terça-feira, 30 de abril de 2013

Bianca - Boletim 17 - Especial de um ano do Acidente!

Como muitos sabem (e outros nem tanto...), hoje completou, há algumas horas, um ano exato do momento em que eu e a Bibi nos acidentávamos nas cercanias de Mirassol.

Nós estávamos retornando de uma festa bem divertida nos Jogos Jurídicos em São José do Rio Preto.


Como eu havia bebido um pouco e a Bibi havia parado de beber logo no início da festa, optamos por ela dirigir.


Não há muita memória sobre como tudo ocorreu, mas o fato é que nos perdemos, erramos o caminho e, quando íamos fazer o retorno, acabamos não notando que um caminhão se aproximava do nosso lado esquerdo.


Fomos atingidos em cheio na lateral do motorista e perdemos a consciência imediatamente.


Eu acordei momentos depois, um pouco confuso, tentando entender o que aconteceu.


Já a Bibi estava inconsciente, bastante machucada e muito ofegante, pois, àquela altura, já travava uma épica batalha para manter-se oxigenada e viva.
Mais tarde saberíamos que essa batalha seria vencida com louvores pela Bibi, com a ajuda dos mais diversos profissionais da saúde, desde motoristas de ambulância, passando por paramédicos, enfermeiros e médicos.

O resgate foi rápido e me removeu primeiro para abrir espaço que possibilitasse a remoção da Bibi, já que o lado dela do carro estava bem avariado.

Depois disso, toda a atenção ficou voltada a ela, que foi imediatamente entubada e medicada.

Fomos para o Pronto Socorro de Mirassol, onde recebemos os primeiros atendimentos.

De minha parte, ficou diagnosticada uma concussão cerebral (um baita galo...), uma fratura de clavícula e um hematoma generoso no abdômen.

Já a Bibi foi diagnosticada com (difícil lembrar tudo) um Traumatismo Crânio Encefálico (TCE) grave, fraturas em duas costelas e na bacia, hemorragia interna e uma série de escoriações.

A Bibi ficou no Pronto Socorro apenas tempo suficiente para ser estabilizada, viabilizando-se o transporte dela até o Hospital de Base de Rio Preto, onde recebeu atendimento imediato e passou por cirurgia para interromper a hemorragia interna que, juntamente com o TCE, tanto lhe debilitava.

Mais tarde, eu também seria transferido para o Hospital de Base, onde ficaria internado por 4 dias. Não sem antes ser interrogado por um bombeiro, que fez questão de enfatizar que a Bianca havia saído do Pronto Socorro muito mal.

Algumas horas depois de chegar ao hospital e bastante aflito com a “notícia” do bombeiro, conheci o Dr. Paulo Espada, que me informou imediatamente que havia operado a Bianca com sucesso, seu sangramento estava estancado e ela iria ficar bem.

Sem muita noção da gravidade, perguntei se a coluna dela estava preservada. Ele me assegurou que sim.

Talvez o Dr. Paulo Espada não saiba disso, mas faço questão de enfatizar que ele é o pilar da esperança que sempre nos fez acreditar que a Bianca iria se recuperar, como vem acontecendo.

Desde o primeiro momento e em todos os momentos, ele afirmou (diferentemente dos demais médicos, que nunca quiseram fazer qualquer prognóstico) que a Bianca iria se recuperar.

Ao longo desse ano tão difícil, em diversos momentos, busquei e precisei relembrar as palavras dele para retomar a confiança!

Bom, a Bibi permaneceu 17 dias em Rio Preto até ter condições de ser transferida para São Paulo, onde continuou se recuperando diariamente, ininterruptamente!

Para não transformar esse boletim num livro (um ano é muito tempo), seguem alguns pontos marcantes desse ano tão importante em nossas vidas:


  • No dia do acidente, Marcos e Rita, pais da Bianca, voaram para Rio Preto. Lá chegando, apesar de bastante consternados por toda a situação, ao me ver, disseram as seguintes palavras: “Iuri, os médicos falaram que tá tudo bem, você e a Bibi vão ficar bem, mas como você bateu a cabeça muito forte, vai virar Palmeirense.” – Isso foi muito marcante, pois não deixaram de lado o humor que é tão característico dessa família e certamente ajudaram a me animar e tem ajudado a Bianca a se animar diariamente.


  • A primeira vez que vi a Bibi após o acidente (48 horas depois), segundo relatos, ela já estava bem menos inchada e roxa. Isso foi, de certa forma, positivo, pois desde o início achei que ela estava, apesar de tudo, bem!


