A política e a sociedade brasileira estão em crise. Há décadas se
discute a vergonhosa e indignante corrupção inserida no Poder Político
nacional. Desde 2013, porém, a sociedade brasileira atingiu significativo
avanço, ampliando esta discussão para outras esferas.
O Poder Judiciário, a mídia e a sociedade como um todo têm denunciado
condutas ilícitas, antiéticas e imorais.
Três são os prismas de análise do ocorrido.
Pelo primeiro, estão sendo obtidos resultados elogiáveis. Basta ver as
prisões e condenações de corrompidos e corruptores, a ampliação das denúncias
de mau uso da máquina pública e a interferência indesejada do setor privado nas
políticas públicas, que levou inclusive a um questionamento acerca de como
nossa política é financiada.
A segunda perspectiva é a inegável seletividade de resultados. Há quem fale até em uma operação mãos-limpas maneta, à brasileira. Enquanto alguns vão
acertadamente para a prisão no primeiro áudio vazado, a exemplo do Senador
Delcídio, outros seguem abertamente delinquindo, com esquemas de corrupção bem
instalados e a todo vapor, sem que qualquer providência seja adotada, como faz o
também Senador Aécio Neves.
O terceiro ângulo para análise é certa vigília social que se instaurou.
A publicidade dos meios de mídia e das redes sociais é recorrentemente utilizada para
acachapar indivíduos ao menor deslize. O estacionamento em local proibido ou a
contagem de uma piada de mal gosto serve de motivo para que se instaure
verdadeira cruzada contra o autor das condutas que, reprováveis, mas não
justificadoras de justiça social pelas próprias mãos, por meio da humilhação em
praça pública.
Neste contexto, um dos argumentos mais utilizados é o famigerado
jeitinho brasileiro. Diz-se e reproduz-se conto segundo o qual o Brasil e os
brasileiros possuem um modus operandi
diverso do adotado em outros locais, cujo objetivo é invariavelmente levar
vantagens indevidas nas mais diversas esferas. Isso seria, teoricamente, a
fonte da qual bebem de todos os dias os múltiplos desvios de licitude,
ética e moral frequentemente praticados no país.
A vigília social mencionada acima bem demonstra que há certo exagero.
Mistura-se lé com cré, insinuando-se que furar uma fila (conduta imoral) é o
primeiro passo para corromper-se (conduta ilícita). É claro que nada disso
possui a mínima base empírica. Afora dos altos e indiscutíveis índices de corrupção,
não há qualquer evidência de que (i)
a sociedade brasileira seja mais antiética ou imoral do que outras ou (ii) haja verdadeira escala corruptiva
temporal, iniciada por ilícitos imorais que depois se desenvolvem para condutas
mais graves e reprováveis, crimes.
Apesar das incontáveis ressalvas quanto à teoria do jeitinho brasileiro, há
algumas situações em que não se pode negar que a criatividade, o malabarismo, a
reviravolta tomam frente tanto para se obter vantagem quanto para escapar
impune. A sociedade já presenciou diversas dessas manobras por políticos e
cidadãos, dando-se destaque para algumas situações inacreditáveis dentro das
engrenagens do tal jeitinho brasileiro.
É isto que este texto pretende expor.
Amanhã será dado um passo raro para a política democrática brasileira,
vivida uma única vez anteriormente. A Câmara dos Deputados do Brasil decidirá
se dá ou não o aval para que o Senado Federal abra processo de impeachment contra ocupante da Presidência da República eleita.
Muito se discute se há ou não crime de responsabilidade, se a atual
composição da câmara possui ou não legitimidade para realizar esta análise, se
o currículo teoricamente mais ilibado de Dilma, quando comparado a alguns de
seus julgadores, tornaria ilegítimo o impeachment. Enfim, debate-se se é golpe
ou não é golpe.
Não é essa a discussão que se pretende adentar. O que se busca está
muito mais voltado à constatação do desenrolar dos fatos, por que tudo isso está acontecendo e da maneira como está acontecendo.
Como surgiu o impeachment?
Isso é fácil. Hélio Bicudo, Janaína Paschoal e Miguel Reale Jr., três juristas
de indiscutível capacidade técnica, formularam o pedido, ouso dizer – independentemente
de concordar ou não com o fundamento – por verdadeiramente acreditarem que os
pressupostos estão presentes e a remoção de Dilma é a medida acertada ao país.
O fundamento é tão somente as pedaladas fiscais.
Como foi aceito o início do impeachment?
É aí que a história começa a se complicar. Vale recapitular. As fontes
não estão trazidas aqui por mera economia de tempo, e porque os fatos são muito
notórios, podem ser constatados via Google por qualquer um disposto e com 15
minutos livres.
Vamos aos atos.
Primeiro ato. Eduardo Cunha
é eleito presidente da Câmara dos Deputados, vencendo o candidato do Governo
Federal e instaurando verdadeira oposição ao governo.
Segundo ato. Eduardo Cunha é
envolvido até o pescoço na operação Lava-Jato, com inúmeras citações a seu
respeito por dezenas de delatores.
Quarto ato - o Jeitinho 1.
Eduardo Cunha passa a fazer o que bem entender em sua gestão perante a Câmara.
Rediscute matérias derrotadas, corta tempo de deputados dos quais não gosta,
realoca sessões para manipular matérias.
Quinto ato. Eduardo Cunha presta
esclarecimentos na Câmara dos Deputados dizendo não possuir qualquer conta no
exterior, um real que seja não declarado.
