quinta-feira, 20 de junho de 2013

Redução da tarifa é a primeira vitória!

Hoje pretendia falar de imprensa e mídia, mas, como ao vivo é diferente, não posso falar de outra coisa que não da importantíssima redução da tarifa.

A primeira coisa que é preciso aprender com a redução da tarifa é que o povo tem sim força, muita força!!

A rua é espaço irrenunciável de construção democrática.

As pessoas queriam pagar menos (na verdade, deixar de pagar mais) pelo ônibus e conseguiram.

Inúmeras questões justificam o pleito de redução da tarifa.

Eu coloco como ponto central a viabilidade, inclusive, de o transporte público ser de graça.

Já existiu na cidade de São Paulo projeto para tarifa zero e que era apoiado por 70% da população. Então não é coisa da esquerda radical.

Ninguém melhor do que um dos autores do projeto para explicar isso!
(http://cbn.globoradio.globo.com/programas/cbn-noite-total/2013/06/18/PROPOSTA-PREVIA-TARIFA-ZERO-NO-TRANSPORTE-PUBLICO-DE-SP-DURANTE-GOVERNO-DE-ERUNDINA.htm)

Existem inúmeras questões a serem colocadas. Como, por exemplo: Quem disse que a inflação é parâmetro para reajuste de serviço público?

Se o serviço é público, qual é o problema com o subsídio? Não é para isso que os impostos servem?

Todo mundo tem que se matar para pagar esse preço absurdo. O aumento representa redução indireta da renda do trabalhador, principalmente somada à inflação que, aí sim, impacta integralmente o orçamento das pessoas.

E o lucro das empresas de transporte? Esse tem que ser preservado?

Porque utilizar a inflação? Por acaso os operários do sistema público de transporte ganharam aumento pela inflação? O diesel, o pneu, os veículos motorizados... Tudo isso subiu pela inflação?

Que eu me lembre, os veículos motorizados foram barateados pela redução do IPI... Porque não zerar o IPI para as concessionárias de ônibus? Isso não interessa ao governo?

Porque acabar com a taxa do Controlar, paga pelas classes A e B e jogar o déficit da conta na tarifa do ônibus, paga pelas classes C e D? Que usem o Controlar para algo decente, além de enriquecimento ilícito de empresários.

Aliás, porque existe QUALQUER tributo sobre serviços públicos? Para pagarmos mais caro pelo serviço que nós mesmos pagamos para que exista?

Porque em NENHUM momento, se cogita arrumar verba reduzindo a folha salarial da Câmara ou da Prefeitura e seus secretários? Fala-se em casas populares, hospitais, escolas... E as verbas administrativas?

E a renda do trabalhador? Essa é reajustada pela inflação?

Quanta conversa fiada!

Enfim, são centenas de questões que explicitam o engodo governamental em morder mais um pedaço das rendas do povo. Nesse caso, do povo pobre. Aliás, como na maioria dos casos.

Isso tudo é para dizer que essa primeira vitória demonstra cabalmente que somos enganados escancaradamente pelos nossos governantes!

Esse aumento nunca foi necessário e visava, na verdade, aumentar a arrecadação já absurda e inescrupulosa das prefeituras.

Isso para não haver qualquer retorno em serviços de qualidade ou melhora nos péssimos serviços existentes!

Dito isso, que é o ponto central, fica claro que a mera retomada do patamar anterior de preço, já totalmente abusivo, não é suficiente!

O transporte público diário (mero direito de ir e vir) continua representando, após a revogação do aumento, mais de 25% do salário mínimo. Um verdadeiro abuso!!!

Portanto, a causa é justíssima e a vitória é apenas parcial, pois pode-se conseguir muito mais.

Mas é preciso lembrar de como isso foi conseguido.

Isso foi conseguido através do comparecimento de mais de 300 mil pessoas às ruas em todo o Brasil, ao longo de mais de uma semana.

Isso mesmo, protestos populares, como não se via desde as Diretas Já, é que levaram a essa vitória.

A grande verdade é que dentro do período democrático, o brasileiro pareceu se conformar, pensar “Ah, sou livre, escolho meu governante. As coisas tão ruins mas a vida é assim...”.

A massa populacional ficou inerte por mais de 20 anos!

A alçada do PT ao poder serviu para ampliar ainda mais essa inércia, já que as grandes movimentações populares sempre partiram de sindicatos, partidos de esquerda e movimentos sociais. Boa parte deles se manteve alinhada ao PT ou, ao menos, bateu mais leve no PT, por medo de promover a Direita.

Bom, mas tudo isso é passado. Pelo menos momentaneamente.

Tentar analisar aqui a conjuntura que levou as pessoas às ruas é cometer os mesmos erros que sociólogos, cientistas políticos, jornalistas e políticos vêm cometendo diariamente em suas crônicas.

