As coisas mudam
a todo instante, todos os dias.
Por isso, decidi
modificar a dinâmica.
Escreverei
textos menores, abordando diariamente um ponto diferente. Pretendo falar de
esquerda, de direita, de partidos, de mídia... Enfim, um pouco de cada vez.
O primeiro da
série é dedicado ao principal: MOBILIZAÇÃO!
1. A LINDA MOBILIZAÇÃO NACIONAL E A LUTA CONTRA A TENTATIVA DE APROPRIAÇÃO IDEOLÓGICA INDEVIDA
Esse texto tinha
um outro começo, um começo racional escrito há aproximadamente 6 dias.
Um começo que
buscava explicar a racionalidade de um protesto sobre uma diferença de R$ 0,20
na tarifa do ônibus. Essa diferença existe e continua sendo relevantíssima.
Porém, joguei
toda essa racionalidade fora momentaneamente, pois o momento é especial, é
único ao longo de minha existência enquanto cidadão.
Por isso,
gostaria de destacar a minha felicidade coerente, minha satisfação consciente,
minha alegria pertinente não só com os protestos, mas com o movimento que se
instaurou na cidade de São Paulo e vem se espalhando por outras localidades do
nosso país.
O que temos
observado nas ruas, bares, restaurantes, padarias, televisões, jornais,
escritórios de advocacia e tantos outros meios é a discussão aberta,
escancarada e fundamentada da população sobre os mais diversos temas.
Alguns discutem
a legitimidade do movimento, outros discutem a relevância de R$ 0,20, há quem
coloque em pauta a ação da polícia, existem os que reclamam do trânsito nos
dias de protesto, os que falam da representatividade das classes baixas nos
movimentos sociais, os que defendem a equivalência entre PT e PSDB... Enfim,
uma infinidade de temas vem sendo discutidos diariamente em centenas de
conversas travadas pela população.
Por isso,
gostaria de parabenizar imensamente o Movimento Passe Livre (do qual não participo)
e agradecer a todos, sem exceção, que contribuíram para esse debate.
Independentemente
de ter sido uma colaboração conservadora ou liberal, de esquerda ou de direita,
reacionária ou libertária, o importante é discutir!
Nosso país
carece, há muito tempo, de fomentos ao debate, que é, indiscutivelmente, o
maior ganho desse movimento.
Qual foi a
última vez que as classes A e B ou políticos poderosos dedicaram uma semana
inteira de suas vidas a discutir o preço da tarifa de ônibus? Nem que seja para
meter o pau em tudo e em todos, o momento é único, é especial.
E, agora sim
politizando, parabéns à esquerda brasileira por construir esse momento!
O que mais me
alegra de tudo o que observei até o momento é a capacidade que o Movimento
Passe Livre ("auxiliado" pela truculência surreal da Policia Militar
e parcialidade da Mídia, é bem verdade) teve de coalizar opiniões.
Eu ainda vou
escrever - em breve - um texto que demonstra minimamente os pilares que nos
possibilitam distinguir esquerda e direita na sociedade moderna e pouco
politizada. Essa diferença existe e é muito importante.
Mas, o que
importa mesmo para o momento é a capacidade do Movimento Passe Livre de diluir,
em sua grande parte, as noções primitivas de Direita e Esquerda que estão há
muito instituídas e segredadas (veladamente, é bom que se diga) em nosso país.
Não que saber
quem é de esquerda ou de direita não seja relevante, obvio que é. Também é
imensamente importante saber as bandeiras que devem ser erguidas.
Mas o que
verifico é que muitos abdicaram momentaneamente do cabresto que a posição
política nos impõe e conseguiram enxergar que, longe dessas amarras, temos
inúmeros pontos em comum e podemos sim aproveitar a força coletiva das mais
diversas frentes políticas ao menos para trabalhar em prol dos interesses que
lhes são coincidentes.
A eventual
disputa maciça deve ficar para um segundo momento!
Qualquer leitor
atento de jornais ou revistas, usuário do Facebook, Twitter, ou telespectador
de televisão é capaz de notar a nítida mudança de foco conseguida pelo
movimento.
Os protestos
tiveram início como qualquer protesto tem início, com baixa importância e
atenção.
Logo que a coisa
ganhou força, passaram a ser fortemente hostilizados, pintados de vândalos,
rebeldes sem causa, filhinhos de papai desocupados. Típicos argumentos de
desconstrução e desarticulação.
A partir de
quinta-feira, a coisa mudou de figura.
A polícia
agrediu e agrediu muito os manifestantes. Não param de pipocar vídeos, fotos,
relatos, testemunhos, áudios e muitas outras fontes que demonstram a nítida
tentativa de se desmoralizar, através da criação da falsa perspectiva de
violência e vandalismo, um movimento político-social.
Aliado a isso,
veio a certeza de que a polícia, na figura da ilustríssima Tropa de Choque, simplesmente
perdeu a mão - como se fosse a primeira vez... - e agrediu a tudo e a todos,
desenfreadamente.