  • No primeiro contato com o neurocirurgião em Rio Preto, ele deu um belo baque em mim e na Rita, dizendo que o quadro da Bibi era muito delicado, que ia demorar um tempão e que tinham muitas etapas a serem vencidas. Eu fiquei puto!


  • Quando fui visitar a Bibi em Rio Preto, ela moveu o dedão do pé esquerdo. Foi o primeiro movimento que eu vi! Emocionante!


  • Já em São Paulo, no hospital Sírio Libanês, alguém também me disse que ela demoraria, se não me engano, pelo menos 2 anos para recuperar a musculatura. Fiquei puto de novo!


  • Após alguns meses de coma, lembro-me como se fosse ontem da primeira vez em que o neurocirurgião em São Paulo constatou que a Bianca estava apresentando movimentos voluntários, ainda que mínimos. Foi o primeiro sinal de consciência!

Esses foram os momentos mais marcantes, mas tem muitos outros, como a primeira vez que vi os olhos dela, a primeira vez que vi ela comer, a primeira vez que ela respondeu uma pergunta certa...



Enfim, muitos podem estar se perguntando porque lembrar de toda a parte triste e trágica.


Além da resposta óbvia, de ser impossível não lembrar disso hoje, acho que vale ressaltar que, para mantermos o foco de onde queremos chegar, é importante lembrarmos de onde viemos.

Não foram poucas as vezes em que eu e muitos outros envolvidos desanimamos, duvidamos ou questionamos até que ponto a Bibi iria se recuperar.

E eu digo com tranquilidade que todas, todas as vezes que essas dúvidas surgiram, quem nos deu a resposta a elas foi a própria Bianca.

A Bibi evolui desde sempre, demonstra garra, perseverança e disciplina. 

Não se conforma com sua situação, fica brava com as limitações, demonstra vontade de melhorar e, acima de tudo, responde “sim” para a grande maioria das vezes em que perguntamos “Você está feliz?”.

É claro que ela tem seus momentos de raiva, mas quem não teria?

Hoje é muito mais fácil ser otimista em relação à Bibi, justamente olhando para trás.

Quando lembramos que literalmente lhe salvaram a vida um ano atrás e que hoje, apesar de ainda em recuperação, ela dá muito mais risadas durante o dia do que a imensa maioria de nós, saudáveis, inteiros e que, muitas vezes, achamos que nosso dia foi arruinado por qualquer besteira.

Para mim, essa convivência é uma oportunidade de crescimento e aprendizado. Mas isso já foi objeto de outro texto do blog (http://migre.me/elbcV).

Ainda assim, tem duas últimas coisas que eu não tratei no outro texto e que gostaria de mencionar agora.

A primeira, diz respeito à palavra vínculo.

Eu e a Bianca escolhemos iniciar um vínculo há um ano e dez meses e, por isso, começamos a namorar.

Até então, nosso vínculo era como o da grande maioria dos casais e se dava através de conversas, beijos, abraços, gostos em comum, momentos especiais...

Dez meses após o início do nosso namoro, nosso vínculo foi fortemente abalado pelo acidente.

Mas esse fato não foi capaz de romper esse vínculo tão especial, pelo contrario, têm engrandecido ele cada vez mais.

É bem verdade que, no momento, não posso desfrutar de boas conversas com a Bianca, de passeios, partilhar experiências, dentre muitas outras coisas que nos fazem tanta falta.

Contudo, tudo isso será retomado ao seu tempo.

Agora, o que fica desse período é o estabelecimento de novas formas de vínculo.

Acreditem, eu nunca soube valorizar e compreender tanto o significado de um sorriso, um olhar, um pequeno gesto como tenho aprendido através desse convívio que só ocorre através de sorrisos, olhares, pequenos gestos.

A falta de opções de como fomentar esse vínculo nos obriga a criar e traçar novos caminhos, que certamente permanecerão disponíveis e serão utilizados, mesmo quando os caminhos originais puderem ser retomados.

Quando a Bibi estiver recuperada (e dando estrela), teremos apenas agregado novos valores ao nosso vínculo!

O segundo ponto também diz respeito a uma palavra: Renascer.

No dicionário, renascer está assim definido: “Nascer de novo: a Fênix, segundo a mitologia grega, renasceu das próprias cinzas. / Crescer de novo, rebrotar: as flores renascem na primavera. / Fig. Recuperar forças, reviver: renascer após longa enfermidade. / Reabilitar-se. / Reanimar-se.”

