sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Madiba - Singela homenagem e reflexões

Antes de mais nada, saúdo a vida e presto minhas solenes homenagens ao grande lídercombatedor do Apartheid e do racismo, bem como defensor do movimento negro na África do Sul e Comunista, Nelson Mandela.

Não lamento sua morte, pois, aos 95 anos, com debilidades físicas severas e a certeza de que a vida chega ao final para todos nós, é difícil imaginar o que mais poderia glorificar um homem responsável por libertar - ao menos em parte - um país inteiro da segregação racial, bem como incrustar em tantas outras nações, ao menos a noção de que uma luta séria contra o racismo é necessária.

Hoje é o momento de esse grande líder mundial receber todo o seu reconhecimento e as homenagens que lhes são devidas.

A mim, parece lindo e toca o coração saber que o funeral de Madiba será o maior evento da história da África, que recebeu uma Copa do Mundo há pouco.

Sinal de que os Africanos, embora festivos, aprenderam muito bem a reconhecer e reverenciar aqueles que lutaram para mudar suas condições de vida.

A África inteira, negros e brancos, ricos e pobres, direitistas (não racistas, é claro) e esquerdistas hoje reverenciam os feitos de Nelson Mandela.

Contudo, gostaria de refletir sobre dois pontos. O primeiro, muito mais singelo, sobre os inúmeros pedidos que li para que surjam no Mundo, outros cinquenta Nelson Mandela's. Alguns ainda fazem a ressalva "enquanto ainda precisarmos deles..."

Ora, sempre precisaremos de gênios e grandes líderes. Mas seremos totalmente dependentes deles enquanto entendermos que somente gênios e grandes líderes podem conduzir as mudanças sociais de que necessitamos.

Nelson Mandela, assim como muitos outros líderes, propagou as dificuldades enfrentadas por negros e pobres em razão da segregação racial e social. Hoje temos condição de lutar, em nosso dia a dia, contra essas mazelas. Todos nós podemos fazer nosso papel de combate ao racismo, denunciando preconceitos, exigindo punições, tratando igualmente pessoas diferentes, respeitando culturas...

Madiba não fez nada sozinho. Fez o que fez porque milhões de cidadãos comuns, também tão heróis quanto ele, ouviram seu discurso e decidiram enfrentar o racismo e reivindicar direitos para negros da África do Sul. Sem a adesão do homem comum, nenhum dos enormes feitos alcançados por Madiba teria sido possível.

Precisamos, então, ao invés de rezar ou pedir por novos líderes que mudem as esferas de nossa estratificação social, assumir as rédeas dessa mudança, a começar por alterar a dinâmica racista, sexista, elitista, higienista... que verificamos em nosso dia a dia.

A meu ver, é inimaginável concluir que a grande lição de Madiba foi "sigam os grandes líderes e façam as mudanças pregadas por eles". Isso qualquer líder poderia pregar. A grande lição dele certamente foi "lutem contra o racismo e as demais formas de preconceito. Não deixem uma invenção artificial e inescrupulosa de preconceito tolher direitos de qualquer parcela da sociedade."

O segundo ponto que coloco para reflexão é, a meu ver, também muito mais grave.

Parece haver uma disputa, não sei ao certo, mas aparentemente política, de apoderamento do legado de Mandela. Li discursos dos mais variados, dizendo que direitistas que são contra essa ou aquela política social, alienados políticos e outros tantos deveriam lavar a boca ou simplesmente não têm o direito de usar o nome ou as palavras de Mandela, ou até mesmo de lamentar sua morte.

Essa postura é, na verdade, imenso desserviço ao esplendido trabalho desenvolvido por Madiba em seus muitos anos de ativista na África do Sul.

Hoje, ao redor do mundo inteiro, pessoas dos mais variados tipos lamentam profundamente e sofrem com a partida de um africano negro e comunista.

O simples fato de uma infinidade de pessoas conseguir identificar em uma pessoa com essas características tão marcadas pelo preconceito é, por si só, é um passo contra o preconceito. A celebração do nome de Nelson Mandela e a possibilidade de entrar em contato direto com suas inúmeras pautas e frases é, por si só, um fator de conscientização.

Não devemos, em hipótese alguma, tentar nos apoderar de um líder global, que fez muito pelas comunidades negras ao redor do globo terrestre. Madiba, sua luta e seu legado são dedicados aos negros da África do Sul e do mundo, mas não possuem um só dono.

Todo aquele que deseje reverenciar um africano, negro e comunista está dando mostra de superação, ainda que parcial, de preconceitos.

Por fim, gostaria de dizer que muito me orgulha saber que, assim como esse que vos escreve, Madiba era, também, comunista.

Contudo, não há como ignorar que sua luta e seu legado, embora notoriamente à esquerda, não foram voltados para construções comunistas e sim para o fim da segregação racial e do racismo.

Desconsiderar isso é um erro que torna natimorta qualquer análise ou reivindicação das lutas de Mandela. Portanto, há que se valorizar aquilo que foi efetivamente objeto de suas lutas e reconhecer as inúmeras vitórias nesse campo.

Por isso, repito o que já disse acima. direitistas, capitalistas, neoliberais, elitistas e tantos outros têm sim todo o direito - na verdade, o dever - de saudar Nelson Mandela, o grande ativista africano, negro e comunista, embora carentes de identidade política com ele. 

Isso porque, ao fazê-lo, ainda que sem alterar as dinâmicas elitistas e preconceituosas em que estão inseridos, estão sim dando mais um passo contra o preconceito, seja pelo fato de conseguirem superar os preconceitos iniciais e reconhecer em uma pessoa dessa importância e com essas características, o grande líder mundial que foi e o imenso papel que desempenhou, ou seja pelo fato de que estão, ainda que inconscientemente, ajudando a difundir a luta contra o racismo, maior bandeira carregada por Madiba ao longo de sua existência e cuja difusão mundial certamente lhe orgulha.

Tentar privar alguns de homenageá-lo, por mais bem intencionado que seja, nada mais é do que uma postura de segregação, consequente negativa de tudo o que ele mesmo pregou.



Por fim, gostaria apenas de lembrar que a vida de Mandela foi marcada por nada menos do que 27 anos de prisão pelo simples fato de ser negro e reivindicar direitos para negro. Ele foi, portanto, também uma imensa vítima do Apartheid. Devemos sempre manter isso em mente para lembrar o tamanho das injustiças que o preconceito realiza, bem como fazer justiça à sua história que, embora glorificada, também foi de muito sofrimento.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Bianca - Boletim 22

Hora de mais um reporte de novidades da Bibi.

Conforme havia dito anteriormente, a Bi de fato passou por uma cirurgia na perna.

Foi uma cirurgia longa e complexa, pois precisaram mexer em vários pontos da perna dela. Então ela está com vários cortes, curativos e bastante dor.

Além disso, engessaram a perna direita inteira, para que ela cicatrize na posição correta.

A cirurgia foi na quarta-feira da semana passada e ontem ela voltou ao médico para uma nova avaliação. Acabaram trocando o gesso, que estava muito apertado e machucando ela.

Além disso, também esticaram mais um pouquinho a perna dela, que está praticamente toda esticada.

Ela está tomando analgésicos e um relaxante que deixa ela um pouco grogue. Nos primeiros dias estava bem grogue.

Mas agora já está bem mais esperta e interativa. Acostumou bem com o remédio.

Aliás, ela tem se comunicado muito bem. A voz está um pouco mais fraca por conta desses remédios, mas está bem esperta e interativa.

Faz perguntas, comentários autônomos, consegue expressar sua opinião sobre várias coisas... Agora já dá para literalmente ter uma conversa. Tem suas limitações, mas dá para bater um papo.

Por vezes, ela emperra em algum ponto do raciocínio, mas se ajudarmos ela a seguir em frente com dicas e analogias, a baixinha retoma a coerência. Ela ainda precisa ser estimulada para isso, mas já exprime uma opinião própria e consegue justificá-la.

