sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Considerações sobre o voto (in)útil

Não é segredo para ninguém que, atualmente, a política nacional está, em geral, bipolarizada entre PT e PSDB.

Esse ano não é diferente (http://www1.folha.uol.com.br/poder/1164977-pt-e-psdb-lideram-nas-grandes-cidades.shtml)

Evidente que essa polarização nem se compara, por exemplo, com a americana, mas tem forte peso nas disputas brasileiras.

Podemos dizer que o PSDB possui o DEM como forte aliado, aliança baseada muito mais na rivalidade com o PT do que em afinidade propriamente dita.

Em contrapartida, o PT desenvolve uma série de alianças nacionais, com PMDB, PSB, PTB e muitos outros, mas que nem sempre se refletem nem são bem vistas regionalmente.

Essa bipolaridade encontra fundamento principalmente nos apoios populares.

Enquanto o PT possui imensa popularidade no nordeste, além de grande popularidade espalhada pelo país, o PSDB minguou nos últimos anos, concentrando forças principalmente em São Paulo e Minas Gerais que, no entanto, são os dois maiores colégios eleitorais do país!

O Brasil já fui um país muitíssimo heterogêneo politicamente, no qual expoentes comunistas como o PC do B, PCB e o próprio (antigo) PT já mostraram sua força, enquanto partidos diametralmente opostos como PFL, Arena e PMDB exerceram domínio ainda maior.

Penso que essa heterogeneidade se explica, em grande parte, pela grande população do país, grande concentração de renda (terreno fértil para o conservadorismo), imensa máquina pública e servidores públicos  muito sindicalizados (terreno fértil para o esquerdismo).

No entanto, o que se verifica da mera análise da política atual é que inexistem grandes diferenças fáticas entre os dois protagonistas do cenário.

Afinal, é inquestionável que, embora com índices econômicos e sociais muito mais expressivos, o governo Petista foi mera continuação de políticas econômicas do governo tucano. 

A diferença maior, ao que tudo indica, está relacionada principalmente à diminuição das desigualdades por meio de distribuição da renda.

É verdade que Lula ampliou o gasto do governo em programas de inclusão social em relação ao governo FHC.

Mas também é verdade que FHC efetuou a mesmíssima ampliação em relação ao governo anterior (http://exame.abril.com.br/brasil/noticias/como-lula-e-fhc-gastaram-na-area-social).

A grande verdade é que, independentemente do desempenho político (que eu considero melhor por parte do PT, apesar dos projetos serem parecidos), ambas as correntes decepcionam em muitas outras áreas.

Não se vê aumento dos investimentos em saúde, educação e transporte. O que se vê é uma ampliação de programas populistas que, embora auxiliem de fato a vida da população, não fornecem real possibilidade de modificação do contexto social.

E é exatamente aqui que se iniciam as falácias que levam à transe coletiva do voto útil.

O Petista, ao ler o que acabo de escrever, se indigna, brada frases nas quais a palavra "elite" sempre está presente. Coisas do tipo "essa é a opinião da elite perversa que não sente na pele as mudanças do governo Lula".

A resposta para isso é que, passados DEZ anos de governo petista, começa a ficar difícil justificar mudanças circunstanciais da renda sem qualquer mudança estrutural.

É difícil infirmar, por exemplo, que o tão celebrado avanço da renda que alçou milhões de pessoas à classe média não é assim tão voluptuoso. Hoje, para ser de classe média no Brasil, basta obter renda de R$291,00 (http://www.cartacapital.com.br/economia/mais-de-50-dos-brasileiros-estao-na-classe-media-diz-estudo-do-governo/).

Isso corresponde a menos da metade de um salário mínimo e menos de um sétimo do salário ideal apontado pelo DIEESE (http://www.cartacapital.com.br/economia/mais-de-50-dos-brasileiros-estao-na-classe-media-diz-estudo-do-governo/)

Para se ter uma ideia, a renda da classe média americana corresponde a no mínimo U$51.000,00 anuais, ou 14 vezes mais do que a classe média brasileira ignorando-se a conversão da moeda (que elevaria a diferença para aproximadamente 30 vezes)!

Há que se levar em conta que o PIB americano é "apenas" 7 vezes maior que o brasileiro e a população 50% maior.

Ora, ser classe média no Brasil significa ser pobre, MUITO pobre!

Não é preciso ser matemático para deduzir que com o piso do ganho salarial da classe média equivalente a menos de meio salário mínimo, torna-se muito mais fácil enquadrar grande parte da população como pertencente à classe média.

Então basicamente se confronta a política tucana de não oferecer NADA ao cidadão pobre com a política Petista de oferecer muito pouco.

E evidente que há perfeita lógica no fato de aqueles que nunca tiveram nada considerarem o PT um excelente partido por lhes dar ao menos um pouco - se é que eles tem condições de constatar o quão pouco foi feito.

Outro trunfo Petista era o movimento nacionalista que se opunha fortemente à venda do patrimônio brasileiro por preços ridículos.

Essa prática também foi igualada com as privatizações de aeroportos e estradas, sem falar nos empréstimos do BNDES que subsidiam com dinheiro público o capital para compra de patrimônio público (sim, o Estado paga para ser vendido).

O PT tratou-se de se aproximar rapidamente do PSDB no que diz respeito ao favorecimento de Bancos e Multinacionais! Vide os montantes de dinheiro dado por Lula a banqueiros e as diversas medidas para fomentar a indústria automobilística, dentre muitas outras.

Por fim, temos a corrupção. Não é preciso falar muito sobre o PT a esse respeito. O partido protagonizou nos últimos anos o mensalão (agora julgado por ministros do STF cuja maioria foi indicada ao cargo pelo próprio PT), dólares na cueca, queda de muitos ministros no governo, dancinhas constrangedoras no congresso nacional, era parte da base (vice-prefeitura) de um dos governos mais corruptos da história de campinas e por aí vai...

