sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Madiba - Singela homenagem e reflexões

Antes de mais nada, saúdo a vida e presto minhas solenes homenagens ao grande lídercombatedor do Apartheid e do racismo, bem como defensor do movimento negro na África do Sul e Comunista, Nelson Mandela.

Não lamento sua morte, pois, aos 95 anos, com debilidades físicas severas e a certeza de que a vida chega ao final para todos nós, é difícil imaginar o que mais poderia glorificar um homem responsável por libertar - ao menos em parte - um país inteiro da segregação racial, bem como incrustar em tantas outras nações, ao menos a noção de que uma luta séria contra o racismo é necessária.

Hoje é o momento de esse grande líder mundial receber todo o seu reconhecimento e as homenagens que lhes são devidas.

A mim, parece lindo e toca o coração saber que o funeral de Madiba será o maior evento da história da África, que recebeu uma Copa do Mundo há pouco.

Sinal de que os Africanos, embora festivos, aprenderam muito bem a reconhecer e reverenciar aqueles que lutaram para mudar suas condições de vida.

A África inteira, negros e brancos, ricos e pobres, direitistas (não racistas, é claro) e esquerdistas hoje reverenciam os feitos de Nelson Mandela.

Contudo, gostaria de refletir sobre dois pontos. O primeiro, muito mais singelo, sobre os inúmeros pedidos que li para que surjam no Mundo, outros cinquenta Nelson Mandela's. Alguns ainda fazem a ressalva "enquanto ainda precisarmos deles..."

Ora, sempre precisaremos de gênios e grandes líderes. Mas seremos totalmente dependentes deles enquanto entendermos que somente gênios e grandes líderes podem conduzir as mudanças sociais de que necessitamos.

Nelson Mandela, assim como muitos outros líderes, propagou as dificuldades enfrentadas por negros e pobres em razão da segregação racial e social. Hoje temos condição de lutar, em nosso dia a dia, contra essas mazelas. Todos nós podemos fazer nosso papel de combate ao racismo, denunciando preconceitos, exigindo punições, tratando igualmente pessoas diferentes, respeitando culturas...

Madiba não fez nada sozinho. Fez o que fez porque milhões de cidadãos comuns, também tão heróis quanto ele, ouviram seu discurso e decidiram enfrentar o racismo e reivindicar direitos para negros da África do Sul. Sem a adesão do homem comum, nenhum dos enormes feitos alcançados por Madiba teria sido possível.

Precisamos, então, ao invés de rezar ou pedir por novos líderes que mudem as esferas de nossa estratificação social, assumir as rédeas dessa mudança, a começar por alterar a dinâmica racista, sexista, elitista, higienista... que verificamos em nosso dia a dia.

A meu ver, é inimaginável concluir que a grande lição de Madiba foi "sigam os grandes líderes e façam as mudanças pregadas por eles". Isso qualquer líder poderia pregar. A grande lição dele certamente foi "lutem contra o racismo e as demais formas de preconceito. Não deixem uma invenção artificial e inescrupulosa de preconceito tolher direitos de qualquer parcela da sociedade."

O segundo ponto que coloco para reflexão é, a meu ver, também muito mais grave.

Parece haver uma disputa, não sei ao certo, mas aparentemente política, de apoderamento do legado de Mandela. Li discursos dos mais variados, dizendo que direitistas que são contra essa ou aquela política social, alienados políticos e outros tantos deveriam lavar a boca ou simplesmente não têm o direito de usar o nome ou as palavras de Mandela, ou até mesmo de lamentar sua morte.

Essa postura é, na verdade, imenso desserviço ao esplendido trabalho desenvolvido por Madiba em seus muitos anos de ativista na África do Sul.

Hoje, ao redor do mundo inteiro, pessoas dos mais variados tipos lamentam profundamente e sofrem com a partida de um africano negro e comunista.

O simples fato de uma infinidade de pessoas conseguir identificar em uma pessoa com essas características tão marcadas pelo preconceito é, por si só, é um passo contra o preconceito. A celebração do nome de Nelson Mandela e a possibilidade de entrar em contato direto com suas inúmeras pautas e frases é, por si só, um fator de conscientização.

Não devemos, em hipótese alguma, tentar nos apoderar de um líder global, que fez muito pelas comunidades negras ao redor do globo terrestre. Madiba, sua luta e seu legado são dedicados aos negros da África do Sul e do mundo, mas não possuem um só dono.

Todo aquele que deseje reverenciar um africano, negro e comunista está dando mostra de superação, ainda que parcial, de preconceitos.

Por fim, gostaria de dizer que muito me orgulha saber que, assim como esse que vos escreve, Madiba era, também, comunista.

Contudo, não há como ignorar que sua luta e seu legado, embora notoriamente à esquerda, não foram voltados para construções comunistas e sim para o fim da segregação racial e do racismo.

Desconsiderar isso é um erro que torna natimorta qualquer análise ou reivindicação das lutas de Mandela. Portanto, há que se valorizar aquilo que foi efetivamente objeto de suas lutas e reconhecer as inúmeras vitórias nesse campo.

Por isso, repito o que já disse acima. direitistas, capitalistas, neoliberais, elitistas e tantos outros têm sim todo o direito - na verdade, o dever - de saudar Nelson Mandela, o grande ativista africano, negro e comunista, embora carentes de identidade política com ele. 

Isso porque, ao fazê-lo, ainda que sem alterar as dinâmicas elitistas e preconceituosas em que estão inseridos, estão sim dando mais um passo contra o preconceito, seja pelo fato de conseguirem superar os preconceitos iniciais e reconhecer em uma pessoa dessa importância e com essas características, o grande líder mundial que foi e o imenso papel que desempenhou, ou seja pelo fato de que estão, ainda que inconscientemente, ajudando a difundir a luta contra o racismo, maior bandeira carregada por Madiba ao longo de sua existência e cuja difusão mundial certamente lhe orgulha.

Tentar privar alguns de homenageá-lo, por mais bem intencionado que seja, nada mais é do que uma postura de segregação, consequente negativa de tudo o que ele mesmo pregou.



Por fim, gostaria apenas de lembrar que a vida de Mandela foi marcada por nada menos do que 27 anos de prisão pelo simples fato de ser negro e reivindicar direitos para negro. Ele foi, portanto, também uma imensa vítima do Apartheid. Devemos sempre manter isso em mente para lembrar o tamanho das injustiças que o preconceito realiza, bem como fazer justiça à sua história que, embora glorificada, também foi de muito sofrimento.