Esse
texto adota como pressuposto que o Governo Bolsonaro é o pior governo da
história democrática do Brasil. Não faltam elementos para isso, como a volta do
país ao mapa da fome, o aumento do desemprego, a queda da renda, a disparada da
inflação, a corrupção contumaz, a intervenção desenfreada do Poder Executivo
nos órgãos de controle, o desmonte da pesquisa, da ciência e da academia, os
ataques, a violência e a remoção de direitos institucionalizados contra minorias,
a promoção do desmatamento e da destruição do meio-ambiente e a desregularização
da qualidade dos bens de consumo, dentre muitas outras questões.
Assim,
exceção feita a uma questão (propositalmente ainda não mencionada), que de tão
grave não pode ficar de fora, esse texto não é escrito para detalhar os
problemas do Governo Bolsonaro, de modo a convencer o leitor de que se trata de
um governo péssimo, o pior que já elegemos. A esta altura, as informações para
isso estão acessíveis a todos que confiam em fontes confiáveis e em metodologia
informativa e aqueles que há no mínimo 4 anos se recusam a acreditar no que
salta aos olhos, não se convenceriam por esse texto às vésperas da eleição.
O objetivo é, então, demonstrar,
por meio de fatores claros, àqueles que querem ver o fim do Governo Bolsonaro,
que isso precisa ocorrer no 1º turno, o que leva inexoravelmente à urgente
necessidade de se votar Lula 13 amanhã. Vamos a esses fatores:
1. – É a primeira vez desde a
redemocratização que possuímos um governo que detém tanto apoio político
declarado das forças armadas quanto membros delas em peso compondo o governo.
Ele também conta com apoio massivo das polícias civil e militar, além de ter
flexibilizado largamente a posse e o porte de armas para a população civil nos
últimos anos, o que foi majoritariamente aderido por seus apoiadores.
2. O candidato à reeleição,
detentor da máquina pública e do apoio das forças armadas, afirma que não irá
reconhecer o resultado caso não seja eleito no primeiro turno. Seus apoiadores
(muitos militares ou civis armados) corroboram a afirmação. As pesquisas
eleitorais realizadas até o momento indicam que ele não apenas não será eleito
no primeiro turno, mas que ficará em segundo lugar em tal turno, existindo
grande possibilidade do candidato em primeiro lugar ser eleito em primeiro
turno. Consequentemente, tudo indica que não existe a menor possibilidade do
resultado eleitoral ser reconhecido não apenas por um candidato qualquer, mas
também pelo poder estatal, pelo militarismo brasileiro e pela maior parte da
sociedade civil detentora de posse de armas no Brasil, o que é sem precedentes
na história democrática brasileira. Um aperitivo do que pode nos aguardar é a
instabilidade causada pela mera audição do resultado das eleições em 2014 pelo
candidato que não detinha a máquina pública para impor suas vontades, nem
tampouco o militarismo ao seu lado ou uma militância armada. As consequências
do não reconhecimento das eleições esse ano são, portanto, completamente
imprevisíveis e o risco aumentará muito se o não reconhecimento for
exclusivamente no segundo turno, pois no segundo turno o não reconhecimento
(que é muito provável) passará a poder contar com o apoio dos eleitos no
primeiro turno – deputados, senadores e governadores – sem que eles corram o
risco de serem impactados por eventual anulação.
3. Essa eleição já apresenta o
maior um índice de violência política desde a redemocratização. Isso não é
ameaça à democracia, é um dado antidemocrático concreto que pode ser constatado
por meio de estatísticas. São literalmente pessoas sendo assassinadas e
agredidas em virtude do posicionamento político delas. A agressividade
eleitoral historicamente tende a se elevar no segundo turno (p. ex., Lula vs.
Collor em 89 e Dilma vs. Serra em 2010). Portanto, votar para ter segundo turno
nessas eleições específica e exclusivamente significa contribuir para que os
inúmeros casos de violência que já vêm ocorrendo, se alonguem e se
intensifiquem no segundo turno.
4. Os 3 fatos acima foram
amplamente reconhecidos e incorporados pela sociedade civil e suas referências.
Ícones intelectuais e artísticos que não apoiam historicamente os dois
candidatos na liderança, ou que usualmente não declaram voto, têm manifestado
massivamente seus votos e pedido para que a eleição se encerre no primeiro
turno por compreenderem a gravidade e atipicidade da situação (o que também
afirmam expressamente). Tanto é assim que, mesmo com a tendência de
fragmentação política que tem sido experimentada no Brasil há algumas décadas e
diante das rejeições recorde dos dois primeiros candidatos, o candidato em
terceiro lugar nas pesquisas possui menos de 10% das intenções de votos pela
primeira vez desde 2006.
