sábado, 1 de outubro de 2022

A eleição presidencial de 2022 precisa ser decidida no 1º turno

Esse texto adota como pressuposto que o Governo Bolsonaro é o pior governo da história democrática do Brasil. Não faltam elementos para isso, como a volta do país ao mapa da fome, o aumento do desemprego, a queda da renda, a disparada da inflação, a corrupção contumaz, a intervenção desenfreada do Poder Executivo nos órgãos de controle, o desmonte da pesquisa, da ciência e da academia, os ataques, a violência e a remoção de direitos institucionalizados contra minorias, a promoção do desmatamento e da destruição do meio-ambiente e a desregularização da qualidade dos bens de consumo, dentre muitas outras questões.

 

Assim, exceção feita a uma questão (propositalmente ainda não mencionada), que de tão grave não pode ficar de fora, esse texto não é escrito para detalhar os problemas do Governo Bolsonaro, de modo a convencer o leitor de que se trata de um governo péssimo, o pior que já elegemos. A esta altura, as informações para isso estão acessíveis a todos que confiam em fontes confiáveis e em metodologia informativa e aqueles que há no mínimo 4 anos se recusam a acreditar no que salta aos olhos, não se convenceriam por esse texto às vésperas da eleição.

 

O objetivo é, então, demonstrar, por meio de fatores claros, àqueles que querem ver o fim do Governo Bolsonaro, que isso precisa ocorrer no 1º turno, o que leva inexoravelmente à urgente necessidade de se votar Lula 13 amanhã. Vamos a esses fatores:

 

1. – É a primeira vez desde a redemocratização que possuímos um governo que detém tanto apoio político declarado das forças armadas quanto membros delas em peso compondo o governo. Ele também conta com apoio massivo das polícias civil e militar, além de ter flexibilizado largamente a posse e o porte de armas para a população civil nos últimos anos, o que foi majoritariamente aderido por seus apoiadores.

 

2. O candidato à reeleição, detentor da máquina pública e do apoio das forças armadas, afirma que não irá reconhecer o resultado caso não seja eleito no primeiro turno. Seus apoiadores (muitos militares ou civis armados) corroboram a afirmação. As pesquisas eleitorais realizadas até o momento indicam que ele não apenas não será eleito no primeiro turno, mas que ficará em segundo lugar em tal turno, existindo grande possibilidade do candidato em primeiro lugar ser eleito em primeiro turno. Consequentemente, tudo indica que não existe a menor possibilidade do resultado eleitoral ser reconhecido não apenas por um candidato qualquer, mas também pelo poder estatal, pelo militarismo brasileiro e pela maior parte da sociedade civil detentora de posse de armas no Brasil, o que é sem precedentes na história democrática brasileira. Um aperitivo do que pode nos aguardar é a instabilidade causada pela mera audição do resultado das eleições em 2014 pelo candidato que não detinha a máquina pública para impor suas vontades, nem tampouco o militarismo ao seu lado ou uma militância armada. As consequências do não reconhecimento das eleições esse ano são, portanto, completamente imprevisíveis e o risco aumentará muito se o não reconhecimento for exclusivamente no segundo turno, pois no segundo turno o não reconhecimento (que é muito provável) passará a poder contar com o apoio dos eleitos no primeiro turno – deputados, senadores e governadores – sem que eles corram o risco de serem impactados por eventual anulação.

 

3. Essa eleição já apresenta o maior um índice de violência política desde a redemocratização. Isso não é ameaça à democracia, é um dado antidemocrático concreto que pode ser constatado por meio de estatísticas. São literalmente pessoas sendo assassinadas e agredidas em virtude do posicionamento político delas. A agressividade eleitoral historicamente tende a se elevar no segundo turno (p. ex., Lula vs. Collor em 89 e Dilma vs. Serra em 2010). Portanto, votar para ter segundo turno nessas eleições específica e exclusivamente significa contribuir para que os inúmeros casos de violência que já vêm ocorrendo, se alonguem e se intensifiquem no segundo turno.

 

4. Os 3 fatos acima foram amplamente reconhecidos e incorporados pela sociedade civil e suas referências. Ícones intelectuais e artísticos que não apoiam historicamente os dois candidatos na liderança, ou que usualmente não declaram voto, têm manifestado massivamente seus votos e pedido para que a eleição se encerre no primeiro turno por compreenderem a gravidade e atipicidade da situação (o que também afirmam expressamente). Tanto é assim que, mesmo com a tendência de fragmentação política que tem sido experimentada no Brasil há algumas décadas e diante das rejeições recorde dos dois primeiros candidatos, o candidato em terceiro lugar nas pesquisas possui menos de 10% das intenções de votos pela primeira vez desde 2006.