Chegou-se ao
cúmulo de agredir transeuntes alheios ao protesto. Tudo sobre a justificativa
justamente de se proteger a volta para casa desses transeuntes, alheios ao
protesto!
Nesse momento é
que ocorreu a reviravolta que constituiu toda a beleza desse momento único,
pelo menos, ao longo dos últimos 20 anos.
Uma parcela
significativa da população antes indiferente ou contrária aos protestos se deu
conta do pano de fundo que legitima toda essa mobilização.
Ficou claro que,
apesar da importância do aumento de R$ 0,20 na passagem de ônibus, o Movimento
Passe Livre transcendeu essa barreira e concebeu (ainda que acidentalmente) um
veículo direto, popular e eficaz para mobilização popular.
A magia da
mobilização e do apoio popular está em se enxergar, em um movimento iniciado
por conta de um aumento de R$ 0,20 na tarifa do ônibus, a possibilidade de se
aderir à lutas muito mais complexas - e igualmente significativas -, como o
autoritarismo governamental, o total sucateamento dos serviços públicos, o
descaso com a população, os absurdos da PEC 37, os preços exorbitantes impostos
aos brasileiros, a violência desenfreada, além de muitos outros absurdos revoltantes.
Mais do que
isso, uma grande parcela da população finalmente se deu conta, ao olhar as
imagens difundidas (não pela mídia, mas pela própria população), de que alguma
coisa estava errada.
Como pode o
simples fato de se romper o trajeto designado para uma manifestação, os gritos
de "sem violência" ou o porte de vinagre serem pretextos para uma
saraivada de balas de borracha, cassetetes a torto e a direito, bombas para
todos os lados, agressões gratuitas até mesmo à população que simplesmente
estava no local errado na hora errada, tudo isso supostamente legitimado pela
"mão firme" do Governador do Estado.
O discurso
governamental é de se manter a ordem. Eu prefiro outro nome. O que se busca é a
manutenção da inércia.
O que os nossos
governantes querem é que todos sigam paulatinamente sua rotina, indo e voltando
do trabalho, pegando trânsito e, no máximo, reclamando na mesa do jantar. Isso
deixa o caminho livre para que eles ponham em prática seu sórdido plano de
domínio, manipulação e enriquecimento ilícito.
Mas chega! As
pessoas voltaram e precisam continuar voltando a pensar.
E aqui, uma
parcela da Esquerda diz “nós nunca paramos...”. Soberba! A realidade do país é
essa, o povo estava maciçamente desarticulado. É preciso inteligência para
compreender o momento.
Tenho para mim -
muito mais uma esperança do que uma constatação - que grande parte da
população, independentemente do mérito dos protestos, se fez a seguinte
pergunta "Espere aí, e o dia em que eu quiser reivindicar algo que
considere relevante, como serei tratado pela polícia?"
Qualquer cidadão
que preze pela democracia e, consequentemente, por seu direito de livre
expressão, deveria, ao assistir atos de absoluta truculência contra uma
manifestação pacífica, questionar como seriam tratados seus mesmos direitos em
situação similar.
O ponto central
do que ocorreu em São Paulo é, a meu ver, bastante simples: é a revolta contra
a afronta ao direito de liberdade de expressão.
Com o perdão da
palavra, foda-se se eu, você, fulano, ciclano ou beltrano concordam ou
discordam do protesto ou do aumento da passagem. O que verdadeiramente importa
é a tomada de consciência de que, certas ou erradas, as pessoas tem total
direito de se manifestar. Isso é legítimo!!
Agora, tem
surgido uma nova corrente. A corrente de pessoas que se dizem preocupadas com a
“falta de liderança” dos protestos, ou a falta de canalização para uma questão
específica.
Alegam, por
exemplo, que a Direita está tentando redirecionar o movimento popular em prol
das suas questões como, por exemplo, derrubar o Governo Federal.
A meu ver, isso
é uma clara tentativa de se operar um estelionato intelectual contra essa
revolta popular.
O que se busca é atribuir cara e caráter políticos (obviamente através de uma bandeira partidária e cada um oferece a sua) a um movimento que é, na verdade, popular e social.
A primeira coisa
que precisa ficar clara é que a imensa maioria das revoltas populares bem
sucedidas no mundo sempre foram heterogêneas.
As próprias
Diretas Já no Brasil ou a Revolução Francesa contaram com esquerdistas e
direitistas. Não é hora de cair nesse canto da sereia de que não dá para
coalizar.
Esses caras vêm
coalizando há muito tempo. Veja o que o PT, por exemplo, fez para chegar ao
poder.
O que precisa
ficar claro é que as pessoas não estão unidas por serem de esquerda ou de
direita. Isso é secundário no momento e deverá ser discutido apenas se a
movimentação que se iniciou no nosso país se tornar muitíssimo maior.
