Antes de mais nada, gostaria de deixar claro que não sou muito fã de retrospectivas.
Não pretendo fazer retrospectivas de outros anos e nem me empolgo com análises dos fatos dos 12 meses que passaram.
Mas esse ano foi diferente. Esse ano foi um ano marcante e, ao olhar para trás, senti que precisava gravar o que ele representou.
Principalmente pelos fatos inusitados que ocorreram e pelo aprendizado que tais fatos deixaram.
Não sei para quem escrevo essa retrospectiva. Provavelmente para mim.
2012 era o ano em que o mundo deveria ter acabado. Não acabou. Mas mudou muito a minha vida.
Para falar de 2012, preciso começar falando do final de 2011.
No natal de 2011, fizemos uma roda em família na qual perguntou-se para cada um o que aquele ano representou.
Na minha vez, disse que 2011 estava entre os melhores anos da minha vida.
Em 2011, me formei na faculdade, fui efetivado no meu trabalho, passei na prova da OAB, arrumei um novo apartamento para morar e conheci uma garota sensacional, que rapidamente se tornou minha namorada.
Achei que seria um ano muito difícil e cansativo, mas o apoio da minha namorada facilitou em muito as coisas.
Nós nos damos muito bem, gostamos das mesmas coisas, nos apoiamos mutuamente nos desafios, nos divertimos muito, conversamos sobre muitas coisas, enfim, o relacionamento sempre foi excelente.
Evidente que não era perfeito, pois sempre existem coisinhas para melhorar, mas era muito bom.
2012 começou da mesma maneira, bem e feliz. Passamos juntos a virada.
O ano seria igualmente cansativo, pois agora era ela quem passava pelo 5º e último ano da faculdade e teria que enfrentar OAB, monografia e efetivação.
Para completar, sua avó estava doente, o que era mais um motivo de desgaste e estresse.
Mesmo assim, nosso relacionamento continuava muito bem e eu estava feliz com minha nova vida de formado, fazendo exercícios físicos diariamente, trabalhando em algo que gosto e com tempo para fazer as coisas que queria.
Logo no início do ano, a doença da avó dela piorou, a cobrança no escritório aumentou e a prova da OAB chegou.
Isso nos aproximou ainda mais, fiz tudo o que podia para apoiá-la e auxiliá-la.
Com a aprovação dela na OAB, as coisas se acalmaram, apesar das outras questões e, assim, decidimos ir aos jogos jurídicos em São José do Rio Preto.
Já havíamos viajado para o Rio de Janeiro no início do ano e para Ubatuba no Carnaval, então não havia muita novidade.
Nos divertimos no primeiro dia de jogos, apesar da chuva. De noite, o cansaço nos impediu de ir para a festa. Optamos por ficar em casa e descansar.
O segundo dia foi igualmente divertido e chuvoso. De noite, finalmente fomos à uma festa dos jogos.
A festa foi muito boa, dançamos e nos divertimos bastante. Como sempre fomos animados, recusamos o convite para irmos embora e continuamos na festa até tarde.
Foi a partir daí que se iniciou uma verdadeira reviravolta em nossas vidas.
Na hora de ir embora, optamos por ela dirigir, já que ela não tinha bebido nas últimas horas.
Por motivos incertos, erramos o caminho de volta e, ao tentar fazer o retorno, fomos atingidos, na lateral do motorista, por um caminhão.
Tudo isso me foi contado, pois só lembro de acordar dentro do carro com ela desacordada ao meu lado.
Desde então, não ouvi mais a voz da Bianca.
Tive alguns ferimentos moderados, como fratura de clavícula e traumatismo craniano leve. Fiquei 4 dias internado e demorei mais de 60 para poder utilizar o braço novamente.
Minha namorada, porém, sofreu um traumatismo craniano gravíssimo, que a manteve em coma profundo por ao menos 2 meses, fazendo progresso muito lento e pouco perceptível durante esse período.
Não bastasse isso, sua avó faleceu no mesmo dia!