Também está mais carinhosa, o que é um sinal de autonomia e vontade.

A evolução tem sido muito boa nos últimos tempos. Principalmente porque está sendo mais efetiva na parte intelectual, o que nos anima bastante.
 
Imagino que quando removerem esses remédios que ela está tomando por conta da cirurgia, ela consiga interagir e pensar ainda melhor!
Quanto à parte física, essa cirurgia deve retardar um pouco, já que ela tem que passar o dia todo deitada e isso acaba atrofiando os músculos e diminuindo as atividades.

Mas imaginamos que ela deva se recuperar rápido e seguir progredindo melhor, agora com a perna esticada.

Ela deve permanecer com o gesso até o dia 5 de dezembro. Depois disso, usará uma ortese 24 horas por dia por pelo menos duas semanas, para que a perna siga na posição.

Somente depois desse período é que ela irá poder esticar e dobrar a perna livremente. Esperamos que, com isso, ela não tenha mais problemas na perna direita e consiga ficar em pé em breve.

A cirurgia deve atrasar um pouco o ingresso dela no Lucy Montoro, mas provavelmente irá fazer ela render bem mais lá.

Acho que a neuropsicóloga tem ajudado ela. Mesmo com todas essas intercorrências, ela tem ficado bem mais calma. Claro que ainda se revolta às vezes, mas está menos frequente.

O grande desafio proposto pela psicóloga agora é que ela adquira noção melhor de tempo e espaço.

Saiba qual o dia da semana, o horário, o período do ano, essas coisas. Se situar é um aspecto muito importante do intelecto, fundamental para poder exercer outras funções.

Também tenho notado melhora nesse quesito. Ela ainda erra bastante, mas tem demonstrado algum progresso.

Aliás, a memória dela de longo prazo está bem preservada. Outro dia olhamos a foto de diversos atores e ela reconheceu a imensa maioria. Também lembra do nome de pessoas que não vê há tempos.

Ainda confunde a cronologia das coisas, tipo a idade, o que vem antes e o que vem depois. A psicóloga fez uma linha do tempo e tem trabalhado isso com ela.

Ela não tem se alimentado porque tem que ficar deitada por causa da perna.

Mas o setor da alimentação ainda é um dos mais complicados para ela.

O natal e o ano novo devem ser em casa mesmo, por conta da cirurgia. Mas a expectativa daqui para frente é que ela consiga sair mais de casa e passear, principalmente com a perna melhor e podendo trabalhar para ficar em pé.

Essas são as novas do momento.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Bianca - Boletim 21


Olá amigos!

Bem vindos a mais um boletim sobre as poucas e boas que a Bibi vem aprontando em sua recuperação.

A Bibi tem brincado bastante com seus presentes de aniversário, que vem contribuindo para o desenvolvimento gradual do seu raciocínio.

Ela está mais e mais esperta a cada dia, soltando comentários cada vez mais autônomos, apresentando gradativamente uma progressão no raciocínio, associando melhor as coisas.

Já se tornou raridade ela responder incoerentemente a uma pergunta.

A pequena tem conseguido raciocinar e associar uma palavra a outra, deduzir a resposta através de dicas, chegar a conclusões lógicas e fazer algumas contas de cabeça.

Está quase conseguindo ter uma conversa. Ainda baseada em frases curtas e com necessidade de insistirmos um pouco em um ou outro ponto, mas já dá para bater um pouco de papo sim.

Ela também tem mais consciência do que está dizendo. Quando interpretamos errado uma palavra, por alguma deficiência no som, ela diz que não é essa palavra que está dizendo e ficamos tentando entender até conseguir.

Obvio que vez ou outra irrompe um ataque de fúria contra tudo e todos. Por sinal, justamente para mantê-la motivada e calma, a Bibi agora conta com uma Neuropsicóloga, ou algo do gênero, que está trabalhando essa parte de aceitar a condição em que está sem se frustrar, para poder progredir melhor e passar menos nervosismo.

Mas ela também tem consciência de que isso não é bom. Por exemplo, se durante um episódio de nervosismo perguntamos “Bibi, o que você precisa fazer para que a gente consiga te entender?”, ela responde “Ficar calma”.

Mesmo assim o bom-humor não abandona a pequena. Ainda dá muita risada e adora uma palhaçada.

É difícil descrever linearmente as melhoras, pois são variadas, em muitas direções e sentidos e nem mesmo são constantes. Em alguns dias ela está melhor, mais comunicativa e em outros pior, menos disposta.

A garota também tem apresentado melhoras, embora mais modestas, na memória.

Consegue descrever se comeu ou não comeu no dia, se fez fisioterapia ou não, lembra dos nomes das pessoas e dos bichos melhor.

Ainda se confunde bastante na verdade, mas melhorou sim.

Vez ou outra esquece meu nome ou diz que somos amigos... Ossos do ofício!

A parte motora também está se afinando aos poucos. O controle das mãos está melhorando progressivamente, ficando mais controlado.

Da mesma forma, consegue utilizar bem melhor as expressões da face, franze nariz e sobrancelha, põe a língua para fora, sorri, faz bico, levanta a sobrancelha. E isso tudo resulta em expressões mais naturais, menos robotizadas. Cada dia mais bonitinha!

O que lamentavelmente continua ruim é a perna direita. Continua bem dobrada e um pouco rígida, apesar da rigidez ter diminuído.

Isso tem impedido alguns progressos importantes, como as terapias para voltar a andar.

Por isso, ela terá que passar por uma cirurgia na perna direita para tentar diminuir a rigidez e aproximá-la do normal e realizar essas terapias.

Já encontramos um ortopedista para fazer isso e ele irá avaliá-la em breve.

Aí sim, quem sabe, finalmente conseguiremos inscrevê-la no Lucy Montoro, que está em uma baita enrolação! É a esperança.

Acreditamos que a maioria dos progressos que a Bibi fez nesse último mês está relacionada ao desmame de uma medicação.

Assim que a medicação começou a ser retirada, ela imediatamente apresentou sinais de maior consciência, passou a falar mais e melhor e elaborar frases mais complexas.

Por isso, o médico responsável está estudando quais medicamentos realmente precisam ser mantidos, para que nenhum deles prejudique o progresso neurológico da baixinha.

São essas as novidades da vez.

Atualizo caso lembre de algo.

Mais em breve.

domingo, 18 de agosto de 2013

Bianca - Boletim 20

Antes de mais nada, preciso corrigir um grande equívoco cometido no boletim passado.

Esqueci de incluir aquela que, provavelmente, é a notícia mais legal entre as novidades recentes da Bibi.

A Bibi deu seus primeiros passos esses dias.

Estavam segurando a baixinha dos dois lados e sustentando boa parte do peso, mas ela já conseguiu coordenar minimamente o movimento de andar e sustentou parte do peso.

Os primeiros passos são assim mesmo. Temo certeza de que em breve ela vai estar andando sozinha!

Aliás, tem até um vídeo dela dando os primeiros passos:





A atividade se repetiu mais algumas vezes depois que esse vídeo foi gravado.

Mas nem tudo são flores. O inferno astral resolveu pegar a pequena guerreira de jeito esse ano!

Tudo começou com um mau humor na quarta-feira, 31 de julho.

Todos nós estranhamos isso, porque mesmo quando está cansada, a Bibi costuma manter o bom humor.

Nesse dia, foram várias as patadas!

Para vocês terem uma ideia, nós estavamos na sala e começou a tocar a música da novela:

"Vida, vida, vida
Que seja do jeito que for
Mar, amar, amor
Se a dor quer o mar dessa dor, ah!
Quero no meu peito repleto
De tudo que possa abraçar
Quero a sede e a fome eternas
De amar, e amar e amar"

Aí a baixinha começou a cantar uns pedaços e, então, resolvi perguntar "Você ouve essa música todo dia?".

Ela respondeu que sim e eu perguntei "Nossa, todo santo dia?".

E ela "QUAL O PROBLEMA?".

Isso é uma amostra do humor nas alturas que ela demonstrou na quarta-feira.

Logo que fui para casa, recebo uma ligação da Rita informando que tinha descoberto o motivo da irritação: 39 graus de febre.

No dia seguinte, o médico constatou uma infecção urinária, deu um antibiótico dose única que cobre uma série de bactérias e prescreveu mais alguns cuidados.

Só que a baixinha não melhorou, continuou bastante sonolenta e pouco ativa, além de ter feito um bexigloma (inchaço na barriga) por não conseguir urinar.

Na sexta-feira à noite, ela teve uma piora brusca, começou a ficar muito ofegante, a saturação dela (nível de oxigênio no sangue) também caiu significativamente, além de apresentar acúmulo de secreção nas via aéreas. O bexigloma também persistia e ela não conseguia urinar.

Então, preocupados, chamamos o Pronto Atendimento do Home Care, que enviou uma médica e um técnico de enfermagem para atendê-la.

Apesar dos esforços deles, a Bibi melhorou muito pouco e seguia praticamente com o mesmo quadro.

Então, no sábado de manhã, ela foi internada no Hospital São José.

A essa altura, ela já estava bem ofegante, ligada no oxigênio e nós, muito preocupados.

Bom, no hospital constataram, além da infecção urinária, uma pneumonia nos dois pulmões, desidratação, deficiência de sódio e uma pequena anemia.

A maior causa do mal estar foi, sem dúvidas, a pneumonia.

Mas, após 11 dias de internação e sendo muito bem cuidada, a Bibi saiu zerada do hospital.

E não foram só esses problemas que foram analisados.

Ela também fez uma série de exames, incluindo uma ressonância magnética e um vídeo degluteograma.

O vídeo degluteograma é um exame que analisa como está a deglutição da baixinha.

E ficou constatado que, embora ela mastigue bem, ainda está deglutindo mal.

Os médicos imaginam que, por conta disso, ela aspirou saliva ou algum alimento para o pulmão e acabou contraindo a pneumonia.

Por isso, teremos que ser mais cautelosos com a alimentação da pequena e redobrar a dedicação na alimentação e deglutição.

Por sorte, a pequena conseguiu ter alta na terça-feira, dia 13 de agosto, seu aniversário.

Não passou o aniversário inteiro em casa, mas passou uma parte.

E rolou até um bolinho e muitos presentes!

No final, ainda preparamos uma surpresa, um vídeo de depoimentos para ela:


A pequena disse que gostou bastante.

Agora ela tem vários brinquedos novos para estimular o seu raciocínio e coordenação motora. Demos um monte de coisas para ela e já começamos a praticar.

Acho que são essas as novidades.

Ela segue fazendo os tratamentos e progredindo de pouco em pouco.

Em breve, trago mais notícias.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Bianca - Boletim 19

Bom, pela primeira vez desde que comecei a narrar a trajetória da Bibi, atingimos mais de 2 meses sem boletins.

Esse absurdo se justifica pelas manifestações que rolaram em nosso país nas últimas semanas.

Estava tudo pronto para eu escrever mais um boletim. Mas, quem mandou a Bianca namorar um Socialista maluco?

Fiquei empolgado com o levante popular e dediquei o tempo que tive nesse período a ir para a rua, ler e escrever textos relacionados a isso.

Também não quis, naquele momento, desviar o foco do debate político.

Mas agora chega, né? Tá mais do que na hora de retomarmos o acompanhamento das peripécias de Bianca Pecorari!

Bom, vamos retomar de onde paramos: a Bibi voltou a falar!

E sendo bastante sincero, a fala dela variou bastante nesse meio tempo.

Em alguns momentos ela foi poliglota e falou até inglês e italiano e, em outros, mal conseguia falar “onomatopeia”, “paralelepípedo” ou “sassaricando”.

Tá, talvez eu tenha usado exemplos ruins. O que quero dizer é que, em certos momentos, é difícil entender o que ela está falando...

Mas ela já arrisca algumas frases, responde a perguntas sem opções e pede coisas.

Ainda não tá 100%. Ela não consegue falar várias frases seguidas e complexas. Não dá para ter uma mega conversa.

Mas já dá para ter pequenas conversas e isso é muito legal!

Às vezes ela dá umas travadas também e fica falando “não”, “não”, “não” ou “tá bom”, “tá bom”, “tá bom”. Nada que um prestenção não resolva...

Também tem dias em que ela simplesmente está com preguiça de falar e temos que ficar insistindo para ela se soltar.

O que tem ocorrido de mais legal nos últimos dias são respostas mais espontâneas e complexas.

No começo, ela sempre respondia o obvio, falava o básico.

Agora não. Agora ela já consegue dar algumas respostas surpreendentes, fazer algumas brincadeiras e até mesmo pedir para que parem de encher o saco dela (só para o Luca, é claro...).

Três exemplos básicos. Outro dia, mais um indivíduo que preferiu o anonimato resolveu enfiar o dedo no nariz da Bi. Ela prontamente respondeu “Você enfiou o dedo no meu nariz. Que nojento!”.

Em outra oportunidade, após uma série de perguntas, a baixinha deu uma baita suspirada. Quando perguntada sobre o motivo da suspirada, ela disse “muita pergunta”.

O terceiro exemplo foi quando eu perguntei “Bibi, o Panda (cão) é um folgado?” ela disse “sim”. Eu perguntei “porque ele é folgado?” e ela respondeu “porque ele deita em mim!”

E é a mais pura verdade... Puta cara folgado!

Só que a Bibi também tem seus momentos de meliante.

Por exemplo, vejam algumas perguntas e respostas da malandrinha no dia a dia:

Pergunta:“Bianca, quantos anos você tem?”
Resposta: “Doze”

Pergunta:“Bianca, em que ano você estava da faculdade?”
Resposta:“Segundo”

Pergunta:“Bianca, qual o nome da sua mãe?”
Resposta:“Ignez”

Quando todo mundo pensava que a coisa tava feia, que a menina tava variando completamente, eis que chega a primeira consulta no Lucy Montoro.

Bom, quando a pergunta veio dos médicos, valendo uma vaga para tratamento no Lucy, aí a baixinha tratou de responder que tem vinte e três anos, estava no quinto ano de Direito na PUC, que a mãe dela chama Rita, mora na Aclimação e até o telefone da casa dela (que jamais tinha sido perguntado após o acidente) ela soube dizer.

É amigos, treino é treino e jogo é jogo!!

O que achamos é que ela está muitíssimo de saco cheio dessa enxurrada de perguntas bestas todos os dias e responde qualquer porcaria.

Até por isso, estamos tentando variar o que perguntamos e como perguntamos. Desde assuntos mais complexos até coisas do dia dela.

E ela tem muita preguiça de pensar também. Acho que é preciso recondicionar o cérebro dela a pensar o tempo todo.

Por exemplo, quando perguntamos “Bianca, o que você comeu hoje?”, ela normalmente dá qualquer resposta (quase sempre diz que foi chocolate).

Mas quando insistimos e pedimos para que ela pense bem (quase nunca foi chocolate...), aí a malandrinha lembra o que comeu...

É isso mesmo pessoal. Com a Bibi, se não ficarmos espertos, rola dissimulação 24 horas por dia. E o pior é que ela ainda ri na tua cara!

Bom, resumidamente, a Bibi está falando de tudo. Até trava línguas ela tem conseguido fazer (“o rato roeu a roupa...”, “três pratos de trigo...”).

Ela ainda enfrenta um pouco de dificuldades quando quer falar algo totalmente espontâneo. Muitas vezes o som sai ruim ou ela confunde um pouco as palavras. Mas, com paciência, dá para decifrar.

A pequena também sofre um pouco para falar frases mais longas.

Mas, além do português, ela compreende perfeitamente e fala razoavelmente bem tanto o inglês quanto o italiano.

O progresso na fala tem sido muito grande. Para quem ficou um ano sem falar, o fato de estar falando bastante após apenas dois meses de retomada dessa habilidade é bem legal!

Mas não temos notícias apenas na fala.

A Bibi apresentou progressos em vários outros setores também.

O controle dela da cabeça está muito melhor.

Também readquiriu boa parte do controle das costas. Consegue erguer o tronco da cadeira, ficar na ponta da cadeira e se movimentar um pouco lateralmente.

Outro dia ela conseguiu se sentar (estava deitada) com uma mínima ajuda minha. Ganhou até uma salva de palmas!

A perna direita também está esticando bem mais após a aplicação do botox e tem respondido bem à colocação da órtese.

A pequena também está com controle total da língua e comendo diariamente.

O braço direito está muito bem coordenado. Ela já consegue realizar alguns movimentos precisos com ele.

Já o braço esquerdo, que era totalmente frenético, agora é apenas parcialmente frenético.

Ela já consegue utilizá-lo para segurar objetos, colocá-lo onde quer e até mesmo movimentar cada um dos dedos individualmente (o que antes era impossível).

Temos feito alguns exercícios de precisão com os braços e ela tem se saído bem.

A baixinha também está bem mais carinhosa, faz cafuné o tempo todo, pede beijinho e outro dia até jogou a cabeça no meu ombro e disse que queria ficar apoiada!

Outra novidade bem legal diz respeito aos olhos.

A oftalmologista foi visitá-la e constatou que ela está enxergando bem e lendo com os dois olhos.

Pasmem, a pequena notável enxerga melhor com o olho cuja pupila não dilata.

Além disso, quanto à vista, a perspectiva é de que, mesmo que fique algum problema no olho, isso não prejudicará a visão da Bibi.

Existe a possibilidade de ocorrerem três problemas:

1- a pálpebra do olho direito dela ficar baixa, ou seja, abrir menos que a do esquerdo. Isso é corrigível cirurgicamente.

2- o olho direito não virar para a direita nem para cima, ficando apenas no centro e virando para a esquerda e para baixo. Isso é pouco preocupante, pois o outro olho funciona perfeitamente e basta uma rotação de pescoço para que ela enxergue perfeitamente.

3- A pupila dela não contrair mais naturalmente.

Bom, quanto ao terceiro ponto, mais uma vez, a baixinha surpreendeu.

A médica que atendeu ela prescreveu um colírio que é capaz de contrair artificialmente a pupila apenas e tão somente se ainda existisse algum resquício de nervo ótico. Caso o nervo tivesse rompido completamente, o colírio não iria funcionar.

Além disso, a médica alertou que deveríamos iniciar na dose mínima, de uma gota ao dia. Caso a pupila não contraísse, poderíamos subir a dose até, no máximo, quatro gotas por dia.

Caso não funcionasse com quatro gotas, então a ruptura do nervo teria sido total.

A médica fez questão de frisar que o colírio apenas iria contrair a pupila dela artificialmente, mas que era muito improvável que a pupila se recupere e o colírio não iria ajudar nessa tarefa.

Bom, logo no primeiro teste, bastou uma gota para que a pupila da Bibi ficasse do tamanho de uma cabeça de alfinete!

Diante disso, a médica recomendou que diluíssemos o colírio, para que o efeito fosse mais moderado. Ou seja, na prática, ela deixará de utilizar uma gota ao dia e passará a utilizar meia gota.

Isso também é sinal de que a enervação dela está bastante preservada e, diante disso, a médica disse que há sim chances de que a pupila se recupere!

A baixinha é dura na queda. Tem muito médico que está tendo de repensar antes de fazer o primeiro prognóstico!

Outra novidade legal é que a Bibi está saindo mais de casa e se comportando melhor na rua.

No dia 9 de julho, feriado, fizemos uma feijoada na casa da minha mãe, em Campinas, e ela compareceu com toda a família.

É claro que precisamos levar toda a parafernalha, enfermeira, fraldas, dietas, medicamentos e tomar todo o cuidado com a pequena.

Mas valeu muito a pena recebê-la em casa. É algo que ela já vinha comentando há algum tempo e penso que ela ficou bem feliz.

Além disso, ela viu novamente várias pessoas que não via há certo tempo e todas, sem exceção, ficaram impressionados com a melhora significativa dos últimos meses!

A baixinha também segue firme e forte na triagem do Lucy Montoro.

Passou com sucesso por duas etapas e está aguardando o agendamento da terceira.

Ao que tudo indica, ela deve começar fazendo um tratamento semanal lá e aos poucos vai aumentando.

Mas estamos torcendo para que seja possível começar fazendo mais coisas.

Também estamos iniciando os preparativos para inscrevê-la na AACD, que também oferece tratamento.

Acho que além do tratamento, vai ser legal para a Bi entrar aos poucos em contato com outras pessoas em situação similar, ficará mais fácil dimensionar todo o progresso que ela já fez e o potencial que ela ainda tem.

Aliás, o próprio fisiatra falou que quando ela adquirir total percepção do seu estado, ficará muito mais fácil para se reabilitar, já que ela oferecerá auxílio consciente para trabalhar as limitações.

Ontem pela manhã fui visitá-la e conversei com ela mais uma vez sobre o acidente. Aí, no final, perguntei “o que aconteceu então?”. Ela respondeu “Eu bati o carro.”.

Acho que aos poucos ela está absorvendo tudo.

Aí eu expliquei também quais os problemas e limitações que ela ainda tem, além de falar sobre tudo que já tinha melhorado e pedi para ela nos ajudar a melhorar o que falta.

Perguntei se ela confiava que iria ficar boa e JURO que ela respondeu “Pode deixar comigo”. Otimismo emocionante!

Ainda assim sabemos que é preciso reforçar isso com ela com frequência, pois a memória recente dela ainda não está muito boa.

Por sinal, os médicos tem salientado que é importante que ela readquira percepção do tempo e saiba dizer o dia, mês e ano.

De qualquer forma, no final da nossa conversa, perguntei qual era o lado bom de tudo isso que tinha acontecido.

Aí ela falou “Não sei” – preguiçaaaa...

Pedi para pensar bem e aí veio a resposta “Eu to bem”. Aí ganhou um 10, né!

Pessoal, são essas as muitas novidades recentes da Bibi. Como sempre, estou à disposição se alguém tiver dúvidas ou quiser dizer alguma coisa.

Também como sempre, devo ter esquecido alguma coisa...

Reforço que é importante para ela as visitas e o carinho de todos.

Por falar nisso, reproduzo aqui o que já escrevi no Facebook, sobre a surpresa que eu e algumas amigas dela da PUC estamos planejando para o aniversário dela:

“Amigos,
No dia 13 de agosto é aniversário da Bianca e gostaríamos de fazer uma surpresa para a baixinha.
Nossa ideia é fazer um vídeo de recados para motivar e estimular a pequena.
Portanto, se você quiser participar, nos envie um vídeo de no máximo 45 segundos mandando o seu recado para a Bibi até o dia 3 de agosto!
O vídeo deverá ser enviado por inbox para Iuri Reis, Ana Dorea, Renata Veit, Mariana Abreu ou Mayra Cardi.
Atenção, como a ideia é estimular a Bibi, pedimos que, no vídeo, a pessoa diga seu nome, de onde conhece a Bianca e escolha algum momento especial que tenham passado com a Bibi para relatar brevemente no vídeo.
Tudo isso sem deixar de lado,, é claro, uma calorosa mensagem de feliz aniversário!

Tivemos essa ideia porque pensamos que pode ajudar a Bibi em sua recuperação e fazer com que ela sinta de maneira mais clara todo o amor e apoio que as pessoas estão lhe transmitindo.
Por isso, não importa se você é ou não tão próximo da Bi. Se você acompanha e se envolveu com a trajetória dessa pequena, por favor, mande sua mensagem dizendo isso a ela. Temos certeza de que cada recado será importante para ela.
Aguardamos seu vídeo!
Beijos e abraços”

Peço a todos que possam e queiram participar, que não deixem de mandar seu vídeo até o dia 3. Tenho certeza de que a Bibi vai adorar e será bastante estimulada por essa ideia que as amigas dela da PUC tiveram e eu só estou auxiliando.

