Era para eu falar de Democracia
Direta, que continua sendo minha pauta principal.
O momento de falar disso vai
chegar.
Mas a hora é de escrever sobre
algo que muito me preocupa.
Como a maioria viu em algum
veículo de comunicação, o Movimento Passe Livre (MPL) de São Paulo se retirou da liderança
das manifestações que vêm ocorrendo em todo o Brasil.
Alegam que o objetivo, que era a
redução das passagens, foi atingido e não faz sentido continuar utilizando esse
instrumento de protesto, mas que continuarão o trabalho de outras formas.
Há também o discurso extraoficial:
a mobilização nacional ganha ares de Nacionalismo e extrema direita e o intuito
é esvaziá-las e desmobiliza-las.
Não tenho o direito de julgar ou
condenar ninguém, apenas exprimo minha opinião.
E minha opinião é que isso é um
erro, talvez o primeiro grande erro do MPL.
Exporei os três principais
motivos (em ordem decrescente de importância) pelos quais considero isso um
grande erro e faço votos para estar equivocado.
1 – CAMINHO LIVRE PARA A DIREITA
Não é segredo para ninguém que os
partidos políticos e alguns movimentos sociais estão enfrentando grande
dificuldade em penetrar a fundo nas manifestações.
Em parte porque a população,
muito insatisfeita com a classe política, coloca todos no mesmo barco e, então,
rejeitam qualquer partido, sem fazer qualquer distinção.
Outro motivo é que uma minoria
autoritária, intolerante, facista e de extrema-direita já se infiltrou na
mobilização, principalmente entre os nacionalistas “sem causa” e usam desse expediente
para se fingir de apolíticos e agredirem os partidos que comparecem
institucionalizados.
Pois bem. Nesse contexto, talvez
até fizesse sentido recuar e esvaziar o risco iminente de estar alimentando
discursos de extrema direita.
O grande problema é que essa
manobra passa por uma premissa equivocada.
A premissa de que, como o MPL
articulou tudo isso, recuando, será capaz de desarticular.
Isso não necessariamente é
verdade. Aliás, provavelmente não é verdade.
Uma boa lição sobre isso está
contida no filme “A Onda”.
Não existe dono de uma
mobilização de massa. Uma vez que as pessoas se mobilizam, o simples recuar do
líder ou do mentor não garante a articulação.
Pelo contrário, garante apenas
que se abra caminho para que novas lideranças surjam e se apropriem da
movimentação iniciada.
E nesse contexto é que a atitude
do MPL abre o caminho para a Direita.
A Direita está lá, infiltrada,
inflamando a população contra os partidos, trazendo os valores nacionalistas, erguendo
os símbolos golpistas.
Não se pode ignorar que grande
parte dos manifestantes são pouco politizados e simplesmente estão
insatisfeitos, mas não tem a noção precisa de para onde mirar seus canhões.
Essas pessoas tem orgulho de ser brasileiros e tem uma bandeira do Brasil em casa. É com esse espírito que saem as ruas.
Essas pessoas tem orgulho de ser brasileiros e tem uma bandeira do Brasil em casa. É com esse espírito que saem as ruas.
São um prato cheio para direcioná-los em
favor dos levantes de extrema Direita.
Os partidos não têm conseguido
dialogar com essa massa justamente pela insatisfação com a classe política como
um todo.
O MPL conseguia. Tanto que
manteve, por ao menos 6 manifestações, o foco em um levante puramente
esquerdista: O barateamento do serviço público.
Construção de mobilização social
traz responsabilidades imensas.
Sair de cena e achar que isso,
por si só, conterá a mobilização é uma ilusão e uma irresponsabilidade, pois
abre as portas para que se tome o rumo errado, muito errado.
Principalmente nesse contexto em
que os partidos vêm encontrando tantas dificuldades.
Até porque, vale lembrar que temos um partido de "esquerda" no poder. E, aos olhos de muitos dos cidadãos comuns, o PT é o grande problema de suas vidas.
Estes, em geral, fazem pouca distinção entre o PT e os demais partidos de esquerda (esse texto explica isso http://migre.me/f8rXv). Por isso as dificuldades encontradas pelos partidos.
O que se verifica é uma escalada do discurso da classe média de que "chega de ditadura do PT" e "eu sustento esse país".
