As últimas 24 horas na Rep. Fed. têm sido realmente inusitadas.
De 15 de março de 2015 a 13 de março de 2016, os opositores ao Governo Dilma saíram diversas vezes às ruas para reivindicar o impeachment, a renúncia ou cassação da chapa dela. Levaram um número muito expressivo de manifestantes às ruas para esse fim.
Durante o mesmo período, os aliados de Dilma, mais precisamente os petistas e diversas lideranças sindicais, também realizaram protestos em reação aos dos opositores, cujo mote foi invariavelmente “é golpe” e “não vai ter golpe”.
Para oposicionistas, derrubar Dilma Rousseff por qualquer mecanismo democrático (deixados de lado os pontuais delírios de intervenção militar) é pretensão legítima: “não é golpe”.
Já para os governistas, a não manutenção de Dilma Rousseff no cargo, independentemente do artifício utilizado: “é golpe” e “não vai ter golpe”.
Em razão disso, está marcado para 18 de março mais um “é golpe” e “não vai ter golpe” pelos governistas.
Mas eis que ontem à tarde o Palácio do Planalto confirmou a nomeação do ex-presidente da república, Lula, para o cargo de Ministro da Casa Civil.
Assim, os opositores ao regime passaram a acusar o governo de golpe, sob o fundamento de que Lula fará 3º mandato sem ser eleito. Clamavam, então: “é golpe” e “não vai ter golpe”.
Já os governistas passaram a defender a legalidade e constitucionalidade da nomeação: “não é golpe”.
Quando parecia que já ia ter gente comparecendo à manifestação errada – o que poderia levar tanto a um “pega pa capá” homérico quanto a uma carne na brasa –, eis que vazam áudios de grampo telefônico de Lula no qual Dilma afirma que enviaria o Termo de Posse apenas “em caso de necessidade”, o que foi interpretado como “em caso de decretação da sua prisão”.
Os opositores, então, voltaram a pedir a queda da atual ocupante da Presidência da República: “não é golpe”.
Já os governistas retomaram o discurso pró-governo: “é golpe” e “não vai ter golpe”.
Eis que hoje pela manhã – com uma cara de pau homérica –, Lula é empossado. Mais uma vez, inversão dos papéis. Para governistas, “não é golpe”. Para oposicionistas “é golpe” e “não vai ter golpe”.
Mas ainda não era o golpe de Minerva. Em seguida, foi concedida medida liminar suspendendo a nomeação. Os oposicionistas respiraram aliviados, deixaram de gritar “é golpe” e puderam voltar a pedir a saída de Dilma: "não é golpe".
Já os governistas não precisaram mais defender que a nomeação “não é golpe” e voltaram a centrar fogo na eventual saída de Dilma: “é golpe” e “não vai ter golpe”.
Ao que parece, há outras ações e diversos recursos em tramitação, pelo que a dança das cadeiras deve continuar. Esse texto deverá estar desatualizado poucos minutos, no máximo horas, após ser veiculado.
Há outro fenômeno que também tem mudado de direção na mesma velocidade. Os governistas pedem há tempos às suas bases sindicais uma greve geral para prejudicar o empresariado e frear o ímpeto de derrubar o Planalto (o golpe).
Com a nomeação de Lula, foram os empresários – que há anos entendem que greve é coisa de preguiçoso – que passaram a defender uma greve geral até a substituição do governo (não vai ter golpe).
O jogo de palavras e de posições serve apenas de ilustração para o quão imatura e sem rumo está nossa política e nossa república.
Esteja do lado que estiver, está claro que, em que pese seja fácil apontar os culpados, não há um rumo claro para o país, sobretudo pós crise política.
Noves fora os picaretas de plantão – sempre ávidos por mais um carguinho –, o fato é que os baluartes da solução fácil pouco têm a dizer sobre o amanhã, seja para manutenção do governo, seja para a derrubada.
Tem-se enchido o peito para apontar os Petralhas ou os Coxinhas como culpados de tudo, mas nos falta maturidade política para admitir que o nosso sistema bipolarizado faliu e precisamos construir alternativas.
Não é aceitável que um governo manifesta e indiscutivelmente corrupto, incompetente e sem respeito pelas instituições continue no poder, assim como não é tolerável que setores ultraconservadores, historicamente corruptos e oportunistas capitalizem a queda da presidência em seu favor para se alçarem ao poder.
A única coisa que parece estar, acima de qualquer discussão, totalmente esvaecida e banalizada é a memória de nossas bases históricas.
Em um país com vasto histórico ditatorial e autoritário, resguardada a democracia – que parece tudo menos ameaçada neste momento -, nomeação de Ministro, impeachment, renúncia, cassação de chapa e manifestação popular em qualquer sentido podem ser muitas coisas. Boas e ruins.
Golpe, sem sombra de dúvidas, é tudo o que não são.