E esse é o fim de mais um boletim.

Prometo não demorar tanto até o próximo!

segunda-feira, 24 de junho de 2013

A direita também disputa ruas e urnas (Valter Pomar)

Compartilho abaixo o texto escrito por Valter Pomar, dirigente do PT.
 
O texto me agrada muito, pois revela o posicionamento crítico aos erros do PT, inclusive às medidas neoliberais (como priorizar lucros de banqueiros e empresários), às alianças com a direita e ao abandono à esqueda.
 
É bom saber que existem petistas críticos ao modelo adotado e clamando por mudanças, à esquerda.
 
Não se trata de uma certeza de que o partido fará a reestruturação (não só ideológica, mas também moral e ética) de que tanto precisa.
 
Trata-se da constatação de que existem pessoas fortes internamente fazendo essas críticas e apontando que o caminho é à esquerda.
 
Portanto, isso redobra a responsabilidade do partido, que só não mudará se não quiser, pois possui ciência, inclusive interna, de seus erros. Acesso não lhe falta a seus erros.
 
A hora é agora. Ou o PT muda ou se prepa para a resposta negativa nas ruas e nas urnas.
 
E, se resolver se enveredar ainda mais à direita, aí sim será surrado pela mídia e oposição direitista como o primo pobre e oportunista!
 
E a esquerda seguirá se contrapondo.
 
A única saída é e sempre fui uma só: Girar à Esquerda.
 
Não há mais espaço para erros. Dez anos já se passaram!
 
E segue o texto:
 
por Valter Pomar
 
Quem militou ou estudou os acontecimentos anteriores ao golpe de 1964 sabe muito bem que a direita é capaz de combinar todas as formas de luta. Conhece, também, a diferença entre “organizações sociais” e “movimentos sociais”, sendo que os movimentos muitas vezes podem ser explosivos e espontâneos.
 
Já a geração que cresceu com o Partido dos Trabalhadores acostumou-se a outra situação. Nos anos 1980 e 1990, a esquerda ganhava nas ruas, enquanto a direita vencia nas urnas. E a partir de 2002, a esquerda passou a ganhar nas urnas, chegando muitas vezes a deixar as ruas para a oposição de esquerda.
 
A direita, no dizer de alguns, estaria “sem programa”, “sem rumo”, controlando “apenas” o PIG, que já não seria mais capaz de controlar a “opinião pública”, apenas a “opinião publicada”.
 
Era como se tivéssemos todo o tempo do mundo para resolver os problemas que vinham se acumulando: alterações geracionais e sociológicas, crescimento do conservadorismo ideológico, crescente perda de vínculos entre a esquerda e as massas, ampliação do descontentamento com ações (e com falta de ações) por parte dos nossos governos, decaimento do PT à vala comum dos partidos tradicionais etc.
 
Apesar destes problemas, o discurso dominante na esquerda brasileira era, até ontem, de dois tipos.
 
Por um lado, no petismo e aliados, o contentamento com nossas realizações passadas e presentes, acompanhada do reconhecimento mais ou menos ritual de que “precisamos mais” e de que “precisamos mudar práticas”.
 
Por outro lado, na esquerda oposicionista (PSOL, PSTU e outros), a crítica aos limites do petismo, acompanhada da crença de que através da luta política e social, seria possível derrotar o PT e, no lugar, colocar uma “esquerda mais de esquerda”.
 
As manifestações populares ocorridas nos últimos dias, especialmente as de ontem, atropelaram estas e outras interpretações.
 
Primeiro, reafirmaram que os movimentos sociais existem, mas que eles podem ser espontâneos. E que alguns autoproclamados “movimentos sociais”, assim como muitos partidos “populares”, não conseguem reunir, nem tampouco dirigir, uma mínima fração das centenas de milhares de pessoas dispostas a sair ás ruas, para manifestar-se.
 
Em segundo lugar, mostraram que a direita sabe disputar as ruas, como parte de uma estratégia que hoje ainda pretende nos derrotar nas urnas. Mas que sempre pode evoluir em outras direções.
 
Frente a esta nova situação, qual deve ser a atitude do conjunto da esquerda brasileira, especialmente a nossa, que somos do Partido dos Trabalhadores?
 
Em primeiro lugar, não confundir focinho de porco com tomada. As manifestações das últimas semanas não são “de direita” ou "fascistas". Se isto fosse verdade, estaríamos realmente em péssimos lençóis.
 
As manifestações (ainda) são expressão de uma insatisfação social difusa e profunda, especialmente da juventude urbana. Não são predominantemente manifestações da chamada classe média conservadora, tampouco são manifestações da classe trabalhadora clássica.
 
A forma das manifestações corresponde a esta base social e geracional: são como um mural do facebook, onde cada qual posta o que quer. E tem todos os limites políticos e organizativos de uma geração que cresceu num momento "estranho" da história do Brasil, em que a classe dominante continua hegemonizando a sociedade, enquanto a esquerda aparentemente hegemoniza a política.
 
A insatisfação expressa pelas manifestações tem dois focos: as políticas públicas e o sistema político.
 
As políticas públicas demandadas coincidem com o programa histórico do PT e da esquerda. E a crítica ao sistema político dialoga com os motivos pelos quais defendemos a reforma política.
 
Por isto, muita gente no PT e na esquerda acreditava que seria fácil aproximar-se, participar e disputar a manifestação. Alguns, até, sonhavam em dirigir.
 
Acontece que, por sermos o principal partido do país, por conta da ação do consórcio direita/mídia, pelos erros politicos acumulados ao longo dos últimos dez anos, o PT se converteu para muitos em símbolo principal do sistema político condenado pelas manifestações.
 
Esta condição foi reforçada, nos últimos dias, pela atitude desastrosa de duas lideranças do PT: o ministro da Justiça, Cardozo, que ofereceu a ajuda de tropas federais para o governador tucano “lidar” com as manifestações; e o prefeito Haddad, que nem na entrada nem na saída teve o bom senso de diferenciar-se do governador.
 
O foco no PT, aliado ao caráter progressista das demandas por políticas públicas, fez com que parte da oposição de esquerda acreditasse que seria possível cavalgar as manifestações. Ledo engano.
 
Como vimos, a rejeição ao PT se estendeu ao conjunto dos partidos e organizações da esquerda político-social. Mostrando a ilusão dos que pensam que, através da luta social (ou da disputa eleitoral) seriam capazes de derrotar o PT e colocar algo mais à esquerda no lugar.
 
A verdade é que ou o PT se recicla, gira à esquerda, aprofunda as mudanças no país; ou toda a esquerda será atraída ao fundo. E isto inclui os que saíram do PT, e também os que nos últimos anos flertaram abertamente com o discurso anti-partido e com certo nacionalismo. Vale lembrar que a tentativa de impedir a presença de bandeiras partidárias em mobilizações sociais não começou agora.
 
O rechaço ao sistema político, à corrupção, aos partidos em geral e ao PT em particular não significa, entretanto, que as manifestações sejam da direita. Significa algo ao mesmo tempo melhor e pior: o senso comum saiu às ruas. O que inclui certo uso que vem sendo dado nas manifestações aos símbolos nacionais.
 
Este senso comum, construído ao longo dos últimos anos, em parte por omissão e em parte por ação nossa, abre enorme espaço para a direita. Mas, ao mesmo tempo, à medida que este senso comum participa abertamente da disputa política, criam-se condições melhores para que possamos disputá-lo.
 
Hoje, o consórcio direita/mídia está ganhando a disputa pelo pauta das manifestações. Além disso, há uma operação articulada de participação da direita, seja através da presença de manifestantes, seja através da difusão de determinadas palavras de ordem, seja através da ação de grupos paramilitares.
 
