraoficial: a mobilização nacional ganha ares de Nacionalismo e extrema direita e o intuito é esvaziá-las e desmobiliza-las.

Não tenho o direito de julgar ou condenar ninguém, apenas exprimo minha opinião.

E minha opinião é que isso é um erro, talvez o primeiro grande erro do MPL.

Exporei os três principais motivos (em ordem decrescente de importância) pelos quais considero isso um grande erro e faço votos para estar equivocado.

1 – CAMINHO LIVRE PARA A DIREITA

Não é segredo para ninguém que os partidos políticos e alguns movimentos sociais estão enfrentando grande dificuldade em penetrar a fundo nas manifestações.

Em parte porque a população, muito insatisfeita com a classe política, coloca todos no mesmo barco e, então, rejeitam qualquer partido, sem fazer qualquer distinção.

Outro motivo é que uma minoria autoritária, intolerante, facista e de extrema-direita já se infiltrou na mobilização, principalmente entre os nacionalistas “sem causa” e usam desse expediente para se fingir de apolíticos e agredirem os partidos que comparecem institucionalizados.

Pois bem. Nesse contexto, talvez até fizesse sentido recuar e esvaziar o risco iminente de estar alimentando discursos de extrema direita.

O grande problema é que essa manobra passa por uma premissa equivocada.

A premissa de que, como o MPL articulou tudo isso, recuando, será capaz de desarticular.

Isso não necessariamente é verdade. Aliás, provavelmente não é verdade.

Uma boa lição sobre isso está contida no filme “A Onda”.

Não existe dono de uma mobilização de massa. Uma vez que as pessoas se mobilizam, o simples recuar do líder ou do mentor não garante a articulação.

Pelo contrário, garante apenas que se abra caminho para que novas lideranças surjam e se apropriem da movimentação iniciada.

E nesse contexto é que a atitude do MPL abre o caminho para a Direita.

A Direita está lá, infiltrada, inflamando a população contra os partidos, trazendo os valores nacionalistas, erguendo os símbolos golpistas.

Não se pode ignorar que grande parte dos manifestantes são pouco politizados e simplesmente estão insatisfeitos, mas não tem a noção precisa de para onde mirar seus canhões.

Essas pessoas tem orgulho de ser brasileiros e tem uma bandeira do Brasil em casa. É com esse espírito que saem as ruas.

São um prato cheio para direcioná-los em favor dos levantes de extrema Direita.

Os partidos não têm conseguido dialogar com essa massa justamente pela insatisfação com a classe política como um todo.

O MPL conseguia. Tanto que manteve, por ao menos 6 manifestações, o foco em um levante puramente esquerdista: O barateamento do serviço público.

Construção de mobilização social traz responsabilidades imensas.

Sair de cena e achar que isso, por si só, conterá a mobilização é uma ilusão e uma irresponsabilidade, pois abre as portas para que se tome o rumo errado, muito errado.

Principalmente nesse contexto em que os partidos vêm encontrando tantas dificuldades.

Até porque, vale lembrar que temos um partido de "esquerda" no poder. E, aos olhos de muitos dos cidadãos comuns, o PT é o grande problema de suas vidas.

Estes, em geral, fazem pouca distinção entre o PT e os demais partidos de esquerda (esse texto explica isso http://migre.me/f8rXv). Por isso as dificuldades encontradas pelos partidos.

O que se verifica é uma escalada do discurso da classe média de que "chega de ditadura do PT" e "eu sustento esse país".

O caminho está aberto para construções perigosíssimas!! E o MPL tinha, até então, conseguido manter a imensa maioria focada em um projeto de esquerda.

Poderia continuar lutando por projetos de esquerda. É preciso encarar a realidade.

O país está mobilizados e pautas existirão, queiramos ou não. Ora, então lutemos para que sejam pautas sociais, voltadas efetivamente para melhoria da vida da população!

Ao invés disso, estamos abrindo mão dessa construção e deixando-a à mercê dos ultra conservadores!

Uma manobra perigosíssima.

Pode até ser que, de fato, as mobilizações se desarticulem, mas presumir isso é no mínimo arriscadíssimo.

E sem MPL, se as manifestações continuarem, não caberá mais discutir se queremos ou não partidos, pois passaremos a precisar deles.

E muito!

Por fim, espero que ninguém mais de esquerda, incluindo partidos e movimentos sociais, se desmobilize, senão tudo o que está acontecendo poderá terminar em tragédia.



2 – INSENSIBILIDADE SOCIAL

O MPL pregou por anos e anos que não só queria reduzir as tarifas, mas transporte público gratuito.

Essa é uma pauta tradicionalmente de esquerda.

Como são muitas outras. Por exemplo, livre acesso gratuito a serviços públicos de qualidade, estatização de serviços e da produção, mais direitos aos trabalhadores, maior participação da população nas tomadas de decisões, redistribuição de terras, democratização dos meios de comunicação, além de muitas outras.

É compreensível que o MPL queira manter o foco, pois só assim se obtém vitórias significativas.

E foi justamente o foco que trouxe a vitória.

Mas isso não muda em nada as estruturas do país. Apenas adia para o ano que vem nova discussão sobre o preço do ônibus, que continua sendo pago (e muito caro).

A mais valia continua sendo explorada, os serviços públicos continuam péssimos e privatizados, latifundiários continuam explorando o campo como querem...