O fato é que as pessoas foram às ruas em número significativo. Tomaram uma surra ainda mais significativa da Polícia Militar.

Então, foram às ruas em número muito maior, principalmente pela indignação e busca pela liberdade de expressão!

Sem lideranças globais (apenas pontuais), criou-se um movimento horizontal, heterogêneo e difuso.
 
Um movimento voluntário, que levou pessoas a levantarem de seus sofás e saírem as ruas, não necessariamente cooptados por um partido ou liderança, mas pelo sentimento de que era preciso se mover, reividicar uma mudança!

Os protestos pipocaram em todo o país e transcenderam a questão da revogação da passagem do ônibus, agregando muitas outras questões.

O Movimento Passe Livre, provavelmente em um ato de coerência, manteve o discurso focado.

Isso pressionou bastante os governantes e, finalmente, fez com que recuassem e determinassem a volta do preço da passagem ao (já altíssimo) patamar anterior.

Não sem antes espernearem, tentarem taxar tudo e todos de vândalos (muito ajudados por mídia e polícia!), dizerem que tem orçamento baixo, que a prefeitura é pobre coitada, que vão ter que tirar de outras áreas (NUNCA do exorbitante lucro dos empresários ou de seus salários, é claro) e muitas outras falácias para tentar dar mais uma volta na população.

E foi esse espernear que fez com que brotasse na sociedade brasileira a chance de uma guinada muito mais relevante.

Se os governantes tivessem baixado a tarifa logo no início, se a mídia não tivesse sido deslavadamente desmentida pelas redes sociais ou se a Polícia Militar tivesse respeitado o direito de todos à manifestação, provavelmente, nada disso teria acontecido.

A insensibilidade, demora e autoritarismo de nossos governantes é que fez com que a revolta popular tomasse corpo, crescesse e passasse a reivindicar muito mais do que a revogação do aumento das passagens.

Vale lembrar que muitas cidades não conseguiram nem sequer essa primeira vitória.

Então, estamos diante de um momento único, que precisa ser aproveitado.

A vitória dessa batalha não pode ser esquecida e deve ser valorizada.

Mas não pode ser interpretada como uma vitória definitiva e ampla, pelo contrário.

Precisa servir de inspiração para que percebamos que a Democracia Direta é viável e eficaz!

Está mais do que claro que nossos governantes não lutam, em absoluto, por nossos interesses.

Então, temos que ser mais participativos.

O povo pode sim mudar decisões políticas e prejudiciais à população, basta ir às ruas.

Mais do que isso, temos de ir às ruas reivindicar a implementação de novas formas de participação política, mais eficazes!

Não é hora de recuar, pois o momento é único e precisa ser aproveitado!

Mudanças estruturais podem ser alcançadas.

Mas é preciso estar disposto, é preciso para de se querer disputar a liderança das manifestações e lutar pelas manifestações em si, para que elas não murchem, para que tenham pautas concretas e objetivas.

A liderança é bem vinda e pode existir, mas não imposta. Deve nascer em um contexto de aceitação!
 
E aqui faço uma ressalva quanto às lideranças, pois as lideranças possuem seu interesse específico.
 
Constituir uma liderança significa correr-se o risco de desarticulação quando a liderança se der por satisfeito. Ora, o líder satisfeito não significa que o povo está satisfeito.
 
Mas se a mobilização estiver centralizada na figura do líder, quando ele recuar, a desarticulação é iminente.
 
E por isso os partidos podem acabar complicando tudo, pois vêm fazendo esse jogo de negociações pequenas e recuos há anos.
 
Talvez, a grande força da mobilização nacional seja justamente a pluralidade de pautas. Não é possível frear a população através de medidas pontuais e pouco significantes estruturalmente.
 
E aqui, é que espero responsabilidade do Movimento Passe Livre para se dar conta do que as manifestações se tornaram.
 
Não é socialmente justo que se recue agora apenas porque o aumento da passagem foi revogado.
 
É hora de ler o impacto que o MPL tem na mobilização nacional, organizando protestos, e seguir em frente!

Ainda assim ,talvez seja preciso achar pontos em comum que os manifestantes queiram implementar em nossa sociedade (a tarifa do ônibus certamente é um deles) e não criar um verdadeiro cabo de guerra entre as segregações de Esquerda e Direita (embora ache isso importante em um segundo momento, não agora!).

O momento é de união e o adversário é o sistema político nacional, sua incompetência e seu desfavor à população.

E o objetivo deve ser a desconstrução desse sistema político falido, através de uma reforma estrutural muito mais séria.

Além de uma profunda reforma na mobilidade urbana, possuo a minha pauta que considero central: A luta pela Democracia Direta!

E vou escrever sobre isso também.

O mais importante é que não é hora de recuar. É hora de sonharmos com um país melhor!

Um comentário: