quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Paradoxo do homem moderno

"There's a land that I have heard about
So far across the sea
To have you all, my dreamland
Would be like heaven to me
...
We'll get our breakfast from the tree
We'll get our honey from the bees
We'll take a ride on the waterfalls"
(Dreamland - Bob Marley)

Na música "Dreamland", Bob Marley diz que existe uma terra da qual ele teve notícia.

Diz que essa terra fica muito longe, do outro lado do oceano e que é como o céu.

Nessa terra, seria possível extrair o café da manhã das árvores, mel das abelhas e até mesmo se divertir nas cachoeiras.

Já Elis Regina define o local ideal para morar como uma casa no campo simples, silenciosa e repleta de animais:

"Eu quero uma casa no campo
Onde eu possa ficar no tamanho da paz
E tenha somente a certeza
Dos limites do corpo e nada mais

Eu quero carneiros e cabras pastando solenes
No meu jardim
Eu quero o silêncio das línguas cansadas
Eu quero a esperança de óculos

E um filho de cuca legal
Eu quero plantar e colher com a mão
A pimenta e o sal
Eu quero uma casa no campo

Do tamanho ideal, pau-a-pique e sapé
Onde eu possa plantar meus amigos
Meus discos e livros e nada mais!"
(Casa no Campo - Elis Regina)

Curiosamente, foi lançada recentemente e é o maior sucesso da história do YouTube, uma música Coreana chamada Gangnam Style (http://www.youtube.com/watch?v=9bZkp7q19f0)

De acordo com as análises feitas, trata-se de uma crítica social a um bairro de Seoul, capital da Coréia do Sul, pela excessiva ostentação de riqueza e modernidade, comparáveis à futilidade (http://musica.uol.com.br/noticias/ap/2012/09/19/gangnam-style-de-psy-e-uma-critica-social-aos-novos-ricos-de-seoul-entenda.htm)

Vale ressaltar que a Coréia do Sul é país rico, com bons indicadores de desenvolvimento social (IDH e Gini) e um dos maiores berços da tecnologia contemporânea.

A mera análise dessas peças artísticas torna claro que o homem tende, na esfera artística, a reclamar do progresso econômico e tecnológico, dando-lhe conotação de crueldade, manipulação e massificação.

Basta lembrarmos, em sentido diametralmente oposto, das músicas "Concrete Jungle" também de Bob Marley e "Homem Primata" dos Titãs.

Ao mesmo tempo, ao definir o que considera a vida perfeita, sempre a descreve com requintes detalhados de simplicidade, calma e contato mais próximo da natureza.

Curiosamente, uma busca rápida no Google por imagens das palavras "cool life" nos traz, dentre outras imagens de simplicidade, a imagem de crianças pobres e subnutridas brincando na chuva, em uma estrada de terra:


 No mesmo sentido, a pesquisa pelas palavras "vida boa" nos traz, também dentre outras imagens, uma foto curiosa:


Ambas as imagens acima reproduzidas deveriam, no contexto moderno, significar pobreza e subdesenvolvimento.

Mas, curiosamente estão em descrições de uma vida boa.

Portanto, em geral, embora a prática nos diga o contrário, o imaginário traz como ideal de vida boa, sossego, natureza e dedicação ao lazer.

Ora, porque então a prática é exatamente o oposto daquilo que grande parte dos indivíduos anseia?

Há quem diga que o que as pessoas anseiam é justamente ficar ricas para poder se dedicar ao lazer e por isso trabalham tanto.

Então, em tese, as pessoas transcorrem toda a vida de maneira indesejada ou menos desejada, sonhando em alcançar a almejada vida tranquila.

A grande maioria das pessoas já passou, ao menos uma vez na vida, pela situação de estar com pressa e perder um bom tempo procurando algo (chave do carro, carteira, celular...) que estava segurando na mão ou que estava no bolso.