É inegável, inquestionável, indiscutível que as manifestações tomaram proporção muito maior do que o aumento das passagens.

Foi criada a chance de realmente se propor e discutir reformas e mudanças efetivas em nosso país.

Só que, ao se obter a primeira vitória, que nada muda estruturalmente, recua-se.

Soa como insensibilidade com as pessoas que, apesar de poderem continuar pagando o mesmo preço nos ônibus, continuam com péssimos salários, sem acesso à saúde, educação...

Porque não utilizar a mobilização nacional para se discutir causas mais profundas e efetivamente reestruturarmos injustiças sociais?

E ninguém melhor para conduzir essas propostas do que um movimento consolidado e solidificado, acostumado com as movimentações de rua e com amplo crédito entre os manifestantes.

O MPL está jogando fora a chance de mobilizar pessoas em favor de causas nobres. Pois grande parte da massa de manifestantes os ouve e respeita!

E aqui entra um divisor de águas quanto aos objetivos dos integrantes do MPL.

Me desculpem, pois sei que não é, em absoluto, essa a intenção dos integrantes do MPL.

Mas recuar agora é reforçar o discurso inicial de Veja, Folha de São Paulo e, principalmente, Arnaldo Jabor de que quem promove tudo isso são pessoas de classe média pouco afetadas pelo resultado final das manifestações.

Afinal, há que se raciocinar que, o indivíduo que efetivamente necessita de mudanças estruturais em nossa sociedade, por ser explorado e esmagado todos os dias, sobrevivendo, nem sequer tem o direito de recuar.

Essa é a chance de uma vida melhor.

E o esquerdista responsável e solidário às causas dos mais pobres precisa se colocar nessa condição.

Ter em mãos uma mobilização nacional e simplesmente recuar não deveria, em hipótese alguma, ser uma opção.

Ter a chance de mudar a vida de pessoas que passam fome, são exploradas e discriminadas e simplesmente se dar por satisfeito com o preço da passagem de ônibus é incoerente com os sonhos de esquerda de um país melhor.

Até porque, o próprio MPL diz que, independentemente de qualquer outro engajamento, sua luta é pelo Passe Livre.

Ora, levar 100 mil pessoas às ruas e desistir do seu principal objetivo? Se contentar com a mera revogação do aumento?

O povo está apoiando a causa, está de olho no lucro dos empresários, sabe que inflação não impacta diretamente o custo do transporte e etc... (falei disso tudo em outro texto http://migre.me/f88bf).

Se o MPL, quando era um movimento pequeno, nunca desistiu, porque recuar agora de seu principal objetivo, com toda a população apoiando?

Pelo menos a luta pelo Passe Livre, cuja viabilidade foi escancarada para a população, deveria continuar igual, por meio de manifestações.

É na rua que se constrói democracia popular e direta.

O resto é burocratizar os movimentos sociais!

3 – CARA DE ACORDO POLÍTICO-PARTIDÁRIO

Esse último ponto está no final porque é pouco relevante e não condiz com minha opinião.

Mas é impossível negar que. da maneira como tudo acabou, ficou parecendo que a redução do preço das passagens e consequente recuo do MPL não passaram de um acordo político-partidário.

Existe no ar uma sensação de que Haddad e Alckimin condicionaram a redução das passagens ao fim das convocações.

E aí a 7ª convocação não só não podia ser desconvocada como também serviria para mascarar os termos desse acordo.

Sendo verdade ou não (e eu até acredito que não seja), o simples fato de parecer ser isso - principalmente diante de uma chance tão grande de se mobilizar nosso país por grandes causas, de trazê-lo um pouco mais para a esquerda – só tira a credibilidade dos importantíssimos e nobríssimos Movimentos Sociais.

Em outros momentos, provavelmente esse tipo de acordo não teria nada demais e seria absolutamente corriqueiro, pois faz parte da obtenção de vitórias.

Mas agora, diante de tudo o que ocorreu, de tamanha mobilização, de tantas causas importantes que podem ser debatidas? Não dá achar que eventual acordo seja normal e corriqueiro.

Continuo respeitando, admirando e acreditando no MPL. Seguirei apoiando suas causas em mobilizações futuras.

Mesmo assim, penso que essa recuada é um tremendo erro.

A chance de construir novos rumos (Gabriel Reis)

por Gabriel Reis
Tem alguma coisa acontecendo, e uma coisa muito séria.


De repente, vem um sentimento inexplicável, uma vontade incrível de estar na universidade, debatendo com professores e amigos, de ir trabalhar, para discutir com chefes e colegas, uma vontade de ir pra rua, conhecer pessoas com uma realidade totalmente discrepante para simplesmente discutir a situação e as aspirações da nossa Nação.

O brasileiro tem características peculiares. De um lado, a total descrença dos desconfiados. "Isso não vai dar em nada!" "Falam que não são só 20 centavos, mas é só abaixar que ninguém mais sai de casa!" "De que adianta protestar, se eles vão ficar rindo da nossa cara e nada vai mudar?"

Tenham certeza:

Vocês, céticos, ficarão para trás.

Vocês, elitizados conservadores, que refutam qualquer forma de mudança para que não se altere a sua posição, ficarão para trás.

Vocês, políticos arrogantes, que se escondem atrás de votos irresponsáveis, que lhes permitiram um mandato corrupto, com políticas individualistas, também ficarão para trás.