Não acho que são necessárias grandes explicações sobre esse segundo ponto.
Mas gostaria de ressaltar que a Bianca renasceu sim em 30 de abril de 2012. Renasceu, pois deu o primeiro passo para recuperar suas forças, para se reabilitar.

Essa é uma experiência única e que pertence integralmente a ela.

E ela merece todo o nosso respeito por isso, pois enquanto a biologia – e as estatísticas sobre fecundação da célula X com a célula Y – ensinam que nascer já é muito difícil.

Talvez a mitologia ensine que renascer seja tarefas para poucos, quase impossível.

Por isso, reitero minha admiração pela forma como a Bianca vem enfrentando suas dificuldades e renascendo.

Bom, após rememorar esse ano que passou, vamos rapidamente às novidades (porque esse boletim já tá imenso).

A Bibi atingiu 90 graus (a meta era 80) na prancha e deverá ser avaliada para ingressar no centro de reabilitação Lucy Montoro nos próximos dias.

A menina tem comido muito bem, possibilitando inclusive a redução das dietas em alguns dias.

Não tem mais engasgado, mesmo com alimentos sólidos.

Às vezes, tem conseguido gesticular as palavras com a boca, mas sem som. Por exemplo, já gesticulo "Bom dia", "Amigo", "Não".

Já “fala” com som mesmo A, É, I, Ó (ainda não ouvi o U). Não é aquele som perfeito e limpo, mas as vogais são identificáveis. Ainda é difícil para ela fazer isso, precisa ter paciência.

Tem dado mais risada do que nunca. Para se ter ideia do nível de consciência dela, outro dia ela estava deitada no meu colo de costas para a TV, eu estava conversando com ela e ela de risada de uma piada do programa de TV (pra vcs verem como devia tá interessante o que eu tava falando...).

Responde a diversas perguntas, inclusive jurídicas. Já fiz algumas perguntas jurídicas com até 4 alternativas e ela acerta cerca de 90%.

Para quem tem curiosidade, eu faço as perguntas utilizando os dedos. Cada dedo é uma alternativa e ela pega o dedo que considera ser a alternativa correta. Como disse, o índice de acerto tem sido muito alto.

Tem dito recorrentemente que quer: falar, sair e ir pra PUC.

Melhorou bastante a coordenação do braço esquerdo e readquiriu totalmente o movimento do pé esquerdo.

Ela voltou a movimentar a língua e fica mostrando e balançando a língua toda hora.

Também tá bastante beijoqueira.

A impressão de quem convive com ela é de que ela está totalmente consciente, limitada apenas pela parte motora.

Ela faz, inclusive, uma série de brincadeiras bem características dela.

Agora, a menina tá brava, viu! Às vezes tem uns ataques de revolta que sai debaixo!!

Mas isso ocorre principalmente quando alguém (indivíduos ainda não identificados) perturba muito ela e principalmente quando ela constata alguma limitação como não conseguir falar, levantar ou fazer algum movimento.

Ela tem fechado a mão direita e deixado só o indicador e o dedo médio levantados, movendo eles alternadamente pra frente e pra trás, imitando o movimento de andar.

Aí perguntamos se ela quer dizer que quer andar e ela diz que sim.

Aliás, ela está utilizando bem melhor os dedos da mão para fazer sim e não (dedão levantado é sim e indicador levantado é não).

As plaquinhas estão praticamente obsoletas.

Por fim, a novidade que considero mais legal.

Muitos sabem que a baixinha é “trilíngue”, fala português, inglês e italiano.

Pois é, para aqueles que tinham alguma dúvida da consciência dela, a pequena notável resolveu mostrar na prática que a cachola vai muito bem, obrigada.

Além de entender português, inglês e italiano, a baixinha ainda entende a língua do fanho. Isso mesmo, fanho!

OBS: O gênio que fez essa descoberta preferiu se manter no anonimato, por medo de ser incompreendido.

A única linguagem que ela ainda não consegue decifrar é o “fanglês”, ou seja, fanho em inglês. Mas confesso que nem eu estava entendendo essa linguagem inovadora...

OBS2: O segundo gênio que fez essa tentativa também optou pelo anonimato pelos mesmos motivos do primeiro...

Bom pessoal, como uma imagem vale mais que mil palavras (e esse texto já passou fácil de mil palavras...), vai aí um vídeozinho para demonstrar parte do que eu venho relatando!



De minha parte, a mensagem que fica é bem simples. Bibi, te amo muito, obrigado por estar voltando pra gente, mais perto a cada dia. Mal posso esperar para ouvir sua voz e bater um bom papo!
Até o próximo boletim.


sábado, 13 de abril de 2013

Maioridade Penal e o oportunismo político!