Nesse momento, todos
são aliados de uma causa comum que é a insatisfação geral e absoluta com nossos
governantes, a busca por mudanças estruturais!!
Permanecemos
mais de 20 anos sem uma movimentação de massa significativa. Agora, ao invés de
se buscar maior mobilização, querem criticar o que vem ocorrendo. Só podem
querer retomar a inércia, ainda que de maneira torta!
Não é hora de
dizer “você não serve para o meu protesto”. Acordem, não tem dono de protesto –
embora tenha muito partido louco para se tornar – a mobilização é natural e
espontânea do cidadão comum, de bem, aquele que não precisa encher o peito
todos os dias para falar “sou um intelectualoide” e, ainda assim, resolveu se
mexer.
Aqueles que se
julgam com mais direito de protestar que outros só podem estar querendo
antecipar os resultados já previstos por George Orwell em A revolução dos
bichos.
O movimento
popular que toma conta do Brasil é nascido, principalmente, do desejo
individual de participar de uma mudança concreta no país. Está profundamente sedimentado na sensação de que a via partidária ,tradicional e tão antiga, simplesmente não tem funcionado!
Os partidos
políticos e os movimentos sociais (de esquerda) de bandeira têm sim papel
importante na viabilização para que isso ocorra, pois vêm se manifestando e
protestando há muito tempo, buscando viabilizar o apelo popular.
Mas o
engajamento populacional não passa por identidades partidárias ou de bandeiras
e muito menos ideológicas engessadas (talvez ideológicas híbridas e em
construção).
Por isso, faço um apelo aos Partidos Políticos, principalmente aos mais conscientes: Antes de pré-julgarem que a mobilização social precisa de vocês (o que é muito fácil, diga-se de passagem), deixem as coisas acontecerem.
O papel fundamental dos partidos deve se restringir apenas a manter o foco da discussão e apontar os abusos midiáticos para desvirtuar bandeiras. Deixem, ao menos uma vez, que o povo faça o resto!
Não compreender
isso é se colocar indevidamente no caminho da oportunidade única de se ampliar
o debate e as manifestações!
Amigo partidarista, valorizamos muito as suas ideias, suas causas e reconhecemos o imenso valor que você, na qualidade de Militante, tem nisso tudo, já que vêm protestando há séculos e viabilizaram tudo isso.
Mas há que se ter responsabilidade e sensibilidade. Continue vindo, bradando suas ideias, seus pensamentos. Apenas deixe a bandeira em casa, deixe os gritos de guerra partidários para outro momento.
Promova você, sua individualidade, o seu peso enquanto cidadão, a sua capacidade de mudança, seu amor pelo país, as causas em que acredita. O seu partido, por melhor e mais bem intencionado que seja, pertence à uma classe: a Classe Política.
E é essa a classe da qual estamos cansados. Acho que o povo merece a tentativa de abrir uma nova via. Por favor, respeito!
No mais, continue denunciando abusos, subversões, tentativas reacionárias de desvirtuamento. E se conseguirmos manter uma marcha focada e bem organizada, suprapartidária e sem bandeiras? Dê essa chance ao Brasil!
Se a coisa patinar (o que, aliás, já vinha ocorrendo nos velhos moldes propostos pelos partidos há anos), repensamos!
Amigo partidarista, valorizamos muito as suas ideias, suas causas e reconhecemos o imenso valor que você, na qualidade de Militante, tem nisso tudo, já que vêm protestando há séculos e viabilizaram tudo isso.
Mas há que se ter responsabilidade e sensibilidade. Continue vindo, bradando suas ideias, seus pensamentos. Apenas deixe a bandeira em casa, deixe os gritos de guerra partidários para outro momento.
Promova você, sua individualidade, o seu peso enquanto cidadão, a sua capacidade de mudança, seu amor pelo país, as causas em que acredita. O seu partido, por melhor e mais bem intencionado que seja, pertence à uma classe: a Classe Política.
E é essa a classe da qual estamos cansados. Acho que o povo merece a tentativa de abrir uma nova via. Por favor, respeito!
No mais, continue denunciando abusos, subversões, tentativas reacionárias de desvirtuamento. E se conseguirmos manter uma marcha focada e bem organizada, suprapartidária e sem bandeiras? Dê essa chance ao Brasil!
Se a coisa patinar (o que, aliás, já vinha ocorrendo nos velhos moldes propostos pelos partidos há anos), repensamos!
Muitos podem pensar: "Porra, o cara vem se voltar contra os Partidos?? Olha o que a mídia reacionária está fazendo!!"
Sim, foco nos partidos por um motivo muito simples.
A mídia reacionária está derrotada, seu discurso não está sendo comprado!
É hora de frear levantes que verdadeiramente possam prejudicar a beleza do que o Brasil está vivendo e, na onda de protestos modernos, pelo menos no primeiro momento, esse risco não está mais na mídia tradicional.
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