Eu não tenho a mínima ideia do que vai acontecer. É isso que me faz querer estar na rua, dialogando, entendendo a mentalidade comum, e traçando os novos rumos desse país.

As mudanças não vêm de agora. Há décadas eu ouço dos movimentos sociais do passado, liderados por uma juventude lutadora que não aceitou um regime antidemocrático e o derrubou. Ouço histórias das baixas que a família sofreu, lutando por uma liberdade impossível. Para os que morreram na ditadura, "os tempos nunca mudaram, a democracia nunca se estabeleceu". É claro que não! Eles morreram com a certeza de que deram mais um passo rumo à democracia.

Depois disso, lutamos pelo direito de voto igualitário, e novamente as ruas foram tomadas por uma juventude inconformada. E se estabeleceu um governo comprovadamente insustentável por tanta corrupção, e novamente as ruas se viram lotadas de jovens revoltados com a injustiça que se impunha a eles.

E de repente, esse jovens sumiram!

Eles não morreram.

A idade veio, eles envelheceram.

 Seus sucessores não viveram ditadura. Não viveram a inflação estratosférica. Não viveram a sucessão Ditadores - Sarney - Collor. Portanto, quando se inseriram na sociedade, reelegeram Sarney, reelegeram Collor. Viram a corrupção gritante dos governos FHC e PT, e tudo o que se ouviu foram gritos isolados. Afinal, as injustiças de outrora já não existiam. O medo, o desespero de se estar inserido em um sistema insustentável já não penetrava o coração do estudante brasileiro.

Eu participei do movimento estudantil da minha escola. Fui às ruas efetivar o movimento FORA SARNEY. Votei em inúmeros candidatos diferentes, na esperança de, por um lapso, todos votarem na alternativa, não no comodismo, e o cenário político brasileiro se transformar.

É claro que eu não fui sozinho! Mas nós simplesmente não fomos acompanhados. Os mesmos céticos de agora, a minha vida inteira foram céticos com todas as manifestações que tentei aderir. Que frearam o Movimento Estudantil na minha universidade. Que absolutamente não acreditam em mudança pelo simples fato de não acreditar.

Os velhos, veteranos de guerra, olham com desdém e falam que "A luta já não é mais a mesma". Isso é ridículo!

Os antigos céticos reacionários são os políticos de hoje. Os antigos revoltados se corromperam, pois foram continuar suas lutas escondidos em partidos políticos, com a hipócrita mentalidade de que "os fins justificam os meios", se esquecem dos "fins", nunca superam ou reparam os "meios".

Eu vi uma publicação do Sr. Plínio de Arruda Sampaio refutando os gritos para que se baixem as bandeiras partidárias, e para que se levante a única bandeira que une a todos. Fiquei envergonhado.
Não ignoro ou menosprezo o papel fundamental que alguns partidos já exerceram na história política do Brasil. Mas esse momento é único! E nós não queremos que seja uma vitrine... Não queremos que se faça propaganda. Que haja destaque partidário pela participação na passeata. É claro que o movimento prega pela liberdade de expressão, então cada um levanta a bandeira que quer, grita o que quer! Mas esse é o movimento do POVO BRASILEIRO, queremos destaque pra essa bandeira, e que os partidos políticos mostrem que vale a pena quando esse momento for superado, e a política se reinventar no Brasil. A descrença sobre vocês - sobre CADA UM DE VOCÊS, partidos e políticos que já cometeram qualquer irregularidade na nossa política - ainda é muito forte.

A luta é do POVO. E é isso que me traz aquele sentimento citado no início do texto. A pele arrepia, o olho transborda: Pela primeira vez na vida, a minha geração está fazendo a diferença! "Jogaram Mentos na geração Coca-cola". Acontece que somos TÃO MIMADOS, mas TÃO MIMADOS, que aquela parcela, que não estava NEM AÍ pro que estava acontecendo, que a vida inteira não esteve NEM AÍ pra nada, olhou o que aconteceu na última quinta-feira e pensou "Eu não sei porque estão gritando... Eu não sei o que estão gritando, eu não quero gritar junto. Mas esses policiais, com bombas de gás e balas de borracha estão me dizendo que EU NÃO POSSO GRITAR? aaaaaaaaaaaaaah... Agora eu vou gritar!"

E esse é o grande mérito dessa manifestação, da nossa geração: Todas as nossas liberdades e direitos nos são tirados diariamente, indiretamente. Quando uma parcela mínima das nossas liberdades e direitos nos são declarada e gritantemente privadas... Os mimados acomodados vão às ruas.

E gritam, e causam. E o governo teme. E o governo cede. E finalmente, chegamos a um divisor de águas: Paramos por aí, ou queremos muito mais? É claro que queremos muito mais! Se o governo está com medo e está recuando, nossa efetividade está evidenciada! Temos o Poder, vamos exercê-lo!!!

Eu participei da manifestação em Araraquara. Interrompemos uma sessão da câmara, eles nos deram voz, nós não demos voz a eles, não existiu diálogo concreto.

Apesar da fala dos vereadores, os manifestantes saíram de lá sem ouvir uma palavra.

Não é assim que se muda as coisas. Os políticos que perceberam que as mudanças estão acontecendo, vão se adaptar, mudar junto e melhorar as coisas. Os que se apegarem à sua ilusão de poder intocável, ficarão para trás.