Essa semana, um crime banal chocou muitos brasileiros.

Um jovem foi assassinado em um assalto no qual não reagiu, por um menor de idade que estava às vésperas de completar 18 anos.

O crime ocorreu na Zona Leste da cidade de São Paulo.

Em verdade, tanto a cidade quanto o estado de São Paulo vivem, nos últimos meses, uma grande escalada na violência.

O número de homicídios aumentou e segue aumentanto significativamente. Em contrapartida, a polícia nunca matou tanto.

Ora, então vivemos em tempos de violência banalizada, com homicídios ocorrendo diariamente e, como resposta, o Estado adota uma abordagem também violenta, respondendo também com homicídios.

O governo paulista, responsável pela segurança pública, vem sendo fortemente cobrado por essa escalada na violência e também pela crescente violência policial.
Ainda assim, segue sinalizando que o caminho para acabar com a violência é responder com mais violência, mais repressão.

O próprio Governador Geraldo Alckimin deu declarações nesse sentido. Quem não se lembra da célebre frase “quem não reagiu está vivo”?

Pois bem, nesse contexto de verdadeira guerra entre policiais e bandidos, quem mais sofre são os cidadãos de bem, que continuam sendo vítimas da violência "comum", muitas vezes são vítimas da truculência policial e até mesmo acabam atingidos por uma vingança de facções criminosas contra PMs.

As estatísticas mostram claramente que tanto a violência “comum” quanto a policial atingem, majoritariamente, jovens, pobres e negros.

Pois bem, eis que surge o bode expiatório perfeito: o tal crime mencionado no início desse texto!

Perfeito, pois possibilitou ao governo do estado de São Paulo deixar de lado toda sua responsabilidade pela escalada da violência, pelo caos que a segurança pública do estado enfrenta, pelo despreparo demonstrado diariamente pelos policiais nas ruas, dentre tantos outros problemas.

A culpa de toda a violência que temos enfrentado é uma só: a maioridade penal.
Tanto é assim que a satisfação dada pelo Governador Geraldo Alckimin à população sobre o crime ocorrido foi pura e simplesmente o encaminhamento de um projeto de lei para redução da maioridade penal.

Ou seja, abraça-se a primeira bandeira capaz de colocar toda a responsabilidade exclusivamente nas mãos dos delinquentes, como se o estado estivesse simplesmente de mãos atadas por conta da maioridade penal.

A proposta é simples e tem sido bradada há anos: reduzir a maioridade penal de 18 para 16 anos.

O tema é, no mínimo, polêmico, tendo em vista que existem as mais diversas posições.

 Alguns trazem exemplos de países que usam 16 anos como maioridade penal.

Outros lembram de nações que avaliam caso a caso a capacidade de discernimento do autor do crime.

Tem também aqueles que defendem a manutenção da maioridade penal por diversos motivos.

Nesse contexto, é interessante analisar a posição da imprensa e as manipulações de informação. Veja-se, por exemplo, a diferença de abordagem e contextualização do mesmo fato noticiado pelos sites Uol e Globo:


Enquanto a UOL traz na manchete um dado objetivo, de que apenas 0,9% dos adolescentes detidos cometeram o crime de latrocínio, a Globo noticia o número absoluto de 83 detidos, sem informar a proporção.

Contudo, o texto da globo também traz um importante aspecto acerca da racionalidade de porque a maioridade penal deva ser mantida em 18 anos.

No segundo tópico do texto "Escada do crime", já no primeiro parágrafo é trazida uma fala do ex secretário-geral do Conselho Estadual da Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (Condepe), Ariel de Castro Alves:  "o adolescente sobe uma 'escada' e não começa no latrocínio. 'Em geral começam com furtos, depois roubos chegando no latrocínio'".

Ora, isso demonstra que, assim como nos demais setores de sua vida (amoroso, profissional, social...), o adolescente que comete crime está em fase de formação e, portanto, pode sim ser recuperado através de um redirecionamento.

Assim como um adolescente que sempre foi mal aluno ainda tem tempo de melhorar seu desempenho se bem orientado (exemplos não faltam), um adolescente que comete crime pode ser redirecionado para estudos e trabalho, se bem orientado.

E isso muito certamente não ocorrerá no interior das prisões brasileiras!

Já o texto trazido pela UOL nos revela duas possibilidades: (i) os adolescentes cometem pouquíssimos crimes de Latrocínio ou; (ii) os adolescentes são pouquíssimo punidos pelo crime de latrocínio.

