domingo, 9 de setembro de 2012

O ódio ao ódio

Esse foi o primeiro tema pensado para esse blog.
Demorou mais saiu. Não do jeito que foi pensado, mas saiu!

Gostaria de refletir sobre um tema que vem me chamando atenção há tempos.
Como nunca li nada sobre o assunto, nomeio a questão como "ódio ao ódio"

O ódio ao ódio é basicamente a reação vista na maioria das vezes à situações ou opiniões extremamente retrogradas, preconceituosas, egoístas ou simplesmente taxadas de incorretas pelo senso comum.

Aparentemente, o mundo se dividiu em dois blocos.

Há hoje os super religiosos contra os ateus, os defensores da diversidade sexual (independentemente da orientação) embatem homofóbicos, os defensores da diversidade cultural e racial duelam com os racistas, regionalistas e xenofóbicos, machistas se opõem a feministas, comunistas enfrentam neoliberais.

Isso sem mencionar as polêmicas envolvendo aborto, estupro, legalização das drogas e muitas outras.

Sobre esses temas, criou-se uma espécie de padrão do socialmente aceitável e tudo fora desse padrão é absurdo, é baixo, é ridículo...

Sinto que além dos embatedores e defensores dos temas específicos, existem os defensores do mundo melhor, que levantam todas ou a maioria das bandeiras que julgam levariam a uma sociedade mais tolerante, justa e livre.

Apesar de um pouco piegas, nada de errado com isso, até porque acho que pertenço a esse grupo.

Existe um sem número de batalhas sendo travadas diariamente em rodas de discussão, manifestações, propagandas políticas, sites, colégios, cultos religiosos e muitos outros ambientes, todas discutindo com veemência e exacerbação um desses lados.

E, embora eu possua posição firmada sobre cada um desses temas, esse texto não pretende em momento algum adentrar o mérito de quaisquer dessas discussões.

A pergunta que se levanta é: O que mudou nos últimos cem, mil ou dez mil anos em termos de respeito à diversidade de pensamento?

Ok, temos leis novas e mais liberais, temos a igualdade legal entre homens e mulheres, hoje a diferença de opinião, em regra, não é mais resolvida "na mão" (muitas vezes é, na verdade).

Mas a pergunta não é nesse sentido, a pergunta é: De fato ampliamos o respeito ao pensamento diferente, nos dando a possibilidade de enxergar ou ao menos respeitar quem pensa diferente ou será que apenas mudamos as regras do jogo?

Ou seja, será que continuamos partilhando da mesmíssima intolerância e radicalismo, só que agora as regras sociais fazem com que essa revolta seja manifestada "xingando muito no twitter" ou com um grau menor de violência.

Os vanguardistas da liberdade aplicam o mesmo respeito às opiniões contrárias?

As pessoas, no seu íntimo, verdadeiramente respeitam mais as opiniões alheias?

Há quem diga "ora, mas se o cara é machista, a ideia dele é justamente desrespeitar mulheres".

Mas e os que defendem a igualdade entre os sexos, será que tratam o tema com respeito à opinião diversa?

Novamente há quem opine "esses posicionamentos não merecem respeito".

Tudo bem, mesmo que analisando a questão por esse prisma, qual benefício um embate "sangrento" pode trazer?

Como uma resposta agressiva e intolerante com o pensamento alheio pode aproximar o indivíduo de um posicionamento mais respeitoso?

Evidentemente não pode.

As pessoas não escolhem como pensam, simplesmente pensam. Ninguém decide "quero ser racista", o cara simplesmente é racista e enxerga o mundo desse jeito.

Isso não o isenta de culpa, pelo contrário. Mas aquele que se revolta contra esse tipo de posição, deveria buscar meios para construir a tolerância.

E isso somente irá ocorrer por meio da compreensão, análise e desconstrução pacífica, respeitosa e detalhada das falácias que levam, por exemplo, ao pensamento racista.

Já chegou o tempo de os "liberais" se darem conta que levam uma vantagem inigualável nessas discussões: o pensamento deles faz sentido.

Mas isso não significa direito de desmerecimento ou ridicularização do pensamento alheio, pois essa atitude representa quase que o mesmo preconceito, desrespeito e discriminação.

Os desbravadores do pensamento moderno possuem a responsabilidade de auxiliar na criação e ampliação de um mundo aberto à pluralidade e respeito.

Portanto, devem tratar esses temas com seriedade e rebater pensamentos contrários de maneira coesa, fundamentada e serena.

Caso contrário, poderemos jogar fora a oportunidade efetiva de implementação de ideias mais igualitárias.

O combate, quando se transforma em um ciclo vicioso, nada agrega.