Hoje vou para São Paulo, efetivar essa luta na maior cidade do país.

Senhores Políticos: Nossas exigências são claras. Nossas exigências são possíveis. Nossas exigências requerem esforços.

ATENDAM às nossas exigências.

Senhores Manifestantes: Nossa luta apenas começou. Se vocês quiserem se iludir que alguma coisa vai mudar com a baixa nas passagens, que se efetivou através do sacrifício de recursos públicos, com manutenção da lucratividade empresarial, vocês estão iludidos. TOMEM as ruas novamente. Exijam o fim da corrupção, a extinção da PEC 37, nova baixa nos preços das passagens, melhores condições de transporte, saúde, educação.

Eles continuarão nos ouvindo, continuarão cedendo. Eu sou totalmente contra qualquer tipo de violência, principalmente em manifestações sociais. Mas se a nossa vontade não for feita, utilizaremos nossas ferramentas, e viabilizaremos nossas exigências à força!

Senhores Policiais: A conduta vegonhosa de Quinta-feira se transformou em exemplar nessa semana. Eu gostaria de lembrá-los de uma coisa - Vocês, assim como todos os demais componentes de uma sociedade, têm uma obrigação social muito clara: A polícia existe para proteger a população. São os agentes da sociedade que têm licença, concedida pela sociedade, para portar recursos exclusivos, financiados pela sociedade, para garantir a segurança dessa sociedade. Não me interessa quais as ordens que chegam a vocês, de políticos ou de seus superiores. OS SENHORES NÃO TÊM O DIREITO DE VOLTAR ESSAS ARMAS CONTRA A SOCIEDADE!

Se políticos mandarem um médico deixar um paciente morrer, ele é obrigado a desobedecer. Se os políticos mandarem um professor emburrecer seus alunos, ele é obrigado a desobedecer. Os senhores têm um juramento voltado para a PÁTRIA, não para o governador. Quando o dilema se estabelecer, os senhores têm, sim, a OBRIGAÇÃO de voltar suas armas contra o governo, não contra a população.

Manifestações pacíficas são rebatidas com argumentos, não com força. A função da polícia não é argumentar, portanto não é rebater a manifestação pacífica. Compareçam para prender e reprimir os agressores. Compareçam para proteger a população. Quando o dilema se estabelecer... Virem suas armas para o governo, tirem a farda e lembrem a todos que vocês são cidadãos. Explorados e injustiçados da mesma maneira, lutem e reivindiquem da mesma maneira!

Você, que não sai à rua porque sua idade já passou, por medo, ou porque não é jovem estudante... ESSE É O SEU MOVIMENTO! Esse é o país que você vai deixar aos seus sucessores. Você só está inserido em uma sociedade que te dá certas condições, porque um dia alguém foi à rua, garantir o futuro que hoje é a sua realidade. E nós continuaremos fazendo isso, dia após dia, geração após geração, independentemente dos sacrifícios que venham a ocorrer. Muitos morreram ou sofreram por nós. Que estejamos dispostos a fazer o mesmo pelos próximos!

Pra mim, o verso do hino que ilustra esse momento, não é que finalmente deixamos de estar "Deitado eternamente em berço esplêndido", ou que "Verás que um filho teu não foge à luta", mas sim "NEM TEME QUEM TE ADORA À PRÓPRIA MORTE"!!

Porque essa é a nossa Revolta, isso é o Brasil:

Eles nos matam todos os dias, em todos os aspectos, com todos os seus recursos. Não temos medo de morrer, muito menos por esse Brasil.

Temos é disposição para mudar.

Vamos mudar.
#ChangeBrazil

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Redução da tarifa é a primeira vitória!

Hoje pretendia falar de imprensa e mídia, mas, como ao vivo é diferente, não posso falar de outra coisa que não da importantíssima redução da tarifa.

A primeira coisa que é preciso aprender com a redução da tarifa é que o povo tem sim força, muita força!!

A rua é espaço irrenunciável de construção democrática.

As pessoas queriam pagar menos (na verdade, deixar de pagar mais) pelo ônibus e conseguiram.

Inúmeras questões justificam o pleito de redução da tarifa.

Eu coloco como ponto central a viabilidade, inclusive, de o transporte público ser de graça.

Já existiu na cidade de São Paulo projeto para tarifa zero e que era apoiado por 70% da população. Então não é coisa da esquerda radical.

Ninguém melhor do que um dos autores do projeto para explicar isso!
(http://cbn.globoradio.globo.com/programas/cbn-noite-total/2013/06/18/PROPOSTA-PREVIA-TARIFA-ZERO-NO-TRANSPORTE-PUBLICO-DE-SP-DURANTE-GOVERNO-DE-ERUNDINA.htm)

Existem inúmeras questões a serem colocadas. Como, por exemplo: Quem disse que a inflação é parâmetro para reajuste de serviço público?

Se o serviço é público, qual é o problema com o subsídio? Não é para isso que os impostos servem?

Todo mundo tem que se matar para pagar esse preço absurdo. O aumento representa redução indireta da renda do trabalhador, principalmente somada à inflação que, aí sim, impacta integralmente o orçamento das pessoas.

E o lucro das empresas de transporte? Esse tem que ser preservado?