Sexto ato. Contas e mais
contas de Eduardo Cunha são achadas no exterior. Milhões e milhões de reais não
declarados e sem origem certa são encontrados. Documentos e mais documentos
demonstram todo o estratagema corruptivo. Mais uma dúzia de delações o
mencionam.
Sétimo ato – o Jeitinho 2. Apesar das centenas de denúncias e do
uso reiterado do cargo para manter-se corrompendo, inclusive com fraudes nos
painéis do Congresso, Eduardo Cunha segue livre para fazer o que bem entender.
Seu processo engatinha no STF, que não adota providências para frear o ímpeto de
delinquir do cidadão.
Oitavo ato. Inacreditavelmente,
diante da falta de iniciativa do STF ou do Ministério Público, a vida de
Eduardo Cunha começa a se complicar pela via menos provável: inicia-se processo
contra ele no Conselho de Ética da Câmara dos Deputados, visando sua cassação
(e consequente alteração de jurisdição para Sérgio Moro, magistrado muito mais
pró-ativo do que o STF tem se mostrado).
Nono ato. Com o aumento da
pressão sobre o Governo Dilma, passa-se a questionar Eduardo Cunha quanto à
aceitação de processo de impeachment contra a presidente.
Décimo ato. Apesar de
continuar fazendo oposição ao governo em diversos temas, Eduardo Cunha dá
entrevistas quase diárias declarando seu entendimento de que pedalada fiscal não é
subsídio para impeachment, pelo que não aceitaria pedidos com este fundamento. Diversos
deles são, inclusive, rejeitados. Pipocam na imprensa insinuações de que
Eduardo Cunha e o Governo estariam flertando com um acordão, por meio do qual
as denúncias contra ele seriam deixadas de lado e o Governo ganharia um aliado.
Ambos os lados negam veementemente.
Décimo ato – o Jeitinho 3. O
processo de Cunha avança no conselho de ética e chega ao ponto de votação, mas
uma manobra faz com que o relator seja trocado, voltando-se à estaca zero.
Décimo primeiro ato. Após
longo debate interno que passa ao largo da ética, os deputados do PT decidem
conjuntamente com o partido que votarão pela cassação de Eduardo Cunha no
Conselho de Ética da Câmara dos Deputados, o que assegurava maioria no conselho
para que a cassação de cunha avance ao plenário, onde as pesquisas indicavam
que ele cairia.
Décimo segundo ato – o Jeitinho 4. No mesmo dia em que a decisão dos Deputados do PT foi tomada, e contrariando tudo o que
declarara anteriormente, Eduardo Cunha aceita pedido de impeachment contra
Dilma Rousseff tendo como único fundamento as pedaladas fiscais.
Décimo terceiro ato – o Jeitinho
5. Eduardo Cunha avança rapidamente com o impeachment na Câmara dos Deputados,
atropelando o rito definido anteriormente no impeachment de Collor. O embate acerca destes
pontos instaura o caos na Câmara dos Deputados. O STF é acionado e restabelece
a ordem.
Décimo quarto ato – o Jeitinho
6. Eduardo Cunha maneja nova manobra no conselho de ética que faz com que o
processo de cassação contra ele se reinicie novamente. Ninguém se importa ou
noticia veementemente. O foco é o impeachment.
Décimo quinto ato – o Jeitinho
7. Enquanto o impeachment toma a atenção de todo o povo brasileiro e da
imprensa, mudanças lá e cá no Conselho de Ética vão melhorando a situação de
Eduardo Cunha.
Décimo sexto ato – Ajeitado à brasileira. Na semana em que o
impeachment será votado, o foco todo é no número de votos pró e contra
Dilma, mas o resultado de uma outra votação que a esta altura corre pelos becos da
Câmara dos Deputados é assegurado. Um deputado que votou anteriormente pela
cassação de Eduardo Cunha deixa o Conselho de Ética e a cadeira é assumida por
uma declarada admiradora de Eduardo Cunha. A maioria foi obtida. A impunidade foi assegurada.
Apoiar ou não o impeachment é uma escolha pessoal de cada um que leva
em conta diversos fatores.
Mas o fato é que todo o processo de impeachment, desde seu nascimento,
não passa de um grande jeitinho brasileiro iniciado exclusivamente para assegurar a impunidade de um político corrupto: Eduardo Cunha.
Impunidade obtida com o apoio incondicional da população brasileira, que
comemora o que entende ser a grande vitória dos cidadãos de bem cansados de toda
essa corrupção. Manobras político-jurídicas obtidas com o entusiasmo e o
protagonismo de juristas competentes e inteligentes, bem intencionados...
Se a corrupção vai acabar, não se sabe – tem-se uma boa ideia de que não. O que
se pode dizer com certeza é que o jeitinho brasileiro nunca foi tão efetivo e
celebrado.
Alguns podem achar o jeitinho brasileiro atingiu seu ápice: a
destituição da presidência da república visando aferir vantagem.
Mas pode ser que estejamos diante do penúltimo ato. O próximo poderá
ser transformar réu corrupto em Presidente da República.
Por outro lado, o jeitinho brasileiro pode não ser tão brasileiro
assim. Alguns diriam há um bom seriado que conta uma história parecida.
Aguardemos o amanhã.
PS: vale lembrar que, embora com configuração distinta, neste texto já se antevia que o impeachment seria utilizado como artimanha para a impunidade: http://iurireis.blogspot.com.br/2015/03/impeachment-o-ingrediente-que-faltava.html
PS: vale lembrar que, embora com configuração distinta, neste texto já se antevia que o impeachment seria utilizado como artimanha para a impunidade: http://iurireis.blogspot.com.br/2015/03/impeachment-o-ingrediente-que-faltava.html

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