Em regra, não nos sentimos as pessoas mais inteligentes e afortunadas do mundo quando essa situação acontece.

Isso porque o raciocínio lógico do homem considera intolerante a dedicação à tarefa inútil, principalmente quando a resposta é óbvia e facilmente constatável.

Em outras palavras, ninguém gosta de fazer burradas.

Nesse contexto, porque então viver em um sistema que permite que apenas um em milhões de candidatos atinja a vida que todos sonham, sendo que a resposta sempre esteve em nossas mãos?

Afinal, todo esse sistema complexo de trabalho, dedicação dura, progresso, conjuntura econômica - dentre tantas outras variáveis da sociedade moderna - foi criada pelo próprio homem.

Em última análise, sonha-se com uma vida simples e tranquila e, para isso, criou-se um estilo de vida complexo e agitado que, com muito esforço, pode levar um em um milhão a obter uma sonhada vida simples e tranquila.

Sim, a questão é confusa, afinal, é um paradoxo!

Mas tenho certa dificuldade em aceitar que criamos uma sociedade moderna e complexa baseada no intuito inicial de facilitar nossa vida e ampliar a longevidade e simplesmente perdemos o controle disso.

Agora estamos, na verdade, ao invés de nos aproximando de uma vida melhor, nos afastando do cotidiano que desejamos baseados principalmente na abstrata ideia de enriquecer e sossegar.

Esse texto está, até o momento, baseado exclusivamente em interpretações subjetivas.

Mas já existem pesquisas que demonstram, por exemplo, que crianças que passam maior tempo submergidas na tecnologia tendem a ser menos felizes do que aquelas que dedicam seu tempo a outras atividades (http://bits.blogs.nytimes.com/2012/01/25/does-technology-affect-happiness/)

No mesmo sentido, alguns estudos dão conta de que, embora vivamos em uma sociedade que busca constantemente superar o apogeu imaginado para o consumo, esse aumento do consumo é inversamente proporcional à felicidade dos indivíduos (http://www.youtube.com/watch?v=3c88_Z0FF4k, 16m05s)

Em contrapartida, outras pesquisas também demonstram que nos dias atuais, aqueles que possuem maior acesso à tecnologia apresentam maior satisfação do que aqueles sem acesso (http://www.bbc.co.uk/news/10108551)

Contudo, isso é uma analise que compara indivíduos já inseridos em uma realidade tecnológica e não uma comparação em relação a indivíduos inseridos em uma sociedade menos tecnocrata.

A grande verdade é que criou-se uma sociedade moderna baseada no intuito de tornar melhor e mais prática a vida dos indivíduos mas, em algum lugar nesse caminho, perdemos o rume e passamos a viver em uma sociedade exclusivamente voltada para o consumo.

Tanto é assim que muitos governos definem como prioridade número um o aumento dos níveis de consumo, a despeito de saúde, segurança, transporte e tantas outras necessidades (http://www.youtube.com/watch?v=3c88_Z0FF4k, 12m15s).

A coisa está tão fora de controle que alguns (muitos) indivíduos deturparam de tal maneira suas prioridades que preferem até mesmo morrer a ficar sem algumas bugigangas eletrônicas (http://www.infomoney.com.br/minhas-financas/gadgets/noticia/2557352/Quase-dos-usuarios-iPhone-preferem-morrer-ficar-sem-aparelho).

Não estou sugerido que abdiquemos de todo o progresso social e tecnológico que desenvolvemos, até porque existem sim efeitos positivos como melhora na expectativa de vida.

Mas é preciso que consideremos uma simplificação da imposição social de vida invariavelmente imersa em tecnologia e sistematização, para que os progressos da vida moderna atuem em nosso favor e não como nossos guias.

Além disso, vale refletir o porque de vivermos em tamanho paradoxo de refutar uma vida pacata e simples por uma vida conturbada e complexa, ao mesmo tempo em que definimos o modelo ideal para se viver como simples e pacato.

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