Porque utilizar a inflação? Por acaso os operários do sistema público de transporte ganharam aumento pela inflação? O diesel, o pneu, os veículos motorizados... Tudo isso subiu pela inflação?

Que eu me lembre, os veículos motorizados foram barateados pela redução do IPI... Porque não zerar o IPI para as concessionárias de ônibus? Isso não interessa ao governo?

Porque acabar com a taxa do Controlar, paga pelas classes A e B e jogar o déficit da conta na tarifa do ônibus, paga pelas classes C e D? Que usem o Controlar para algo decente, além de enriquecimento ilícito de empresários.

Aliás, porque existe QUALQUER tributo sobre serviços públicos? Para pagarmos mais caro pelo serviço que nós mesmos pagamos para que exista?

Porque em NENHUM momento, se cogita arrumar verba reduzindo a folha salarial da Câmara ou da Prefeitura e seus secretários? Fala-se em casas populares, hospitais, escolas... E as verbas administrativas?

E a renda do trabalhador? Essa é reajustada pela inflação?

Quanta conversa fiada!

Enfim, são centenas de questões que explicitam o engodo governamental em morder mais um pedaço das rendas do povo. Nesse caso, do povo pobre. Aliás, como na maioria dos casos.

Isso tudo é para dizer que essa primeira vitória demonstra cabalmente que somos enganados escancaradamente pelos nossos governantes!

Esse aumento nunca foi necessário e visava, na verdade, aumentar a arrecadação já absurda e inescrupulosa das prefeituras.

Isso para não haver qualquer retorno em serviços de qualidade ou melhora nos péssimos serviços existentes!

Dito isso, que é o ponto central, fica claro que a mera retomada do patamar anterior de preço, já totalmente abusivo, não é suficiente!

O transporte público diário (mero direito de ir e vir) continua representando, após a revogação do aumento, mais de 25% do salário mínimo. Um verdadeiro abuso!!!

Portanto, a causa é justíssima e a vitória é apenas parcial, pois pode-se conseguir muito mais.

Mas é preciso lembrar de como isso foi conseguido.

Isso foi conseguido através do comparecimento de mais de 300 mil pessoas às ruas em todo o Brasil, ao longo de mais de uma semana.

Isso mesmo, protestos populares, como não se via desde as Diretas Já, é que levaram a essa vitória.

A grande verdade é que dentro do período democrático, o brasileiro pareceu se conformar, pensar “Ah, sou livre, escolho meu governante. As coisas tão ruins mas a vida é assim...”.

A massa populacional ficou inerte por mais de 20 anos!

A alçada do PT ao poder serviu para ampliar ainda mais essa inércia, já que as grandes movimentações populares sempre partiram de sindicatos, partidos de esquerda e movimentos sociais. Boa parte deles se manteve alinhada ao PT ou, ao menos, bateu mais leve no PT, por medo de promover a Direita.

Bom, mas tudo isso é passado. Pelo menos momentaneamente.

Tentar analisar aqui a conjuntura que levou as pessoas às ruas é cometer os mesmos erros que sociólogos, cientistas políticos, jornalistas e políticos vêm cometendo diariamente em suas crônicas.

O fato é que as pessoas foram às ruas em número significativo. Tomaram uma surra ainda mais significativa da Polícia Militar.

Então, foram às ruas em número muito maior, principalmente pela indignação e busca pela liberdade de expressão!

Sem lideranças globais (apenas pontuais), criou-se um movimento horizontal, heterogêneo e difuso.
 
Um movimento voluntário, que levou pessoas a levantarem de seus sofás e saírem as ruas, não necessariamente cooptados por um partido ou liderança, mas pelo sentimento de que era preciso se mover, reividicar uma mudança!

Os protestos pipocaram em todo o país e transcenderam a questão da revogação da passagem do ônibus, agregando muitas outras questões.

O Movimento Passe Livre, provavelmente em um ato de coerência, manteve o discurso focado.

Isso pressionou bastante os governantes e, finalmente, fez com que recuassem e determinassem a volta do preço da passagem ao (já altíssimo) patamar anterior.

Não sem antes espernearem, tentarem taxar tudo e todos de vândalos (muito ajudados por mídia e polícia!), dizerem que tem orçamento baixo, que a prefeitura é pobre coitada, que vão ter que tirar de outras áreas (NUNCA do exorbitante lucro dos empresários ou de seus salários, é claro) e muitas outras falácias para tentar dar mais uma volta na população.

E foi esse espernear que fez com que brotasse na sociedade brasileira a chance de uma guinada muito mais relevante.

Se os governantes tivessem baixado a tarifa logo no início, se a mídia não tivesse sido deslavadamente desmentida pelas redes sociais ou se a Polícia Militar tivesse respeitado o direito de todos à manifestação, provavelmente, nada disso teria acontecido.

A insensibilidade, demora e autoritarismo de nossos governantes é que fez com que a revolta popular tomasse corpo, crescesse e passasse a reivindicar muito mais do que a revogação do aumento das passagens.

Vale lembrar que muitas cidades não conseguiram nem sequer essa primeira vitória.

Então, estamos diante de um momento único, que precisa ser aproveitado.

A vitória dessa batalha não pode ser esquecida e deve ser valorizada.

Mas não pode ser interpretada como uma vitória definitiva e ampla, pelo contrário.