O PSDB não fica nada atrás, possui seu próprio mensalão, anda abraçado com o DEM, partido mais corrupto do Brasil e ocupa ele próprio o terceiro lugar (http://pt.wikipedia.org/wiki/Dossi%C3%AA_do_Movimento_de_Combate_%C3%A0_Corrup%C3%A7%C3%A3o_Eleitoral).

Sem falar nas obscuras privatizações do governo FHC e muitos outros escândalos.

Então, diante desse cenário que demonstra, independentemente da opinião de tucanos e petistas, que os partidos já não são lá tão diferentes, porque existe essa polarização?

Quem é o grande favorecido pela polarização entre partidos tão parecidos?

A própria história do Brasil nos responde essa pergunta.

Durante o regime militar, os próprios militares criaram dois partidos, o Arena, da situação e o PMDB, da oposição.

Evidente que essa oposição era fictícia, montada pelos militares. Mas foi capaz de perpetuar pelos longos anos ditatoriais a sensação de que existia rivalidade e oposição verdadeira.

É exatamente isso que PSDB e PT representam hoje no Brasil, a ilusão vendida a nós, cidadãos, de que representam coisas completamente distintas, incompatíveis.

Eu sei que os partidos verdadeiramente se detestam e enxergam no outro o que há de pior no país.

Mas a grande verdade é que não são tão diferentes, não oferecem propostas concretamente voltadas para mudar o quadro social brasileiro e pouco se diferem em matéria de corrupção.

E o que será que o voto útil tem a ver com isso?

Bom, inicialmente vale explicar o que entendo por voto útil.

O voto útil é ferramenta utilizada por muitos eleitores para evitar que a situação mais adversa ocorra.

Por exemplo, em São Paulo, aquele que não quer o Serra de jeito nenhum na prefeitura pode até não ter o Haddad como primeira opção, mas votará nele para tirar o Serra do segundo turno.

Da mesma maneira, os que não querem o Haddad na prefeitura votarão no Serra.

Fica claro, portanto, que a polarização entre PT e PSDB vem tirando a autonomia do voto de muitos eleitores, que passaram a escolher em quem votar muito mais baseados no falso antagonismo existente.

Compram integralmente a ideia de que a eventual alçada do partido contrário ao poder é o pior desastre que pode existir e votam no outro partido simplesmente para evitar isso.

Em outras palavras, PT e PSDB angariam mais votos baseados no ódio do eleitor por um ou por outro do que verdadeiramente pela simpatia.

E que problema há nisso?

O problema está justamente na ilusão de que eles sejam de fato tão diferentes. Não são. Sua vida não mudará drasticamente para melhor ou para pior se um ou outro for eleito! Podem haver mudanças, mas pontuais.

E através dessa ilusão, muitos eleitores insatisfeitos que gostariam verdadeiramente de votar em partidos menores como PV, PSOL, PSTU ou até mesmo abrir caminho para uma nova sigla, acabam promovendo a manutenção da bipolaridade.

O maniqueísmo entre PT e PSDB só favorece a eles próprios!

E nós deixamos, a cada eleição, de construir alternativas viáveis de uma nova política porque temos medo que um deles, o outro, chegue ao poder.

Me dei conta de que desde 2006 eu voto no PT insatisfeito, buscando evitar que os tucanos cheguem ao poder ou ao segundo turno.

Muitos amigos meus não gostam do Serra mas votarão nele para evitar que o Haddad vá ao segundo turno.

Todos os anos a eleição está repleta de Russomannos. O nome dele já foi em outros anos Roseana Sarney, Tiririca, José Serra, Lula e muitos outros.

Trata-se do estranho no ninho de PSDB e PT, que sempre é recebido com desconfiança pela população e faz com que os eleitores, medrosos, voltem correndo para a sigla que lhes dá um pouco mais de segurança - para registro, considero o Russomanno a pior opção de voto em São Paulo!

Mas as campanhas de "pelo amor de Deus, tudo menos Russomanno" só fortalecem PT e PSDB.

Se você não quer votar no PT ou no PSDB mas vai votar por medo de um dos dois ou por medo do Russomanno ou de outro candidato da sua região, saiba que em 2014 existirá PT e PSDB de novo e também um novo Russomanno.

E em 2016 também, e em 2018 também e assim sucessivamente.

A não ser que você ajude AGORA a construir novos rumos para nossa política.

A não ser que você auxilie partidos menores, mais íntegros, com melhores propostas a crescerem desde já.

Quanto mais você adiar isso, mais tempo terá que escolher entre dois males! Mais tempo terá de aturar apenas essa velha e corrupta política.

O primeiro turno é o momento de construção da política, fortalecimento partidário, difusão de ideias!

Votem em quem você verdadeiramente quer, em quem merece o seu voto.

Deixe para escolher entre dois males no segundo turno, que é quando já não há mais espaço para construção de dias melhores, apenas definição do amanhã.

PS: Estava decidido a fazer voto útil em Campinas e agradeço à minha mãe que me apontou a inutilidade do voto útil, abriu meus olhos e permitiu a construção do raciocínio que embasa esse texto.

PS2: Espero que ele seja capaz de convencer ao menos uma pessoa a deixar o voto útil de lado e votar em quem verdadeiramente quer, a trabalhar - como formiga - na construção de novas alternativas.

PS3: http://www.youtube.com/watch?v=4DAgo2VlGlA Esse vídeo do Eneas em 1994 demonstra que muito pouco ou quase nada mudou em 18 anos. Os problemas eram os mesmíssimos!

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