sexta-feira, 21 de junho de 2013

A chance de construir novos rumos (Gabriel Reis)

por Gabriel Reis
Tem alguma coisa acontecendo, e uma coisa muito séria.


De repente, vem um sentimento inexplicável, uma vontade incrível de estar na universidade, debatendo com professores e amigos, de ir trabalhar, para discutir com chefes e colegas, uma vontade de ir pra rua, conhecer pessoas com uma realidade totalmente discrepante para simplesmente discutir a situação e as aspirações da nossa Nação.

O brasileiro tem características peculiares. De um lado, a total descrença dos desconfiados. "Isso não vai dar em nada!" "Falam que não são só 20 centavos, mas é só abaixar que ninguém mais sai de casa!" "De que adianta protestar, se eles vão ficar rindo da nossa cara e nada vai mudar?"

Tenham certeza:

Vocês, céticos, ficarão para trás.

Vocês, elitizados conservadores, que refutam qualquer forma de mudança para que não se altere a sua posição, ficarão para trás.

Vocês, políticos arrogantes, que se escondem atrás de votos irresponsáveis, que lhes permitiram um mandato corrupto, com políticas individualistas, também ficarão para trás.

Eu não tenho a mínima ideia do que vai acontecer. É isso que me faz querer estar na rua, dialogando, entendendo a mentalidade comum, e traçando os novos rumos desse país.

As mudanças não vêm de agora. Há décadas eu ouço dos movimentos sociais do passado, liderados por uma juventude lutadora que não aceitou um regime antidemocrático e o derrubou. Ouço histórias das baixas que a família sofreu, lutando por uma liberdade impossível. Para os que morreram na ditadura, "os tempos nunca mudaram, a democracia nunca se estabeleceu". É claro que não! Eles morreram com a certeza de que deram mais um passo rumo à democracia.

Depois disso, lutamos pelo direito de voto igualitário, e novamente as ruas foram tomadas por uma juventude inconformada. E se estabeleceu um governo comprovadamente insustentável por tanta corrupção, e novamente as ruas se viram lotadas de jovens revoltados com a injustiça que se impunha a eles.

E de repente, esse jovens sumiram!

Eles não morreram.

A idade veio, eles envelheceram.

 Seus sucessores não viveram ditadura. Não viveram a inflação estratosférica. Não viveram a sucessão Ditadores - Sarney - Collor. Portanto, quando se inseriram na sociedade, reelegeram Sarney, reelegeram Collor. Viram a corrupção gritante dos governos FHC e PT, e tudo o que se ouviu foram gritos isolados. Afinal, as injustiças de outrora já não existiam. O medo, o desespero de se estar inserido em um sistema insustentável já não penetrava o coração do estudante brasileiro.

Eu participei do movimento estudantil da minha escola. Fui às ruas efetivar o movimento FORA SARNEY. Votei em inúmeros candidatos diferentes, na esperança de, por um lapso, todos votarem na alternativa, não no comodismo, e o cenário político brasileiro se transformar.

É claro que eu não fui sozinho! Mas nós simplesmente não fomos acompanhados. Os mesmos céticos de agora, a minha vida inteira foram céticos com todas as manifestações que tentei aderir. Que frearam o Movimento Estudantil na minha universidade. Que absolutamente não acreditam em mudança pelo simples fato de não acreditar.

Os velhos, veteranos de guerra, olham com desdém e falam que "A luta já não é mais a mesma". Isso é ridículo!

Os antigos céticos reacionários são os políticos de hoje. Os antigos revoltados se corromperam, pois foram continuar suas lutas escondidos em partidos políticos, com a hipócrita mentalidade de que "os fins justificam os meios", se esquecem dos "fins", nunca superam ou reparam os "meios".

Eu vi uma publicação do Sr. Plínio de Arruda Sampaio refutando os gritos para que se baixem as bandeiras partidárias, e para que se levante a única bandeira que une a todos. Fiquei envergonhado.
Não ignoro ou menosprezo o papel fundamental que alguns partidos já exerceram na história política do Brasil. Mas esse momento é único! E nós não queremos que seja uma vitrine... Não queremos que se faça propaganda. Que haja destaque partidário pela participação na passeata. É claro que o movimento prega pela liberdade de expressão, então cada um levanta a bandeira que quer, grita o que quer! Mas esse é o movimento do POVO BRASILEIRO, queremos destaque pra essa bandeira, e que os partidos políticos mostrem que vale a pena quando esse momento for superado, e a política se reinventar no Brasil. A descrença sobre vocês - sobre CADA UM DE VOCÊS, partidos e políticos que já cometeram qualquer irregularidade na nossa política - ainda é muito forte.

A luta é do POVO. E é isso que me traz aquele sentimento citado no início do texto. A pele arrepia, o olho transborda: Pela primeira vez na vida, a minha geração está fazendo a diferença! "Jogaram Mentos na geração Coca-cola". Acontece que somos TÃO MIMADOS, mas TÃO MIMADOS, que aquela parcela, que não estava NEM AÍ pro que estava acontecendo, que a vida inteira não esteve NEM AÍ pra nada, olhou o que aconteceu na última quinta-feira e pensou "Eu não sei porque estão gritando... Eu não sei o que estão gritando, eu não quero gritar junto. Mas esses policiais, com bombas de gás e balas de borracha estão me dizendo que EU NÃO POSSO GRITAR? aaaaaaaaaaaaaah... Agora eu vou gritar!"