Essa foi a primeira grande lição de 2012.
Aí aprendi a valorizar as pessoas que amo, a vida que tenho, os momentos bons que partilho.
Valorizei imensamente minha família e o apoio que me deram! Me aproximei mais deles e tentei aumentar a demonstração de afeto.
Parece besteira, mas, de fato, me dei conta de algo que no fundo já sabia.
Entendi que minha vida sempre foi muito fácil, que minha condição social fez com que jamais tivesse passado dificuldades significativas.
Vivenciei isso na prática!
Aprendi a respeitar ainda mais as pessoas que tem dificuldades e tragédias como rotina em suas vidas.
Não posso ser hipócrita.
O que mais aprendi em 2012 foi a sofrer. E sofrer muito.
Sofri imensamente com a situação da Bianca, com as incertezas sobre sua melhora.
Por mais de uma vez, me vi resignado, questionando se existiam de fato condições para que a Bi se recuperasse e voltasse a ter uma vida normal.
E foram essas situações que trouxeram a segunda grande lição.
A lição da persistência, da perseverança.
Com o sofrimento, acho que pela primeira vez em minha vida soube colocar o bem estar de alguém acima do meu.
Entendi que a Bianca precisava e muito de mim e de todos aqueles que a amam.
Precisava de força, de ajuda, de incentivo. Precisava de conforto, de segurança...
Nesse momento, meu sofrimento se tornou algo totalmente secundário, pois a prioridade era fornecer todas as condições para a recuperação da Bianca.
Claro que isso não deixou de ser uma forma de combater meu sofrimento, pois, com ela boa, tudo estaria resolvido.
Jamais foi uma opção ajudar a Bianca, foi uma necessidade.
Não negligenciei nem menosprezei o que sentia, apenas dei maior importância ao sofrimento e condição da Bianca, que eram muito mais relevantes!
O grande problema para mim era que me sentia sozinho.
Não tinha mais minha companheira ao meu lado, mas, ao mesmo tempo, jamais tive qualquer interesse em romper meu vínculo com ela.
Isso dificultou bastante minha vida social, pois não conseguia me divertir como antes, me sentia deslocado.
Mais uma vez, uma lição foi aprendida.
Adaptei minha vida para que pudesse estar feliz mesmo sem ela.
Voltei a praticar atividade física, alterei meus programas noturnos e de lazer, passando a valorizar mais a qualidade do tempo despendido com os amigos.
Ao invés de baladas e noites a dentro – nas quais não me sentia mais tão à vontade –, passei a priorizar conversas, boas risadas, jantares...
Curiosamente, essa adaptação, de certa forma, me aproximou da Bianca.
Isso porque passei a priorizar de maneira muito mais intensa os meus estudos.
Iniciei uma pós-graduação para a qual me dediquei muito, me interessando pelas aulas e pelos temas discutidos.
Também passei a traçar planos de estudos para o futuro, decidindo o que, quando e onde estudar.
Tais fatos representam uma aproximação da Bianca sim, pois ela sempre foi muito estudiosa e apaixonada pelos estudos.
Grande lição que ela me ensinou!
Isso fez, ainda, com que eu me aproximasse ainda mais da família dela.
Desenvolvi uma verdadeira relação de afeto com eles e passei a admirirar imensamente a dedicação e perseverança da mãe dela que, desde o acidente, não só dedicou todo o seu tempo à Bianca, como também se manteve invariavelmente otimista.
Isso também me ajudou a afastar a tristeza quando questionamentos surgiam, pois via nela fonte de esperança!
Quando as coisas começaram a entrar nos eixos, mais um baque surpreendente.
De uma hora para outra, sem mais nem menos, a namorada de um grande amigo meu faleceu.
Esse sim foi um dos eventos mais tristes que já presenciei.
Uma menina jovem, super legal, bonita e feliz, com a vida toda pela frente, simplesmente se foi.
Naquele momento, aprendi talvez a maior lição do ano.
