quinta-feira, 1 de maio de 2014

Bianca - Boletim 23: Dois anos depois

Estou em falta, muito em falta, com esse boletim.

A vida está corrida, com afazeres no trabalho e acadêmicos, além, é claro, de algum lazer.

Mas a rotina de visitas à Bibi não se alterou muito. Tenho conseguido vê-la ao menos uma vez por semana regularmente.

Dadas as devidas desculpas pelo abandono na narrativa das peripécias da pequena notável, vamos ao que interessa.

Ontem foi um dia especial. Fez exatos dois anos que Bibi e eu nos acidentamos.

Se no ano passado essa foi uma data difícil de ser revivida, com reflexões tristes e lamentações, esse ano, a coisa é diferente.

Quando paramos para repensar a situação pela qual passamos, só temos a agradecer por termos sobrevivido. É claro que nosso acidente ainda repercute muito em nossas vidas e muitíssimo mais na vida da Bianca do que na minha.

Mas, se nem a ocorrência do acidente nem sua gravidade poderiam ser controlados por nós, então, há que se celebrar a sobrevivência e a recuperação que está em curso.

O dia 30 de abril de 2012 passou a ser, na realidade, celebração do renascimento da Bianca. Todos aqueles que acompanham essa história podem e devem, sem qualquer vergonha, agradecer pelo fato de que, apesar dos pesares, naquele dia, a baixinha sobreviveu.

Já escrevi aqui mais de uma vez que todo o mérito é dela e dos médicos. E ela merece muito os parabéns! Ontem estive lá mais uma vez e dei os parabéns para ela.

Mas mais do que simplesmente celebrar a mera sobrevivência, desesperançada, temos que celebrar a recuperação da Bianca.

Se recuperar não é algo fácil, principalmente quando a vida esteve por um fio, a cabeça foi severamente abalada.

Ainda assim a Bianca persevera, dia após dia, dando um passo após o outro. A cada dia tem mais consciência de tudo o que já passou e da grande tarefa que tem pela frente: reconstruir sua vida.

Eu asseguro a todos aqueles que amam e se preocupam com a Bianca que ninguém, absolutamente ninguém se esforça e se interessa mais do que ela pela reconstrução integral da vida dela.

Graças à força dela, à garra, à insistência, à vontade, ela tem dado passos, alguns largos, outros curtos, mas sempre passos para se recuperar.

E não são poucos os percalços que se colocam no caminho da Bibi.

Além do acidente, ela passou por alergias, pneumonia, infecções, lesões, atrofias...

Enfim, o pacote é completo, é árduo e está lá para ser encarado. E ela encara.

Derruba, um a um, cada desafio, custe o tempo que custar. É claro que eles atrapalham, em maior ou menor medida, a recuperação dela.

Mas ela sempre coloca esses obstáculos como temporários, pois está sempre pronta para afastá-los!

Os maiores sentimentos que aprendi a ter pela Bianca são de admiração pela força dela e orgulho por ter feito parte da vida de alguém tão especial.

Bom, vamos às boas novas.

Bibi está com o raciocínio afiado.

Já dá oi, pergunta se está tudo bem e faz outros comentários sem precisar ser estimulada. Tudo autônomo mesmo.

Quando estimulada, consegue fazer deduções, entende analogias e ironias.

A dificuldade maior ainda está na memória e em raciocínios muito longos. Os mais curtos e imediatos saem numa boa.

Ainda assim, a memória melhorou e ela tem tido alguma noção de tempo. Da mesma maneira, as frases que ela consegue falar estão maiores, mais complexas e extremamente espontâneas.

Ela não tem mais se limitado a repetir os termos que ela ouve cotidianamente. Muitas vezes traz termos novos, que não foram usados recentemente.

O que tem sido muito legal é que ela adquiriu muita consciência da condição dela.

Tem dito não só que quer andar, mas também que sua fala é muito enrolada e que não consegue expressar verbalmente muitas coisas que ela pensa.

E quando perguntamos o que ela quer que melhore, ela sempre aponta essas coisas. Sabe onde quer chegar.

Quando nós estamos bem,sem qualquer problema, é difícil dimensionar a complexidade que é a mente de um ser humano. Mas quando lidamos com alguém que está readquirindo sua própria complexidade, isso fica nítido.

A Bibi sempre dizia que queria andar e comer, no máximo estudar.

Hoje, com a cabeça melhor e o raciocínio mais complexo, consegue aprofundar-se naquilo que quer ou deixa de querer.

Quando perguntamos o que ela quer fazer, ela responde: “Quero dançar” (o vídeo abaixo mostra bem isso).

Muito emocionante o tal do cérebro. Incrível como alguém debilitado não sente falta de simplesmente se levantar, sente falta do prazer que é a vida e do prazer que são esses momentos. Enfim, muitos aprendizados.

Bom, hora de retratar um pouquinho o dia a dia.

A Bibi passou pela tal da cirurgia na perna direita, feita para esticá-la.

E olha, a pequena sofreu. A perna ficou engessada quase um mês. Era suor, era coceira, era aperto.

Quando foram olhar o pé dela dentro do gesso, adivinhem? Carne viva...

Aí muda gesso, faz buraco para que o pé possa respirar, alterna gesso com órtese... Uma novela!

O resultado final, depois de tantas batalhas, é que a perna esticou 90%, mas não tudo.

Aí era só fazer fisioterapia diária que tudo se resolveria.

Mas, a história teria alguma graça se fosse tudo tão simples? Claro que não!

Então a Bibi aproveitou que estava ali sem fazer nada e encravou as unhas dos dedões dos dois pés, o que a impediu de fazer plenamente as terapias de perna!