Mas a direita tem dificuldades para ser consequente nesta disputa. O sistema político brasileiro é controlado pela direita, não pela esquerda. E as bandeiras sociais que aparecem nas manifestações exigem, pelo menos, uma grande reforma tributária, além de menos dinheiro público para banqueiros e grandes empresários.
 
É por isto que a direita tem pressa em mudar a pauta das manifestações, em direção a Dilma e ao PT. O problema é que esta politização de direita pode esvaziar o caráter espontâneo e a legitimidade do movimento; além de produzir um efeito convocatória sobre as bases sociais do lulismo, do petismo e da esquerda brasileira.
 
Por isto, é fundamental que o PT e o conjunto da esquerda disputem o espaço das ruas, e disputem corações e mentes dos manifestantes e dos setores sociais por eles representados. Não podemos abandonar as ruas, não podemos deixar de disputar estes setores.
 
Para vencer esta disputa teremos que combinar ação de governo, ação militante na rua, comunicação de massas e reconstruir a unidade da esquerda.
 
A premissa, claro, é que nossos governos adotem medidas imediatas que respondam às demandas reais por mais e melhores políticas públicas. Sem isto, não teremos a menor chance de vencer.
 
Não basta dizer o que já fizemos. É preciso dar conta do que falta fazer. E, principalmente, explicar didaticamente, politicamente, as ações do governo. Marcando a diferença programática, simbólica, política, entre a ação de governo de nosso partido e os demais.
 
O anúncio conjunto (Alckmin/Haddad) de redução da tarifa e a oferta da força pública feita por Cardozo a Alckmin são exemplos do que não pode se repetir. Para não falar das atitudes conservadoras contra os povos indígenas, da atitude complacente com setores conservadores e de direita, dos argumentos errados que alguns adotam para defender as obras da Copa e as hidroelétricas etc.
 
Para dialogar com o sentimento difuso de insatisfação revelado pelas mobilizações, não bastam medidas de governo. Talvez tenha chegado a hora, como algumas pessoas têm sugerido, de divulgarmos uma nova “carta aos brasileiros e brasileiras”. Só que desta vez, uma carta em favor das reformas de base, das reformas estruturais.
 
Quanto a nossa ação de rua, devemos ter presença organizada e massiva nas manifestações que venham a ocorrer. Isto significa milhares de militantes de esquerda, com um adequado serviço de ordem, para proteger nossa militância dos para-militares da direita.
 
É preciso diferenciar as manifestações de massa das ações que a direita faz dentro dos atos de massa. E a depender da evolução da conjuntura, nos caberá convocar grandes atos próprios da esquerda político-social.

Independente da forma, o fundamental, como já dissemos, que a esquerda não perca a batalha pelas ruas.
 
Quanto a batalha da comunicação, novamente cabe ao governo um papel insubstituível. No atual estágio de mobilização e conflito, não basta contratacar a direita nas redes sociais; é preciso enfrentar a narrativa dos monopólios nas televisões e rádios. O governo precisa entender que sua postura frente ao tema precisa ser alterada já.
 
Em resumo: trata-se de combinar ruas e urnas, mudando a estratégia e a conduta geral do PT e da
esquerda.
 
Não há como deslocar a correlação de forças no país, sem luta social. A direita sabe disto tanto quanto nós. A direita quer ocupar as ruas. Não podemos permitir isto. E, ao mesmo tempo, não podemos deixar de mobilizar.

Se não tivermos êxito nesta operação, perderemos a batalha das ruas hoje e a das urnas ano que vem. Mas, se tivermos êxito, poderemos colher aquilo que o direitista Reinaldo Azevedo aponta como risco (para a direita) num texto divulgado recentemente por ele, cujo primeiro parágrafo afirma o seguinte: "o movimento que está nas ruas provocará uma reciclagem do PT pela esquerda, poderá tornar o resultado das urnas ainda mais inóspito para a direita".

Num resumo: a saída para esta situação existe. Pela esquerda.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

MPL e o primeiro grande erro!

Era para eu falar de Democracia Direta, que continua sendo minha pauta principal.

O momento de falar disso vai chegar.

Mas a hora é de escrever sobre algo que muito me preocupa.

Como a maioria viu em algum veículo de comunicação, o Movimento Passe Livre (MPL) de São Paulo se retirou da liderança das manifestações que vêm ocorrendo em todo o Brasil.

Alegam que o objetivo, que era a redução das passagens, foi atingido e não faz sentido continuar utilizando esse instrumento de protesto, mas que continuarão o trabalho de outras formas.

Há também o discurso extraoficial: a mobilização nacional ganha ares de Nacionalismo e extrema direita e o intuito é esvaziá-las e desmobiliza-las.

Não tenho o direito de julgar ou condenar ninguém, apenas exprimo minha opinião.

E minha opinião é que isso é um erro, talvez o primeiro grande erro do MPL.

Exporei os três principais motivos (em ordem decrescente de importância) pelos quais considero isso um grande erro e faço votos para estar equivocado.

1 – CAMINHO LIVRE PARA A DIREITA

Não é segredo para ninguém que os partidos políticos e alguns movimentos sociais estão enfrentando grande dificuldade em penetrar a fundo nas manifestações.

Em parte porque a população, muito insatisfeita com a classe política, coloca todos no mesmo barco e, então, rejeitam qualquer partido, sem fazer qualquer distinção.

Outro motivo é que uma minoria autoritária, intolerante, facista e de extrema-direita já se infiltrou na mobilização, principalmente entre os nacionalistas “sem causa” e usam desse expediente para se fingir de apolíticos e agredirem os partidos que comparecem institucionalizados.

Pois bem. Nesse contexto, talvez até fizesse sentido recuar e esvaziar o risco iminente de estar alimentando discursos de extrema direita.

O grande problema é que essa manobra passa por uma premissa equivocada.

A premissa de que, como o MPL articulou tudo isso, recuando, será capaz de desarticular.

Isso não necessariamente é verdade. Aliás, provavelmente não é verdade.

Uma boa lição sobre isso está contida no filme “A Onda”.

Não existe dono de uma mobilização de massa. Uma vez que as pessoas se mobilizam, o simples recuar do líder ou do mentor não garante a articulação.

Pelo contrário, garante apenas que se abra caminho para que novas lideranças surjam e se apropriem da movimentação iniciada.

E nesse contexto é que a atitude do MPL abre o caminho para a Direita.

A Direita está lá, infiltrada, inflamando a população contra os partidos, trazendo os valores nacionalistas, erguendo os símbolos golpistas.

Não se pode ignorar que grande parte dos manifestantes são pouco politizados e simplesmente estão insatisfeitos, mas não tem a noção precisa de para onde mirar seus canhões.

Essas pessoas tem orgulho de ser brasileiros e tem uma bandeira do Brasil em casa. É com esse espírito que saem as ruas.

São um prato cheio para direcioná-los em favor dos levantes de extrema Direita.

Os partidos não têm conseguido dialogar com essa massa justamente pela insatisfação com a classe política como um todo.

O MPL conseguia. Tanto que manteve, por ao menos 6 manifestações, o foco em um levante puramente esquerdista: O barateamento do serviço público.

Construção de mobilização social traz responsabilidades imensas.

Sair de cena e achar que isso, por si só, conterá a mobilização é uma ilusão e uma irresponsabilidade, pois abre as portas para que se tome o rumo errado, muito errado.

Principalmente nesse contexto em que os partidos vêm encontrando tantas dificuldades.

Até porque, vale lembrar que temos um partido de "esquerda" no poder. E, aos olhos de muitos dos cidadãos comuns, o PT é o grande problema de suas vidas.

Estes, em geral, fazem pouca distinção entre o PT e os demais partidos de esquerda (esse texto explica isso http://migre.me/f8rXv). Por isso as dificuldades encontradas pelos partidos.

O que se verifica é uma escalada do discurso da classe média de que "chega de ditadura do PT" e "eu sustento esse país".

O caminho está aberto para construções perigosíssimas!! E o MPL tinha, até então, conseguido manter a imensa maioria focada em um projeto de esquerda.