Portanto, o assunto não pode ser encarado como uma batalha entre vizinhos, que só perpetuam ainda mais o ódio e polarizam as opiniões. A responsabilidade é tremenda, as discussões devem ser feitas com base em argumentos refinados.

E não me refiro aqui ao cara que se revolta quando vê um cobrador de ônibus maltratar um idoso. Essas situações são capazes de revoltar qualquer indivíduo.

Me refiro ao cidadão que, dizendo-se liberal, consciente e moderno, vai a um grupo de discussão, participa de um debate ou simplesmente fala sobre um tema em um site e defende seu ponto de tolerância por meio de chacotas, humilhações e ridicularizações.

Trata-se da mesma batalha campal travada no coliseu romano séculos atrás, só que com outras regras.

Então, jogando o mesmo jogo há séculos, será que atingiremos uma sociedade melhor?

Não. Só por meio da desconstrução minuciosa, paciente e pontual de pensamentos retrógrados.

Evidente que isso inclui manifestações, passeatas, mobilizações e muitas outras formas de protesto.

Mas é claro que o protesto somente chama atenção para o tema, que apenas poderá ser verdadeiramente exposto e modificado por meio de denso debate que leve à conclusões concretas. O convencimento é indispensável e só pode ser atingido com diálogo.

Por vezes, a sensação de que a parte contrária não quer ouvir ou nunca irá mudar é que gera a revolta.

De novo, trata-se de pensamento falacioso, pois o embate verbal agressivo gerará mais danos, ao passo que a repetição de argumentos sólidos pode enraizar novos caminhos.

Nessa trajetória, o "liberal" precisa também se abrir para escutar o lado contrário, pois existe a possibilidade de alguém ser a favor da igualdade entre os sexos mas contra o aborto.

Não há espaço para o pacotão de ideias liberais, as construções são múltiplas, complexas e plurais. É preciso saber encarar cada tema sem desmerecer a opinião alheia por meio de uma única discordância.

O mesmo indivíduo que tem uma opinião diferente sobre um tema pode ter muito a agregar em relação a outro.

Agora, voltemos ao cara indignado com o cobrador de ônibus que maltratou o idoso.

Esse cara, muitas vezes, legitimado pela defesa dos socialmente injustiçados, se sente no direito de dar uma lição no malfeitor.

Isso ocorre todos os dias, quando vemos comentários revoltados sobre atrocidades. Coisas do tipo "tinha que torturar estuprador" ou "queria ver o que ele ia achar se estuprarem a mãe dele".

Outros falam, "ladrão tem que perder um dedo, se roubar de novo, perde uma mão".

Muitas vezes, em situações como essa, ao expressar opinião diversa, já fui contemplado com a velha máxima "e se fosse sua filha?" ou "queria ver se fosse com você!"

Não tenho a menor dúvida de que se fosse comigo, teria uma reação similar, parecidíssima.

No entanto, essa é justamente a razão pela qual o Estado escolhe pessoas neutras, alheias ao fato concreto para decidir conflitos, pois somente a neutralidade é capaz de analisar a justa medida da ação a ser tomada, somente a isenção de emoções leva à justiça.

Nesse contexto, levanto um último questionamento para o qual não tenho resposta.

Se vivemos atualmente em uma sociedade tão intolerante, seja pela violência gratuita, seja pelo contra-ataque, será que nossos legisladores - a quem tanto criticamos como corruptos e encostados - seriam eles mais humanos e centrados do que a a maioria de nós?

Afinal, enquanto muitos defendem cortar dedos, assassinar famílias, torturar, ou seja, a verdadeira lei de talião, nossa legislação enfrenta as questões de maneira muito mais serene e imparcial, sem abrir mão de punir.

Veja, não estou falando da prática, estou me referindo à lei!

Não acho que a resposta a essa questão seja afirmativa. Mas certamente nos faz refletir sobre que futuro melhor estamos construindo com o embate violento, intolerante e pouco produtivo quando confrontados com situações conflituosas, retrogradas ou extremas.

De novo, não acho que devemos abrir mão de punir quando se adota uma prática de desrespeito ou até mesmo de pontuar e destacar absurdos, mas a lei serve para isso e os mecanismos de aplicação dela também.

Então é neles que devemos investir, na eficiência e satisfação deles.

Paralelamente, há que se desconstruir conceitos preconceituosos e egoístas de maneira racional.

Quando identificada uma situação de preconceito ou egoísmo, há que se rebater com argumentação, demonstração, exemplo.

A vivência no dia a dia de uma vida tolerante e respeitosa é o melhor exemplo que se pode oferecer. Ela sim é capaz de gerar mudanças e reflexões.

O resto é mero fomento do ódio ao ódio!

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