O caminho está aberto para construções perigosíssimas!! E o MPL tinha, até então, conseguido manter a imensa maioria focada em um projeto de esquerda.
Poderia continuar lutando por projetos de esquerda. É preciso encarar a realidade.
O país está mobilizados e pautas existirão, queiramos ou não. Ora, então lutemos para que sejam pautas sociais, voltadas efetivamente para melhoria da vida da população!
Ao invés disso, estamos abrindo mão dessa construção e deixando-a à mercê dos ultra conservadores!
Uma manobra perigosíssima.
Até porque, vale lembrar que temos um partido de "esquerda" no poder. E, aos olhos de muitos dos cidadãos comuns, o PT é o grande problema de suas vidas.
Estes, em geral, fazem pouca distinção entre o PT e os demais partidos de esquerda (esse texto explica isso http://migre.me/f8rXv). Por isso as dificuldades encontradas pelos partidos.
O que se verifica é uma escalada do discurso da classe média de que "chega de ditadura do PT" e "eu sustento esse país".
O caminho está aberto para construções perigosíssimas!! E o MPL tinha, até então, conseguido manter a imensa maioria focada em um projeto de esquerda.
Poderia continuar lutando por projetos de esquerda. É preciso encarar a realidade.
O país está mobilizados e pautas existirão, queiramos ou não. Ora, então lutemos para que sejam pautas sociais, voltadas efetivamente para melhoria da vida da população!
Ao invés disso, estamos abrindo mão dessa construção e deixando-a à mercê dos ultra conservadores!
Uma manobra perigosíssima.
Pode até ser que, de fato, as
mobilizações se desarticulem, mas presumir isso é no mínimo arriscadíssimo.
E sem MPL, se as manifestações
continuarem, não caberá mais discutir se queremos ou não partidos, pois
passaremos a precisar deles.
E muito!
Por fim, espero que ninguém mais de esquerda, incluindo partidos e movimentos sociais, se desmobilize, senão tudo o que está acontecendo poderá terminar em tragédia.
2 – INSENSIBILIDADE SOCIAL
O MPL pregou por anos e anos que
não só queria reduzir as tarifas, mas transporte público gratuito.
Essa é uma pauta tradicionalmente
de esquerda.
Como são muitas outras. Por
exemplo, livre acesso gratuito a serviços públicos de qualidade, estatização de
serviços e da produção, mais direitos aos trabalhadores, maior participação da
população nas tomadas de decisões, redistribuição de terras, democratização dos
meios de comunicação, além de muitas outras.
É compreensível que o MPL queira
manter o foco, pois só assim se obtém vitórias significativas.
E foi justamente o foco que
trouxe a vitória.
Mas isso não muda em nada as
estruturas do país. Apenas adia para o ano que vem nova discussão sobre o preço
do ônibus, que continua sendo pago (e muito caro).
A mais valia continua sendo
explorada, os serviços públicos continuam péssimos e privatizados, latifundiários
continuam explorando o campo como querem...
É inegável, inquestionável,
indiscutível que as manifestações tomaram proporção muito maior do que o
aumento das passagens.
Foi criada a chance de realmente
se propor e discutir reformas e mudanças efetivas em nosso país.
Só que, ao se obter a primeira vitória,
que nada muda estruturalmente, recua-se.
Soa como insensibilidade com as
pessoas que, apesar de poderem continuar pagando o mesmo preço nos ônibus,
continuam com péssimos salários, sem acesso à saúde, educação...
Porque não utilizar a mobilização
nacional para se discutir causas mais profundas e efetivamente reestruturarmos
injustiças sociais?
E ninguém melhor para conduzir
essas propostas do que um movimento consolidado e solidificado, acostumado com
as movimentações de rua e com amplo crédito entre os manifestantes.
O MPL está jogando fora a chance
de mobilizar pessoas em favor de causas nobres. Pois grande parte da massa de
manifestantes os ouve e respeita!
E aqui entra um divisor de águas
quanto aos objetivos dos integrantes do MPL.
Me desculpem, pois sei que não é,
em absoluto, essa a intenção dos integrantes do MPL.
Mas recuar agora é reforçar o
discurso inicial de Veja, Folha de São Paulo e, principalmente, Arnaldo Jabor
de que quem promove tudo isso são pessoas de classe média pouco afetadas pelo
resultado final das manifestações.