Poderia continuar lutando por projetos de esquerda. É preciso encarar a realidade.

O país está mobilizados e pautas existirão, queiramos ou não. Ora, então lutemos para que sejam pautas sociais, voltadas efetivamente para melhoria da vida da população!

Ao invés disso, estamos abrindo mão dessa construção e deixando-a à mercê dos ultra conservadores!

Uma manobra perigosíssima.

Pode até ser que, de fato, as mobilizações se desarticulem, mas presumir isso é no mínimo arriscadíssimo.

E sem MPL, se as manifestações continuarem, não caberá mais discutir se queremos ou não partidos, pois passaremos a precisar deles.

E muito!

Por fim, espero que ninguém mais de esquerda, incluindo partidos e movimentos sociais, se desmobilize, senão tudo o que está acontecendo poderá terminar em tragédia.



2 – INSENSIBILIDADE SOCIAL

O MPL pregou por anos e anos que não só queria reduzir as tarifas, mas transporte público gratuito.

Essa é uma pauta tradicionalmente de esquerda.

Como são muitas outras. Por exemplo, livre acesso gratuito a serviços públicos de qualidade, estatização de serviços e da produção, mais direitos aos trabalhadores, maior participação da população nas tomadas de decisões, redistribuição de terras, democratização dos meios de comunicação, além de muitas outras.

É compreensível que o MPL queira manter o foco, pois só assim se obtém vitórias significativas.

E foi justamente o foco que trouxe a vitória.

Mas isso não muda em nada as estruturas do país. Apenas adia para o ano que vem nova discussão sobre o preço do ônibus, que continua sendo pago (e muito caro).

A mais valia continua sendo explorada, os serviços públicos continuam péssimos e privatizados, latifundiários continuam explorando o campo como querem...

É inegável, inquestionável, indiscutível que as manifestações tomaram proporção muito maior do que o aumento das passagens.

Foi criada a chance de realmente se propor e discutir reformas e mudanças efetivas em nosso país.

Só que, ao se obter a primeira vitória, que nada muda estruturalmente, recua-se.

Soa como insensibilidade com as pessoas que, apesar de poderem continuar pagando o mesmo preço nos ônibus, continuam com péssimos salários, sem acesso à saúde, educação...

Porque não utilizar a mobilização nacional para se discutir causas mais profundas e efetivamente reestruturarmos injustiças sociais?

E ninguém melhor para conduzir essas propostas do que um movimento consolidado e solidificado, acostumado com as movimentações de rua e com amplo crédito entre os manifestantes.

O MPL está jogando fora a chance de mobilizar pessoas em favor de causas nobres. Pois grande parte da massa de manifestantes os ouve e respeita!

E aqui entra um divisor de águas quanto aos objetivos dos integrantes do MPL.

Me desculpem, pois sei que não é, em absoluto, essa a intenção dos integrantes do MPL.

Mas recuar agora é reforçar o discurso inicial de Veja, Folha de São Paulo e, principalmente, Arnaldo Jabor de que quem promove tudo isso são pessoas de classe média pouco afetadas pelo resultado final das manifestações.

Afinal, há que se raciocinar que, o indivíduo que efetivamente necessita de mudanças estruturais em nossa sociedade, por ser explorado e esmagado todos os dias, sobrevivendo, nem sequer tem o direito de recuar.

Essa é a chance de uma vida melhor.

E o esquerdista responsável e solidário às causas dos mais pobres precisa se colocar nessa condição.

Ter em mãos uma mobilização nacional e simplesmente recuar não deveria, em hipótese alguma, ser uma opção.

Ter a chance de mudar a vida de pessoas que passam fome, são exploradas e discriminadas e simplesmente se dar por satisfeito com o preço da passagem de ônibus é incoerente com os sonhos de esquerda de um país melhor.

Até porque, o próprio MPL diz que, independentemente de qualquer outro engajamento, sua luta é pelo Passe Livre.

Ora, levar 100 mil pessoas às ruas e desistir do seu principal objetivo? Se contentar com a mera revogação do aumento?

O povo está apoiando a causa, está de olho no lucro dos empresários, sabe que inflação não impacta diretamente o custo do transporte e etc... (falei disso tudo em outro texto http://migre.me/f88bf).

Se o MPL, quando era um movimento pequeno, nunca desistiu, porque recuar agora de seu principal objetivo, com toda a população apoiando?

Pelo menos a luta pelo Passe Livre, cuja viabilidade foi escancarada para a população, deveria continuar igual, por meio de manifestações.

É na rua que se constrói democracia popular e direta.

O resto é burocratizar os movimentos sociais!

3 – CARA DE ACORDO POLÍTICO-PARTIDÁRIO

Esse último ponto está no final porque é pouco relevante e não condiz com minha opinião.

Mas é impossível negar que. da maneira como tudo acabou, ficou parecendo que a redução do preço das passagens e consequente recuo do MPL não passaram de um acordo político-partidário.

Existe no ar uma sensação de que Haddad e Alckimin condicionaram a redução das passagens ao fim das convocações.

E aí a 7ª convocação não só não podia ser desconvocada como também serviria para mascarar os termos desse acordo.

Sendo verdade ou não (e eu até acredito que não seja), o simples fato de parecer ser isso - principalmente diante de uma chance tão grande de se mobilizar nosso país por grandes causas, de trazê-lo um pouco mais para a esquerda – só tira a credibilidade dos importantíssimos e nobríssimos Movimentos Sociais.

Em outros momentos, provavelmente esse tipo de acordo não teria nada demais e seria absolutamente corriqueiro, pois faz parte da obtenção de vitórias.

Mas agora, diante de tudo o que ocorreu, de tamanha mobilização, de tantas causas importantes que podem ser debatidas? Não dá achar que eventual acordo seja normal e corriqueiro.

Continuo respeitando, admirando e acreditando no MPL. Seguirei apoiando suas causas em mobilizações futuras.

Mesmo assim, penso que essa recuada é um tremendo erro.

A chance de construir novos rumos (Gabriel Reis)

por Gabriel Reis
Tem alguma coisa acontecendo, e uma coisa muito séria.


De repente, vem um sentimento inexplicável, uma vontade incrível de estar na universidade, debatendo com professores e amigos, de ir trabalhar, para discutir com chefes e colegas, uma vontade de ir pra rua, conhecer pessoas com uma realidade totalmente discrepante para simplesmente discutir a situação e as aspirações da nossa Nação.

O brasileiro tem características peculiares. De um lado, a total descrença dos desconfiados. "Isso não vai dar em nada!" "Falam que não são só 20 centavos, mas é só abaixar que ninguém mais sai de casa!" "De que adianta protestar, se eles vão ficar rindo da nossa cara e nada vai mudar?"

Tenham certeza:

Vocês, céticos, ficarão para trás.

Vocês, elitizados conservadores, que refutam qualquer forma de mudança para que não se altere a sua posição, ficarão para trás.

Vocês, políticos arrogantes, que se escondem atrás de votos irresponsáveis, que lhes permitiram um mandato corrupto, com políticas individualistas, também ficarão para trás.

Eu não tenho a mínima ideia do que vai acontecer. É isso que me faz querer estar na rua, dialogando, entendendo a mentalidade comum, e traçando os novos rumos desse país.

As mudanças não vêm de agora. Há décadas eu ouço dos movimentos sociais do passado, liderados por uma juventude lutadora que não aceitou um regime antidemocrático e o derrubou. Ouço histórias das baixas que a família sofreu, lutando por uma liberdade impossível. Para os que morreram na ditadura, "os tempos nunca mudaram, a democracia nunca se estabeleceu". É claro que não! Eles morreram com a certeza de que deram mais um passo rumo à democracia.

Depois disso, lutamos pelo direito de voto igualitário, e novamente as ruas foram tomadas por uma juventude inconformada. E se estabeleceu um governo comprovadamente insustentável por tanta corrupção, e novamente as ruas se viram lotadas de jovens revoltados com a injustiça que se impunha a eles.