Precisa servir de inspiração para que percebamos que a Democracia Direta é viável e eficaz!

Está mais do que claro que nossos governantes não lutam, em absoluto, por nossos interesses.

Então, temos que ser mais participativos.

O povo pode sim mudar decisões políticas e prejudiciais à população, basta ir às ruas.

Mais do que isso, temos de ir às ruas reivindicar a implementação de novas formas de participação política, mais eficazes!

Não é hora de recuar, pois o momento é único e precisa ser aproveitado!

Mudanças estruturais podem ser alcançadas.

Mas é preciso estar disposto, é preciso para de se querer disputar a liderança das manifestações e lutar pelas manifestações em si, para que elas não murchem, para que tenham pautas concretas e objetivas.

A liderança é bem vinda e pode existir, mas não imposta. Deve nascer em um contexto de aceitação!
 
E aqui faço uma ressalva quanto às lideranças, pois as lideranças possuem seu interesse específico.
 
Constituir uma liderança significa correr-se o risco de desarticulação quando a liderança se der por satisfeito. Ora, o líder satisfeito não significa que o povo está satisfeito.
 
Mas se a mobilização estiver centralizada na figura do líder, quando ele recuar, a desarticulação é iminente.
 
E por isso os partidos podem acabar complicando tudo, pois vêm fazendo esse jogo de negociações pequenas e recuos há anos.
 
Talvez, a grande força da mobilização nacional seja justamente a pluralidade de pautas. Não é possível frear a população através de medidas pontuais e pouco significantes estruturalmente.
 
E aqui, é que espero responsabilidade do Movimento Passe Livre para se dar conta do que as manifestações se tornaram.
 
Não é socialmente justo que se recue agora apenas porque o aumento da passagem foi revogado.
 
É hora de ler o impacto que o MPL tem na mobilização nacional, organizando protestos, e seguir em frente!

Ainda assim ,talvez seja preciso achar pontos em comum que os manifestantes queiram implementar em nossa sociedade (a tarifa do ônibus certamente é um deles) e não criar um verdadeiro cabo de guerra entre as segregações de Esquerda e Direita (embora ache isso importante em um segundo momento, não agora!).

O momento é de união e o adversário é o sistema político nacional, sua incompetência e seu desfavor à população.

E o objetivo deve ser a desconstrução desse sistema político falido, através de uma reforma estrutural muito mais séria.

Além de uma profunda reforma na mobilidade urbana, possuo a minha pauta que considero central: A luta pela Democracia Direta!

E vou escrever sobre isso também.

O mais importante é que não é hora de recuar. É hora de sonharmos com um país melhor!

terça-feira, 18 de junho de 2013

A Linda Mobilização Nacional e a Luta Contra a Tentativa de Apropriação Ideológica Indevida

Já escrevi e modifiquei textos sobre os protestos diversas vezes.

As coisas mudam a todo instante, todos os dias.

Por isso, decidi modificar a dinâmica.

Escreverei textos menores, abordando diariamente um ponto diferente. Pretendo falar de esquerda, de direita, de partidos, de mídia... Enfim, um pouco de cada vez.

O primeiro da série é dedicado ao principal: MOBILIZAÇÃO!

1.  A LINDA MOBILIZAÇÃO NACIONAL E A LUTA CONTRA A TENTATIVA DE APROPRIAÇÃO IDEOLÓGICA INDEVIDA

Esse texto tinha um outro começo, um começo racional escrito há aproximadamente 6 dias.

Um começo que buscava explicar a racionalidade de um protesto sobre uma diferença de R$ 0,20 na tarifa do ônibus. Essa diferença existe e continua sendo relevantíssima.

Porém, joguei toda essa racionalidade fora momentaneamente, pois o momento é especial, é único ao longo de minha existência enquanto cidadão.

Por isso, gostaria de destacar a minha felicidade coerente, minha satisfação consciente, minha alegria pertinente não só com os protestos, mas com o movimento que se instaurou na cidade de São Paulo e vem se espalhando por outras localidades do nosso país.

O que temos observado nas ruas, bares, restaurantes, padarias, televisões, jornais, escritórios de advocacia e tantos outros meios é a discussão aberta, escancarada e fundamentada da população sobre os mais diversos temas.

Alguns discutem a legitimidade do movimento, outros discutem a relevância de R$ 0,20, há quem coloque em pauta a ação da polícia, existem os que reclamam do trânsito nos dias de protesto, os que falam da representatividade das classes baixas nos movimentos sociais, os que defendem a equivalência entre PT e PSDB... Enfim, uma infinidade de temas vem sendo discutidos diariamente em centenas de conversas travadas pela população.

Por isso, gostaria de parabenizar imensamente o Movimento Passe Livre (do qual não participo) e agradecer a todos, sem exceção, que contribuíram para esse debate.

Independentemente de ter sido uma colaboração conservadora ou liberal, de esquerda ou de direita, reacionária ou libertária, o importante é discutir!

Nosso país carece, há muito tempo, de fomentos ao debate, que é, indiscutivelmente, o maior ganho desse movimento.

Qual foi a última vez que as classes A e B ou políticos poderosos dedicaram uma semana inteira de suas vidas a discutir o preço da tarifa de ônibus? Nem que seja para meter o pau em tudo e em todos, o momento é único, é especial.