 

5. O PT esteve em 1º ou 2º lugar em todas as eleições brasileiras para presidência desde a redemocratização, tendo obtido o 2º lugar mesmo em seu momento mais frágil, em 2018. A esta altura, aqueles que querem que o Governo Bolsonaro se encerre em 2022 e acreditam sabem que isso se dará por meio da eleição de Lula para presidente, de modo que o voto em outro candidato no 1º turno se deve provavelmente à intenção de fortalecer outros caminhos políticos ou simplesmente ao exercício do direito de escolha. Ocorre que, se racionalmente é possível concluir que o PT não vai a lugar nenhum nas próximas eleições presidenciais (continuará a ser 1º ou 2º colocado), votar em outro candidato nesse momento na verdade só enfraquece a possibilidade de se construir uma terceira via. Explico. O PT mantendo (e irá manter) uma das 2 primeiras posições na corrida eleitoral, o espaço a ser ocupado para que uma terceira via é necessariamente o posto que hoje é ocupado pelo bolsonarismo. Assim, mais do que fazer o candidato da terceira via saltar de 5% para 6%, ou de 6% para 7%, o caminho para construção dessa via passa necessariamente pelo enfraquecimento do bolsonarismo. Não há caminho mais fácil, direto e nítido para ruir as bases do bolsonarismo do que uma pífia performance eleitoral, que seria o caso a eleição seja decidida em 1º turno. O recado claro que o Brasil não aceita e não quer ter rondando o bolsonarismo e tudo de horrível que vem com ele seria a maneira mais efetiva para abrir caminho para novas correntes políticas, o que será enormemente facilitado pela derrota do bolsonarismo no 1º turno das eleições de 2022.

 

6. Tivemos uma gravíssima pandemia em meio ao último governo que parte da população parece esquecer ou pouco se importar. Essa pandemia levou à morte de quase 700 mil pessoas no Brasil em 2 anos e meio. O Brasil teve mais de 10% das mortes mundo, apesar de não ter nem 3% da população mundial. O Brasil teve a segunda maior taxa de mortalidade por 1 milhão de habitantes entre as 20 maiores economias do mundo (é atualmente 11°) e 20 maiores populações do mundo (atualmente é 7°). Isso se deveu majoritariamente ao descaso do atual governo com a pandemia, o que levou à ausência de incentivo à proteção da população, atrasos injustificados na aquisição e distribuição de vacinas, programa pífio de apoio econômico à população que não podia e não devia trabalhar e com o chefe do governo, atual candidato à reeleição, ridicularizando essas mortes (e internações) e dizendo que tudo não passava de chororô. Economicamente, o governo também foi desastroso durante a pandemia, com o país voltando ao mapa da fome, o desemprego em índices altíssimo e a inflação entre as mais altas do mundo. Votar de modo a permitir um governo desses chegar ao segundo turno é um descaso com tantas vidas perdidas e destruídas.

 

Em suma, (i) a ameaça à democracia e a violência política, (ii) o aumento dessa ameaça e dessa violência caso haja segundo turno e (iii) a completa impossibilidade de se mitigar esses fatores votando em qualquer candidato que não seja os 2 primeiros são fatos postos e imutáveis. Votos em outros candidatos não vão mudar esses fatos, só deixar de contribuir para mitigar os riscos que eles representam, além de representar um pouco caso com o desastre que foi a pandemia para milhões de pessoas graças ao governo atual e mais contribuir para inviabilizar uma terceira via no futuro próximo do que para construí-la. É importante todos estarem plenamente conscientes disso para fazer a escolha se vota para mitigar esses riscos ou prioriza construir outras agendas futuras e distantes, mas que certamente não endereçarão nossos problemas de agora. No segundo caso, cabe a nós ficar na torcida para que a violência não seja tão violenta assim e que, ao contrário do que a história nos ensina, o não reconhecimento das eleições por quem detém a máquina estatal e apoio militar pode se revelar não tão relevante assim.

 

Nenhum desses riscos são aceitáveis a um país que supostamente tem como norteadores a ordem e o progresso. Por isso, é preciso votar Lula 13 amanhã e começarmos a encerrar o Governo Bolsonaro.

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