E de repente, esse jovens sumiram!

Eles não morreram.

A idade veio, eles envelheceram.

 Seus sucessores não viveram ditadura. Não viveram a inflação estratosférica. Não viveram a sucessão Ditadores - Sarney - Collor. Portanto, quando se inseriram na sociedade, reelegeram Sarney, reelegeram Collor. Viram a corrupção gritante dos governos FHC e PT, e tudo o que se ouviu foram gritos isolados. Afinal, as injustiças de outrora já não existiam. O medo, o desespero de se estar inserido em um sistema insustentável já não penetrava o coração do estudante brasileiro.

Eu participei do movimento estudantil da minha escola. Fui às ruas efetivar o movimento FORA SARNEY. Votei em inúmeros candidatos diferentes, na esperança de, por um lapso, todos votarem na alternativa, não no comodismo, e o cenário político brasileiro se transformar.

É claro que eu não fui sozinho! Mas nós simplesmente não fomos acompanhados. Os mesmos céticos de agora, a minha vida inteira foram céticos com todas as manifestações que tentei aderir. Que frearam o Movimento Estudantil na minha universidade. Que absolutamente não acreditam em mudança pelo simples fato de não acreditar.

Os velhos, veteranos de guerra, olham com desdém e falam que "A luta já não é mais a mesma". Isso é ridículo!

Os antigos céticos reacionários são os políticos de hoje. Os antigos revoltados se corromperam, pois foram continuar suas lutas escondidos em partidos políticos, com a hipócrita mentalidade de que "os fins justificam os meios", se esquecem dos "fins", nunca superam ou reparam os "meios".

Eu vi uma publicação do Sr. Plínio de Arruda Sampaio refutando os gritos para que se baixem as bandeiras partidárias, e para que se levante a única bandeira que une a todos. Fiquei envergonhado.
Não ignoro ou menosprezo o papel fundamental que alguns partidos já exerceram na história política do Brasil. Mas esse momento é único! E nós não queremos que seja uma vitrine... Não queremos que se faça propaganda. Que haja destaque partidário pela participação na passeata. É claro que o movimento prega pela liberdade de expressão, então cada um levanta a bandeira que quer, grita o que quer! Mas esse é o movimento do POVO BRASILEIRO, queremos destaque pra essa bandeira, e que os partidos políticos mostrem que vale a pena quando esse momento for superado, e a política se reinventar no Brasil. A descrença sobre vocês - sobre CADA UM DE VOCÊS, partidos e políticos que já cometeram qualquer irregularidade na nossa política - ainda é muito forte.

A luta é do POVO. E é isso que me traz aquele sentimento citado no início do texto. A pele arrepia, o olho transborda: Pela primeira vez na vida, a minha geração está fazendo a diferença! "Jogaram Mentos na geração Coca-cola". Acontece que somos TÃO MIMADOS, mas TÃO MIMADOS, que aquela parcela, que não estava NEM AÍ pro que estava acontecendo, que a vida inteira não esteve NEM AÍ pra nada, olhou o que aconteceu na última quinta-feira e pensou "Eu não sei porque estão gritando... Eu não sei o que estão gritando, eu não quero gritar junto. Mas esses policiais, com bombas de gás e balas de borracha estão me dizendo que EU NÃO POSSO GRITAR? aaaaaaaaaaaaaah... Agora eu vou gritar!"

E esse é o grande mérito dessa manifestação, da nossa geração: Todas as nossas liberdades e direitos nos são tirados diariamente, indiretamente. Quando uma parcela mínima das nossas liberdades e direitos nos são declarada e gritantemente privadas... Os mimados acomodados vão às ruas.

E gritam, e causam. E o governo teme. E o governo cede. E finalmente, chegamos a um divisor de águas: Paramos por aí, ou queremos muito mais? É claro que queremos muito mais! Se o governo está com medo e está recuando, nossa efetividade está evidenciada! Temos o Poder, vamos exercê-lo!!!

Eu participei da manifestação em Araraquara. Interrompemos uma sessão da câmara, eles nos deram voz, nós não demos voz a eles, não existiu diálogo concreto.

Apesar da fala dos vereadores, os manifestantes saíram de lá sem ouvir uma palavra.

Não é assim que se muda as coisas. Os políticos que perceberam que as mudanças estão acontecendo, vão se adaptar, mudar junto e melhorar as coisas. Os que se apegarem à sua ilusão de poder intocável, ficarão para trás.

Hoje vou para São Paulo, efetivar essa luta na maior cidade do país.

Senhores Políticos: Nossas exigências são claras. Nossas exigências são possíveis. Nossas exigências requerem esforços.

ATENDAM às nossas exigências.

Senhores Manifestantes: Nossa luta apenas começou. Se vocês quiserem se iludir que alguma coisa vai mudar com a baixa nas passagens, que se efetivou através do sacrifício de recursos públicos, com manutenção da lucratividade empresarial, vocês estão iludidos. TOMEM as ruas novamente. Exijam o fim da corrupção, a extinção da PEC 37, nova baixa nos preços das passagens, melhores condições de transporte, saúde, educação.

Eles continuarão nos ouvindo, continuarão cedendo. Eu sou totalmente contra qualquer tipo de violência, principalmente em manifestações sociais. Mas se a nossa vontade não for feita, utilizaremos nossas ferramentas, e viabilizaremos nossas exigências à força!

Senhores Policiais: A conduta vegonhosa de Quinta-feira se transformou em exemplar nessa semana. Eu gostaria de lembrá-los de uma coisa - Vocês, assim como todos os demais componentes de uma sociedade, têm uma obrigação social muito clara: A polícia existe para proteger a população. São os agentes da sociedade que têm licença, concedida pela sociedade, para portar recursos exclusivos, financiados pela sociedade, para garantir a segurança dessa sociedade. Não me interessa quais as ordens que chegam a vocês, de políticos ou de seus superiores. OS SENHORES NÃO TÊM O DIREITO DE VOLTAR ESSAS ARMAS CONTRA A SOCIEDADE!

Se políticos mandarem um médico deixar um paciente morrer, ele é obrigado a desobedecer. Se os políticos mandarem um professor emburrecer seus alunos, ele é obrigado a desobedecer. Os senhores têm um juramento voltado para a PÁTRIA, não para o governador. Quando o dilema se estabelecer, os senhores têm, sim, a OBRIGAÇÃO de voltar suas armas contra o governo, não contra a população.

Manifestações pacíficas são rebatidas com argumentos, não com força. A função da polícia não é argumentar, portanto não é rebater a manifestação pacífica. Compareçam para prender e reprimir os agressores. Compareçam para proteger a população. Quando o dilema se estabelecer... Virem suas armas para o governo, tirem a farda e lembrem a todos que vocês são cidadãos. Explorados e injustiçados da mesma maneira, lutem e reivindiquem da mesma maneira!

Você, que não sai à rua porque sua idade já passou, por medo, ou porque não é jovem estudante... ESSE É O SEU MOVIMENTO! Esse é o país que você vai deixar aos seus sucessores. Você só está inserido em uma sociedade que te dá certas condições, porque um dia alguém foi à rua, garantir o futuro que hoje é a sua realidade. E nós continuaremos fazendo isso, dia após dia, geração após geração, independentemente dos sacrifícios que venham a ocorrer. Muitos morreram ou sofreram por nós. Que estejamos dispostos a fazer o mesmo pelos próximos!

Pra mim, o verso do hino que ilustra esse momento, não é que finalmente deixamos de estar "Deitado eternamente em berço esplêndido", ou que "Verás que um filho teu não foge à luta", mas sim "NEM TEME QUEM TE ADORA À PRÓPRIA MORTE"!!

Porque essa é a nossa Revolta, isso é o Brasil:

Eles nos matam todos os dias, em todos os aspectos, com todos os seus recursos. Não temos medo de morrer, muito menos por esse Brasil.

Temos é disposição para mudar.

Vamos mudar.
#ChangeBrazil