As duas possibilidades demonstram a mesma coisa, que a redução da maioridade penal não irá solucionar o problema da escalada da violência.

Seja porque esses crimes já são cometidos, em sua imensa maioria, por maiores de idade, seja porque, independentemente da idade, o criminoso permanece impune.

O fato é que vivemos em um país com sistema carcerário abarrotado, com altíssimos índices de reincidência e índices ínfimos de recuperação de presos.

Além disso, mesmo entre os maiores de idade, a impunidade rola solta. Em fato, apenas 10% dos assassinatos sequer vão a julgamento no Brasil.
Isso sem falar nas absolvições por prescrição, falta de provas ou na progressão de regime.

Ou seja, chega a ser irônica a discussão se devemos punir um indivíduo por três ou por oito anos quando, na verdade, nem sequer chegamos a puni-los de qualquer maneira ou por qualquer período.

No mesmo sentido, possuímos educação de péssima qualidade, baixa mobilidade social, segregação social e racial, dentre muitas outras mazelas que aumentam o cometimento de crimes.

Também vale lembrar os péssimos salários dos policiais, o despreparo total, a falta de equipamentos e contingente, além da corrupção exacerbada!

Não possuo posição totalmente formada quanto à redução da maioridade penal (apesar de possuir certa inclinação), mas fato é que ela deve ser discutida tendo por base critérios objetivos de estatísticas de cometimento de crimes, estudos quanto à capacidade de discernimento e efetivo aumento na possibilidade de recuperação de indivíduos presos e não utilizada como pretexto para isentar o Estado de culpa pela violência.

A discussão trazida novamente à baila essa semana é mero oportunismo político do Sr. Governador Geraldo Alckmin.

É uma tentativa clara de tirar o foco da falência da segurança pública no Estado de São Paulo e da falência do sistema educacional e prisional brasileiros.

Ao invés disso, elege-se um único culpado pela situação (que nem sequer é o autor do crime), a lei.

O discurso mentiroso que se prega é “se pudéssemos puni-lo, nada disso teria acontecido”.

Ora, em nenhum momento se questiona a ausência de ação policial na região ou a ação exclusivamente violenta e não de patrulha.

Em nenhum momento se busca compreender a total ausência de oportunidades que um jovem pobre enfrenta no nosso país.

Jamais coloca-se em pauta que os que estão morrendo são jovens, muito jovens. Não se discute proteção ao jovem, discute-se transferência de culpa.

Curioso é notar que os jovens, na verdade, são muito mais vítimas de crimes violentos do que autores. Mas nada disso importa, o que importa é isentar o estado mais rico da nação de culpa.

Para tanto, prega-se mentirosamente que a redução da maioridade penal resolveria o problema.

Isso tudo sem falar na deslealdade de se utilizar o apelo emocional de um crime recente para discutir um assunto sério como a maioridade penal.

Aliás, é importante ressaltar que aqueles que defendem essa redução cooperam (talvez indiretamente) com os oportunistas que inventam desculpas para sua incompetência!

Isso porque, conformem-se, a maioridade penal NÃO será reduzida no Brasil, pois, caso isso ocorresse, estaria enterrado esse grande bode expiatório. Onde mais seria colocada a culpa pela violência senão na omissão estatal?

Muito provavelmente, se algo como o que ocorreu com essa família ocorresse com alguém próximo a mim, também me revoltaria pela impunidade da circunstância.

Mas é preciso compreender (e é como compreendo) que, provavelmente, a mesma revolta e a mesma impunidade ocorreriam se o crime fosse cometido por um maior de idade, que nem sequer iria a julgamento.

Além disso, é vergonhoso que um governador se exima de responsabilidade em uma situação dessas.

Na realidade, é vergonhoso que boa parte da sociedade brasileira - que contribui diariamente para a escalada da violência ao aceitar e fomentar um sistema que busca, em sem âmago, segregar e pouca oportunidade oferecer à imensa maioria da população – queira se eximir de culpa, transferindo-a integralmente para a lei.

É vergonhoso constatar que, muito embora a segregação, o elitismo, o preconceito, a falta de oportunidades, o sucateamento educacional e muitas outras deficiências brasileiras tenham nos trazido até esse verdadeiro caos não só na segurança pública, mas em muitos outros setores, o que se propõe como solução é justamente ampliar os níveis de segregação, elitismo, preconceito........

No mais, recomento a leitura do seguinte texto sobre o tema:

http://www.pragmatismopolitico.com.br/2015/03/maioridade-penal-18-motivos-contra-a-reducao.html