E, agora sim politizando, parabéns à esquerda brasileira por construir esse momento!

O que mais me alegra de tudo o que observei até o momento é a capacidade que o Movimento Passe Livre ("auxiliado" pela truculência surreal da Policia Militar e parcialidade da Mídia, é bem verdade) teve de coalizar opiniões.

Eu ainda vou escrever - em breve - um texto que demonstra minimamente os pilares que nos possibilitam distinguir esquerda e direita na sociedade moderna e pouco politizada. Essa diferença existe e é muito importante.

Mas, o que importa mesmo para o momento é a capacidade do Movimento Passe Livre de diluir, em sua grande parte, as noções primitivas de Direita e Esquerda que estão há muito instituídas e segredadas (veladamente, é bom que se diga) em nosso país.

Não que saber quem é de esquerda ou de direita não seja relevante, obvio que é. Também é imensamente importante saber as bandeiras que devem ser erguidas.

Mas o que verifico é que muitos abdicaram momentaneamente do cabresto que a posição política nos impõe e conseguiram enxergar que, longe dessas amarras, temos inúmeros pontos em comum e podemos sim aproveitar a força coletiva das mais diversas frentes políticas ao menos para trabalhar em prol dos interesses que lhes são coincidentes.

A eventual disputa maciça deve ficar para um segundo momento!

Qualquer leitor atento de jornais ou revistas, usuário do Facebook, Twitter, ou telespectador de televisão é capaz de notar a nítida mudança de foco conseguida pelo movimento.

Os protestos tiveram início como qualquer protesto tem início, com baixa importância e atenção.

Logo que a coisa ganhou força, passaram a ser fortemente hostilizados, pintados de vândalos, rebeldes sem causa, filhinhos de papai desocupados. Típicos argumentos de desconstrução e desarticulação.

A partir de quinta-feira, a coisa mudou de figura.

A polícia agrediu e agrediu muito os manifestantes. Não param de pipocar vídeos, fotos, relatos, testemunhos, áudios e muitas outras fontes que demonstram a nítida tentativa de se desmoralizar, através da criação da falsa perspectiva de violência e vandalismo, um movimento político-social.

Aliado a isso, veio a certeza de que a polícia, na figura da ilustríssima Tropa de Choque, simplesmente perdeu a mão - como se fosse a primeira vez... - e agrediu a tudo e a todos, desenfreadamente.

Chegou-se ao cúmulo de agredir transeuntes alheios ao protesto. Tudo sobre a justificativa justamente de se proteger a volta para casa desses transeuntes, alheios ao protesto!

Nesse momento é que ocorreu a reviravolta que constituiu toda a beleza desse momento único, pelo menos, ao longo dos últimos 20 anos.

Uma parcela significativa da população antes indiferente ou contrária aos protestos se deu conta do pano de fundo que legitima toda essa mobilização.

Ficou claro que, apesar da importância do aumento de R$ 0,20 na passagem de ônibus, o Movimento Passe Livre transcendeu essa barreira e concebeu (ainda que acidentalmente) um veículo direto, popular e eficaz para mobilização popular.

A magia da mobilização e do apoio popular está em se enxergar, em um movimento iniciado por conta de um aumento de R$ 0,20 na tarifa do ônibus, a possibilidade de se aderir à lutas muito mais complexas - e igualmente significativas -, como o autoritarismo governamental, o total sucateamento dos serviços públicos, o descaso com a população, os absurdos da PEC 37, os preços exorbitantes impostos aos brasileiros, a violência desenfreada, além de muitos outros absurdos revoltantes.

Mais do que isso, uma grande parcela da população finalmente se deu conta, ao olhar as imagens difundidas (não pela mídia, mas pela própria população), de que alguma coisa estava errada.

Como pode o simples fato de se romper o trajeto designado para uma manifestação, os gritos de "sem violência" ou o porte de vinagre serem pretextos para uma saraivada de balas de borracha, cassetetes a torto e a direito, bombas para todos os lados, agressões gratuitas até mesmo à população que simplesmente estava no local errado na hora errada, tudo isso supostamente legitimado pela "mão firme" do Governador do Estado.

O discurso governamental é de se manter a ordem. Eu prefiro outro nome. O que se busca é a manutenção da inércia.

O que os nossos governantes querem é que todos sigam paulatinamente sua rotina, indo e voltando do trabalho, pegando trânsito e, no máximo, reclamando na mesa do jantar. Isso deixa o caminho livre para que eles ponham em prática seu sórdido plano de domínio, manipulação e enriquecimento ilícito.

Mas chega! As pessoas voltaram e precisam continuar voltando a pensar.

E aqui, uma parcela da Esquerda diz “nós nunca paramos...”. Soberba! A realidade do país é essa, o povo estava maciçamente desarticulado. É preciso inteligência para compreender o momento.

Tenho para mim - muito mais uma esperança do que uma constatação - que grande parte da população, independentemente do mérito dos protestos, se fez a seguinte pergunta "Espere aí, e o dia em que eu quiser reivindicar algo que considere relevante, como serei tratado pela polícia?"

Qualquer cidadão que preze pela democracia e, consequentemente, por seu direito de livre expressão, deveria, ao assistir atos de absoluta truculência contra uma manifestação pacífica, questionar como seriam tratados seus mesmos direitos em situação similar.