E esse é o grande mérito dessa manifestação, da nossa geração: Todas as nossas liberdades e direitos nos são tirados diariamente, indiretamente. Quando uma parcela mínima das nossas liberdades e direitos nos são declarada e gritantemente privadas... Os mimados acomodados vão às ruas.

E gritam, e causam. E o governo teme. E o governo cede. E finalmente, chegamos a um divisor de águas: Paramos por aí, ou queremos muito mais? É claro que queremos muito mais! Se o governo está com medo e está recuando, nossa efetividade está evidenciada! Temos o Poder, vamos exercê-lo!!!

Eu participei da manifestação em Araraquara. Interrompemos uma sessão da câmara, eles nos deram voz, nós não demos voz a eles, não existiu diálogo concreto.

Apesar da fala dos vereadores, os manifestantes saíram de lá sem ouvir uma palavra.

Não é assim que se muda as coisas. Os políticos que perceberam que as mudanças estão acontecendo, vão se adaptar, mudar junto e melhorar as coisas. Os que se apegarem à sua ilusão de poder intocável, ficarão para trás.

Hoje vou para São Paulo, efetivar essa luta na maior cidade do país.

Senhores Políticos: Nossas exigências são claras. Nossas exigências são possíveis. Nossas exigências requerem esforços.

ATENDAM às nossas exigências.

Senhores Manifestantes: Nossa luta apenas começou. Se vocês quiserem se iludir que alguma coisa vai mudar com a baixa nas passagens, que se efetivou através do sacrifício de recursos públicos, com manutenção da lucratividade empresarial, vocês estão iludidos. TOMEM as ruas novamente. Exijam o fim da corrupção, a extinção da PEC 37, nova baixa nos preços das passagens, melhores condições de transporte, saúde, educação.

Eles continuarão nos ouvindo, continuarão cedendo. Eu sou totalmente contra qualquer tipo de violência, principalmente em manifestações sociais. Mas se a nossa vontade não for feita, utilizaremos nossas ferramentas, e viabilizaremos nossas exigências à força!

Senhores Policiais: A conduta vegonhosa de Quinta-feira se transformou em exemplar nessa semana. Eu gostaria de lembrá-los de uma coisa - Vocês, assim como todos os demais componentes de uma sociedade, têm uma obrigação social muito clara: A polícia existe para proteger a população. São os agentes da sociedade que têm licença, concedida pela sociedade, para portar recursos exclusivos, financiados pela sociedade, para garantir a segurança dessa sociedade. Não me interessa quais as ordens que chegam a vocês, de políticos ou de seus superiores. OS SENHORES NÃO TÊM O DIREITO DE VOLTAR ESSAS ARMAS CONTRA A SOCIEDADE!

Se políticos mandarem um médico deixar um paciente morrer, ele é obrigado a desobedecer. Se os políticos mandarem um professor emburrecer seus alunos, ele é obrigado a desobedecer. Os senhores têm um juramento voltado para a PÁTRIA, não para o governador. Quando o dilema se estabelecer, os senhores têm, sim, a OBRIGAÇÃO de voltar suas armas contra o governo, não contra a população.

Manifestações pacíficas são rebatidas com argumentos, não com força. A função da polícia não é argumentar, portanto não é rebater a manifestação pacífica. Compareçam para prender e reprimir os agressores. Compareçam para proteger a população. Quando o dilema se estabelecer... Virem suas armas para o governo, tirem a farda e lembrem a todos que vocês são cidadãos. Explorados e injustiçados da mesma maneira, lutem e reivindiquem da mesma maneira!

Você, que não sai à rua porque sua idade já passou, por medo, ou porque não é jovem estudante... ESSE É O SEU MOVIMENTO! Esse é o país que você vai deixar aos seus sucessores. Você só está inserido em uma sociedade que te dá certas condições, porque um dia alguém foi à rua, garantir o futuro que hoje é a sua realidade. E nós continuaremos fazendo isso, dia após dia, geração após geração, independentemente dos sacrifícios que venham a ocorrer. Muitos morreram ou sofreram por nós. Que estejamos dispostos a fazer o mesmo pelos próximos!

Pra mim, o verso do hino que ilustra esse momento, não é que finalmente deixamos de estar "Deitado eternamente em berço esplêndido", ou que "Verás que um filho teu não foge à luta", mas sim "NEM TEME QUEM TE ADORA À PRÓPRIA MORTE"!!

Porque essa é a nossa Revolta, isso é o Brasil:

Eles nos matam todos os dias, em todos os aspectos, com todos os seus recursos. Não temos medo de morrer, muito menos por esse Brasil.

Temos é disposição para mudar.

Vamos mudar.
#ChangeBrazil

Um comentário:

  1. Nossa!
    Esse é de longe o melhor texto do Blog que não foi escrito por você, Iuri.
    Parabéns pela escolha.

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