Aprendi a dimensionar meu sofrimento e respeitar as situações da vida de cada um.
A Bianca está viva e com boas chances de se recuperar plenamente!
Isso é motivo de alegria, pois ela tem sim uma segunda chance, de recomeçar tudo de novo.
Também aprendi a dar suporte e a respeitar as situações da vida daqueles que gosto.
Quando essa tragédia ocorreu, não houve como pensar duas vezes, tratei de ir dar todo o suporte ao meu amigo, reconhecendo a tristeza inigualável da situação que a vida lhe impôs.
Precisei ler e compreender rapidamente a complexidade e dificuldade de uma situação que fazia todos os meus problemas parecerem fáceis.
Não sei se dei todo o apoio que deveria e se fiz tudo que estava ao meu alcance para dar suporte a esse grande amigo.
Mas tentei fazer isso respeitando o espaço e individualidade dele.
Já no fim de 2012, a última grande lição dada por esse ano tão confuso.
A lição da esperança.
A Bianca finalmente teve alta do hospital e pode ir para casa.
Em casa, vimos muitos progressos sendo feito rapidamente.
Esses progressos estão todos narrados nos boletins que escrevo regularmente sobre ela.
Mas o que importa para esse texto é que a minha confiança na recuperação plena da Bianca foi renovada.
Hoje faz 243 dias que eu e a Bianca nos acidentamos. Arredondando, 8 meses.
Olhando para trás, imaginava que hoje ela já estaria recuperada. Jamais imaginei que demoraria tanto.
Porém, olhando para trás novamente, sempre tive grandes dúvidas se essa recuperação era plausível. Hoje essas dúvidas são mínimas!
O mesmo tempo que está demorando a trazer a Bibi de volta a traz mais para perto a cada dia e aumenta nossa confiança.
Hoje a Bibi já demonstra consciência, interage quase que todo o tempo com as pessoas e objetos a sua volta.
A última lição do ano é clara. A esperança, a fé (não necessariamente religiosa), o otimismo, são sim instrumentos importantíssimos para que não nos esqueçamos nunca daquilo que realmente importa!
A lição geral que tiro e que transmito de 2012 é que nossa vida muitas vezes é e será confrontada por momentos extremamente difíceis, que talvez jamais possamos compreender completamente.
Não adianta tentarmos negar. Esses momentos trarão sim dor e sofrimento. Desejaremos que jamais tivessem ocorrido.
Mas não é possível modificá-los.
Então, só há um caminho. Aprender e crescer com eles, extrair ensinamentos.
E isso será feito mesmo que não queiramos.
Não sei se eu quis ou me esforcei para aprender com os fatos de 2012, simplesmente aprendi.
O tempo se encarrega de minorar nosso sofrimento e abrir caminho para novas experiências, que tragam novamente prazer e felicidade.
Com as lições aprendidas nos momentos de dificuldade, certamente saberemos aproveitar de maneira muito melhor as boas oportunidades com as quais seremos agraciados!
2012, o ano em que o mundo não acabou. Talvez se o mundo acabasse, seria tudo mais fácil. Mas o fato de a vida continuar é que nos obriga a superar obstáculos e nos torna pessoas melhores.
Sem dúvida, foi um ano trágico, com muitas mortes de imortais, como Hebe, Chico Anysio e Oscar Niemeyer. Sem dúvida foi um ano marcante (principalmente para os corintianos).
Mas, no final, o que 2012 fez realmente foi abrir as portas para um excelente 2013, tenho certeza.
Nunca fui muito adepto da filosofia “ano novo, vida nova”. Sempre achei que era apenas um dia após o outro.
Hoje penso diferente. Penso que é uma oportunidade para revermos o que passou e ajustarmos nosso caminho.
Talvez isso seja apenas uma ilusão.
De qualquer forma, desejo a todos um excelente 2013.
Mas, se não for excelente, lições serão aprendidas para os bons momentos que certamente hão de vir!