Afinal, há que se raciocinar que,
o indivíduo que efetivamente necessita de mudanças estruturais em nossa
sociedade, por ser explorado e esmagado todos os dias, sobrevivendo, nem sequer
tem o direito de recuar.
Essa é a chance de uma vida
melhor.
E o esquerdista responsável e
solidário às causas dos mais pobres precisa se colocar nessa condição.
Ter em mãos uma mobilização
nacional e simplesmente recuar não deveria, em hipótese alguma, ser uma opção.
Ter a chance de mudar a vida de
pessoas que passam fome, são exploradas e discriminadas e simplesmente se dar
por satisfeito com o preço da passagem de ônibus é incoerente com os sonhos de
esquerda de um país melhor.
Até porque, o próprio MPL diz que, independentemente de qualquer outro engajamento, sua luta é pelo Passe Livre.
Ora, levar 100 mil pessoas às ruas e desistir do seu principal objetivo? Se contentar com a mera revogação do aumento?
O povo está apoiando a causa, está de olho no lucro dos empresários, sabe que inflação não impacta diretamente o custo do transporte e etc... (falei disso tudo em outro texto http://migre.me/f88bf).
Se o MPL, quando era um movimento pequeno, nunca desistiu, porque recuar agora de seu principal objetivo, com toda a população apoiando?
Pelo menos a luta pelo Passe Livre, cuja viabilidade foi escancarada para a população, deveria continuar igual, por meio de manifestações.
É na rua que se constrói democracia popular e direta.
O resto é burocratizar os movimentos sociais!
Até porque, o próprio MPL diz que, independentemente de qualquer outro engajamento, sua luta é pelo Passe Livre.
Ora, levar 100 mil pessoas às ruas e desistir do seu principal objetivo? Se contentar com a mera revogação do aumento?
O povo está apoiando a causa, está de olho no lucro dos empresários, sabe que inflação não impacta diretamente o custo do transporte e etc... (falei disso tudo em outro texto http://migre.me/f88bf).
Se o MPL, quando era um movimento pequeno, nunca desistiu, porque recuar agora de seu principal objetivo, com toda a população apoiando?
Pelo menos a luta pelo Passe Livre, cuja viabilidade foi escancarada para a população, deveria continuar igual, por meio de manifestações.
É na rua que se constrói democracia popular e direta.
O resto é burocratizar os movimentos sociais!
3 – CARA DE ACORDO POLÍTICO-PARTIDÁRIO
Esse último ponto está no final porque é pouco relevante e não condiz com minha opinião.
Mas é impossível negar que. da maneira como
tudo acabou, ficou parecendo que a redução do preço das passagens e consequente
recuo do MPL não passaram de um acordo político-partidário.
Existe no ar uma sensação de que
Haddad e Alckimin condicionaram a redução das passagens ao fim das convocações.
E aí a 7ª convocação não só não podia
ser desconvocada como também serviria para mascarar os termos desse acordo.
Sendo verdade ou não (e eu até
acredito que não seja), o simples fato de parecer ser isso - principalmente
diante de uma chance tão grande de se mobilizar nosso país por grandes causas,
de trazê-lo um pouco mais para a esquerda – só tira a credibilidade dos
importantíssimos e nobríssimos Movimentos Sociais.
Em outros momentos, provavelmente esse tipo de acordo não teria nada demais e seria absolutamente corriqueiro, pois faz parte da obtenção de vitórias.
Mas agora, diante de tudo o que ocorreu, de tamanha mobilização, de tantas causas importantes que podem ser debatidas? Não dá achar que eventual acordo seja normal e corriqueiro.
Em outros momentos, provavelmente esse tipo de acordo não teria nada demais e seria absolutamente corriqueiro, pois faz parte da obtenção de vitórias.
Mas agora, diante de tudo o que ocorreu, de tamanha mobilização, de tantas causas importantes que podem ser debatidas? Não dá achar que eventual acordo seja normal e corriqueiro.
Continuo respeitando, admirando e
acreditando no MPL. Seguirei apoiando suas causas em mobilizações futuras.
Mesmo assim, penso que essa
recuada é um tremendo erro.

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