O ponto central do que ocorreu em São Paulo é, a meu ver, bastante simples: é a revolta contra a afronta ao direito de liberdade de expressão.

Com o perdão da palavra, foda-se se eu, você, fulano, ciclano ou beltrano concordam ou discordam do protesto ou do aumento da passagem. O que verdadeiramente importa é a tomada de consciência de que, certas ou erradas, as pessoas tem total direito de se manifestar. Isso é legítimo!!

Agora, tem surgido uma nova corrente. A corrente de pessoas que se dizem preocupadas com a “falta de liderança” dos protestos, ou a falta de canalização para uma questão específica.

Alegam, por exemplo, que a Direita está tentando redirecionar o movimento popular em prol das suas questões como, por exemplo, derrubar o Governo Federal.

A meu ver, isso é uma clara tentativa de se operar um estelionato intelectual contra essa revolta popular.

O que se busca é atribuir cara e caráter políticos (obviamente através de uma bandeira partidária e cada um oferece a sua) a um movimento que é, na verdade, popular e social.

A primeira coisa que precisa ficar clara é que a imensa maioria das revoltas populares bem sucedidas no mundo sempre foram heterogêneas.

As próprias Diretas Já no Brasil ou a Revolução Francesa contaram com esquerdistas e direitistas. Não é hora de cair nesse canto da sereia de que não dá para coalizar.

Esses caras vêm coalizando há muito tempo. Veja o que o PT, por exemplo, fez para chegar ao poder.

O que precisa ficar claro é que as pessoas não estão unidas por serem de esquerda ou de direita. Isso é secundário no momento e deverá ser discutido apenas se a movimentação que se iniciou no nosso país se tornar muitíssimo maior.

Nesse momento, todos são aliados de uma causa comum que é a insatisfação geral e absoluta com nossos governantes, a busca por mudanças estruturais!!

Permanecemos mais de 20 anos sem uma movimentação de massa significativa. Agora, ao invés de se buscar maior mobilização, querem criticar o que vem ocorrendo. Só podem querer retomar a inércia, ainda que de maneira torta!

Não é hora de dizer “você não serve para o meu protesto”. Acordem, não tem dono de protesto – embora tenha muito partido louco para se tornar – a mobilização é natural e espontânea do cidadão comum, de bem, aquele que não precisa encher o peito todos os dias para falar “sou um intelectualoide” e, ainda assim, resolveu se mexer.

Aqueles que se julgam com mais direito de protestar que outros só podem estar querendo antecipar os resultados já previstos por George Orwell em A revolução dos bichos.

O movimento popular que toma conta do Brasil é nascido, principalmente, do desejo individual de participar de uma mudança concreta no país. Está profundamente sedimentado na sensação de que a via partidária ,tradicional e tão antiga, simplesmente não tem funcionado!

Os partidos políticos e os movimentos sociais (de esquerda) de bandeira têm sim papel importante na viabilização para que isso ocorra, pois vêm se manifestando e protestando há muito tempo, buscando viabilizar o apelo popular.

Mas o engajamento populacional não passa por identidades partidárias ou de bandeiras e muito menos ideológicas engessadas (talvez ideológicas híbridas e em construção).

Por isso, faço um apelo aos Partidos Políticos, principalmente aos mais conscientes: Antes de pré-julgarem que a mobilização social precisa de vocês (o que é muito fácil, diga-se de passagem), deixem as coisas acontecerem.

O papel fundamental dos partidos deve se restringir apenas a manter o foco da discussão e apontar os abusos midiáticos para desvirtuar bandeiras. Deixem, ao menos uma vez, que o povo faça o resto!

Não compreender isso é se colocar indevidamente no caminho da oportunidade única de se ampliar o debate e as manifestações!

Amigo partidarista, valorizamos muito as suas ideias, suas causas e reconhecemos o imenso valor que você, na qualidade de Militante, tem nisso tudo, já que vêm protestando há séculos e viabilizaram tudo isso.

Mas há que se ter responsabilidade e sensibilidade. Continue vindo, bradando suas ideias, seus pensamentos. Apenas deixe a bandeira em casa, deixe os gritos de guerra partidários para outro momento.

Promova você, sua individualidade, o seu peso enquanto cidadão, a sua capacidade de mudança, seu amor pelo país, as causas em que acredita. O seu partido, por melhor e mais bem intencionado que seja, pertence à uma classe: a Classe Política.

E é essa a classe da qual estamos cansados. Acho que o povo merece a tentativa de abrir uma nova via. Por favor, respeito!

No mais, continue denunciando abusos, subversões, tentativas reacionárias de desvirtuamento. E se conseguirmos manter uma marcha focada e bem organizada, suprapartidária e sem bandeiras? Dê essa chance ao Brasil!

Se a coisa patinar (o que, aliás, já vinha ocorrendo nos velhos moldes propostos pelos partidos há anos), repensamos!

Muitos podem pensar: "Porra, o cara vem se voltar contra os Partidos?? Olha o que a mídia reacionária está fazendo!!"

Sim, foco nos partidos por um motivo muito simples.

A mídia reacionária está derrotada, seu discurso não está sendo comprado!

É hora de frear levantes que verdadeiramente possam prejudicar a beleza do que o Brasil está vivendo e, na onda de protestos modernos, pelo menos no primeiro momento, esse risco não está mais na mídia tradicional.