E lá vai a baixinha para a navalha de novo! Outra cirurgia (tem pelo menos umas cinco na conta) para arrumar essas unhas.

Resolvido? Claro que não. Uma das unhas precisou de uma segunda cirurgia. Vai gostar de um bisturi assim lá na casa do chapéu...

Agora, pergunta se por conta disso tem mau humor, estresse, indisposição?

Claro que tem, né gente! Mas pouquinho, bem pouquinho.

A maior parte é bom humor e muita disposição. Sempre otimista e sabendo onde quer chegar.

A fala da baixinha também está melhor, menos enrolada, as frases mais longas e mais fáceis de entender.

De vez em quando a coisa ainda aperta e complica, precisamos chamar um tradutor especializado em Bianquês (tipo aquela piada do fanho que vai na farmácia. Quem quiser eu conto depois, é ótEma...)

Mas o que tá dez mesmo (dez não, onze) é o apetite da baixinha. Tá comendo todo dia e em vários horários diferentes. No almoço, bate um pratão de marmita mesmo!!

A coisa tá feia lá pelos lados da Aclimação. Tiveram que dobrar as compras de supermercado! Tá certo que as vezes ela ainda chama mamão de banana e goiaba de maçã. Mas o que vale é que ela manda tudo pra dentro com gosto.

Ainda não conseguiram retirar totalmente a dieta, mas tá quase lá. O problema agora não é mais a quantidade de calorias que ela ingere e sim os nutrientes.

Ela ainda não consegue ingerir todo e qualquer alimento e esse é o obstáculo do momento.

Aí chegamos num impasse, porque não dá para tirar a dieta nem deixar de estimular a alimentação via oral da baixinha. Para completar, a pequenina, que antes não gostava de doce, virou doceira (e confeiteira, como bem mostram os vídeos do Luca) de boca cheia.

É chocolate, é bolo, é pudim, torta e pavê. Jesus!

Resultado: o apelido dela mudou de baixinha para bolinha!

Isso mesmo, a Bibi, que sempre foi magrinha, está gorduchinha!! Nada grave, mas que tá, tá.

Dizem que não pode contar o peso de mulher, mas eu vou falar. Se der processo, a faculdade vai ter servido para alguma coisa. Do alto de seus 1,51m, a Bibi está pesando modestos 56kg!!!!!!

Mas ela tem consciência da situação. Me disse ontem que está gordinha pq não está andando nem fazendo exercício. É isso aí Bibi. Quando estiver boa, dá-lhe exercício para perder as chechelinhas!

É claro que isso é uma brincadeira. O ganho de peso é essencial para estabilizar a imunidade dela e afastar o risco de doenças. Isso sem falar na reaquisição da deglutição e do prazer (não vamos mentir) em comer.

Até porque, eu acho (apesar de ser muito suspeito) que mesmo com 100kg ela continuaria linda!

Mas a alimentação não é um progresso motor isolado. Na, na, ni, na, não!

Toda a coordenação motora da Bibi, para mover braços, pernas, pegar e largar objetos e todo o resto está muito melhor!

Ela tem feito com muita facilidade os exercícios com a Terapeuta Ocupacional, escovado os dentes, controlado a coluna e a cabeça para ficar sentada, entre outros avanços motores.

E continua carinhosa, muito carinhosa. É afago, é beijinho na família é “gosto de você”, é “você é bonito” pra todo lado.

Aliás, temos que lembrar algumas pérolas recentes da Bibi.

A mais recente foi na terça-feira, quando ela disse que eu fico bobo de óculos.

Aí perguntei “com cara de bobo Bibi?”.

E ela “Não! Bobo mesmo”. Aí lascou! Tratei de largar o óculos de lado...

Aliás, quando eu coloco o óculos dela para experimentar, ela muda de opinião. Ao invés de bobo, ela diz que fico parecendo uma bicha... É uma consideração incrível!

Outra muito boa foi quando eu disse pra ela “Bibi, vou fazer apresentação no Mestrado sobre dano moral subjetivo, dano estético, dano biológico e dano existencial. O que você acha?”

Sem nenhuma papa na língua, ela responde “É muito dano!”

Mas a mais sensacional de todas foi na AACD.

A grande novidade desse blog é que a Bibi foi aprovada para reabilitação na AACD e no Lucy Montoro. Está agora na lista de espera, aguardando vagas, mas está clinicamente aprovado. A Rita, inclusive, já foi chamada para fazer a assistência social na AACD e o tratamento deve iniciar em breve.

A diferença é que quando ela for chamada no Lucy, irá fazer o pacote completo de terapias, ao passo que, na AACD, cada terapia tem uma fila individual.

Vamos ver!

Pois bem, vamos voltar à pérola. Quando foi na AACD pela última vez, a Bibi passou por uma psicóloga que fazia uma série de perguntas sobre a vida dela.

E a pequena malandrinha respondia para quase tudo “não lembro”, “não sei”, “não lembro”, “não sei”, mesmo para coisas que ela sempre responde certo.

Assim que a psicóloga saiu, a Rita disse “Bianca, por que você disse para a psicóloga que não sabia um monte de coisas que você já sabe?”

Bibi, na maior cara de pau, responde “Ela é muito intrometida!”.

Aí foi aquela correria atrás da psicóloga pra explicar que não era incapacidade da pequena, era pura marra mesmos!!

Bom pessoal, vou ficar por aqui, pois esse texto já está gigantesco.

Tem muitas outras coisas para contar, mas é difícil lembrar tudo. Prometo tentar.

Para fechar, deixo uma homenagem para a Bibi por esses dois anos!

Antes do acidente:


Logo após o acidente:




Um ano depois:





Dois anos depois:





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