5. O
PT esteve em 1º ou 2º lugar em todas as eleições brasileiras para presidência desde
a redemocratização, tendo obtido o 2º lugar mesmo em seu momento mais frágil, em
2018. A esta altura, aqueles que querem que o Governo Bolsonaro se encerre em
2022 e acreditam sabem que isso se dará por meio da eleição de Lula para presidente,
de modo que o voto em outro candidato no 1º turno se deve provavelmente à
intenção de fortalecer outros caminhos políticos ou simplesmente ao exercício
do direito de escolha. Ocorre que, se racionalmente é possível concluir que o
PT não vai a lugar nenhum nas próximas eleições presidenciais (continuará a ser
1º ou 2º colocado), votar em outro candidato nesse momento na verdade só
enfraquece a possibilidade de se construir uma terceira via. Explico. O PT
mantendo (e irá manter) uma das 2 primeiras posições na corrida eleitoral, o
espaço a ser ocupado para que uma terceira via é necessariamente o posto que hoje
é ocupado pelo bolsonarismo. Assim, mais do que fazer o candidato da terceira
via saltar de 5% para 6%, ou de 6% para 7%, o caminho para construção dessa via
passa necessariamente pelo enfraquecimento do bolsonarismo. Não há caminho mais
fácil, direto e nítido para ruir as bases do bolsonarismo do que uma pífia
performance eleitoral, que seria o caso a eleição seja decidida em 1º turno. O
recado claro que o Brasil não aceita e não quer ter rondando o bolsonarismo e
tudo de horrível que vem com ele seria a maneira mais efetiva para abrir
caminho para novas correntes políticas, o que será enormemente facilitado pela
derrota do bolsonarismo no 1º turno das eleições de 2022.
6. Tivemos uma gravíssima
pandemia em meio ao último governo que parte da população parece esquecer ou
pouco se importar. Essa pandemia levou à morte de quase 700 mil pessoas no
Brasil em 2 anos e meio. O Brasil teve mais de 10% das mortes mundo, apesar de
não ter nem 3% da população mundial. O Brasil teve a segunda maior taxa de
mortalidade por 1 milhão de habitantes entre as 20 maiores economias do mundo
(é atualmente 11°) e 20 maiores populações do mundo (atualmente é 7°). Isso se
deveu majoritariamente ao descaso do atual governo com a pandemia, o que levou
à ausência de incentivo à proteção da população, atrasos injustificados na
aquisição e distribuição de vacinas, programa pífio de apoio econômico à
população que não podia e não devia trabalhar e com o chefe do governo, atual
candidato à reeleição, ridicularizando essas mortes (e internações) e dizendo
que tudo não passava de chororô. Economicamente, o governo também foi
desastroso durante a pandemia, com o país voltando ao mapa da fome, o
desemprego em índices altíssimo e a inflação entre as mais altas do mundo.
Votar de modo a permitir um governo desses chegar ao segundo turno é um descaso
com tantas vidas perdidas e destruídas.
Em suma, (i) a ameaça à
democracia e a violência política, (ii) o aumento dessa ameaça e dessa
violência caso haja segundo turno e (iii) a completa impossibilidade de se
mitigar esses fatores votando em qualquer candidato que não seja os 2 primeiros
são fatos postos e imutáveis. Votos em outros candidatos não vão mudar esses
fatos, só deixar de contribuir para mitigar os riscos que eles representam,
além de representar um pouco caso com o desastre que foi a pandemia para
milhões de pessoas graças ao governo atual e mais contribuir para inviabilizar
uma terceira via no futuro próximo do que para construí-la. É importante todos
estarem plenamente conscientes disso para fazer a escolha se vota para mitigar
esses riscos ou prioriza construir outras agendas futuras e distantes, mas que
certamente não endereçarão nossos problemas de agora. No segundo caso, cabe a
nós ficar na torcida para que a violência não seja tão violenta assim e que, ao
contrário do que a história nos ensina, o não reconhecimento das eleições por
quem detém a máquina estatal e apoio militar pode se revelar não tão relevante
assim.
Nenhum desses riscos são aceitáveis a um país que supostamente tem como norteadores a ordem e o progresso. Por isso, é preciso votar Lula 13 amanhã e começarmos a encerrar o Governo Bolsonaro.



