Hoje vou tentar responder à uma pergunta (ou algumas perguntas) que me tem sido feita(s) frequentemente.
Mas não vou responder porque quero que saibam a resposta.
Vou responder porquê acho que acho que isso um dia poderá servir para alguém, poderá ajudar alguém.
Não me sinto nem um pouco confortável de expôr minha privacidade dessa maneira. Muito desconfortável, na verdade.
Mas faço exclusivamente com o intuito de dividir uma informação útil.
Como algumas pessoas sabem, estou passando por um momento delicado da minha vida.
Sofri um acidente automobilístico com minha namorada, companheira e parceira. A pessoa que eu amo.
Eu passei pela situação praticamente ileso, apenas com ferimentos relativamente leves.
Ela, em contrapartida, sofreu ferimentos mais severos, necessitando de intervenção médica imediata para salvar-lhe a vida.
Felizmente, o atendimento médico foi excelente e ela, após um longo tempo de coma, hoje se recupera dentro do ritmo esperado para uma situação tão extrema.
As grandes perguntas que me tem sido feitas constantemente são:
"Como você está?"
"Como está lidando com tudo isso?"
"Como você consegue lidar com essa situação?"
Confesso que nem sempre é fácil, existe um grande desgaste e as perguntas sem respostas são uma verdadeira angústia.
No entanto, em geral, tenho recebido elogios à maneira com que estou lidando com a situação, com minha dedicação à recuperação dela e, principalmente, com o fato de conseguir conciliar isso tudo com os demais aspectos da minha vida de maneira satisfatória.
Evidente que isso não possuiu muita importância para a imensa maioria das pessoas, que lidam apenas com problemas cotidianos e de menor complexidade.
Mas e se amanhã ou depois alguém tiver repentinamente um problema gigante, complexo e irremediável a curto prazo pela frente? E se ele não souber como lidar com isso?
Todos nós enfrentamos diversos problemas todos os dias e cedo ou tarde nos depararemos com problemas grandes ou gigantes.
Bom, então tomara que esse texto possa ajudar uma pessoa que seja a lidar com essa situação nova.
O primeiro trabalho para lidar com o problema talvez seja o mais difícil para a maioria: compreender e metabolizar eventual culpa.
Os adeptos da teoria do caos ou do efeito borboleta pregam que cada minúscula ação ocorrida pode modificar toda uma sequência de acontecimentos.
Existe, no entanto, o caminho crítico da culpa. Ou seja, os fatores que, se retirados da equação, mudam o seu resultado.
Um exemplo no caso concreto.
Se eu jamais tivesse conhecido a Bianca, ela teria ido de ônibus aos jogos como fez todos os anos e isso altera o caminho crítico até o acidente.
No entanto, se eu tivesse escolhido usar outro tênis na festa em que fomos, muito provavelmente o resultado seria o mesmo. Então, o tênis não faz parte do caminho crítico
Contudo, de todas as ações e decisões tomadas que resultaram no acidente, nenhuma delas é notoriamente uma ação que invariavelmente levaria a um acidente.
Ou seja, o acidente era imprevisível e não há culpa quando não se pôde antever o resultado.
Não existe ou não deve existir pensamentos como "era óbvio" ou "eu deveria saber que".
O que existe e deve existir é "se todos agissem como eu agi, quantos resultados indesejados ocorreriam e seriam previsíveis?".
Apenas essa pergunta pode definir a culpa.
A segunda meta é aquela que para mim, particularmente, é a mais difícil.
É a compreensão de que isso tudo é real.
Sim, o que a gente sempre acha que só acontece com os outros aconteceu com você.
Se nos dermos um minuto para viajar na sequência de eventos, chega a ser possível duvidar que isso esteja verdadeiramente acontecendo.
Muitas vezes, é mais fácil se apegar a fotos, vídeos e memórias que te transportam a um passado onde isso nunca aconteceu, onde tudo ainda é lindo e o problema não existe.
Mas isso não elimina o problema. O problema segue lá te esperando para o momento em que você sairá desse estado de êxtase no qual é impossível viver indefinidamente.
E se é impossível viver indefinidamente nessa realidade, então existe o risco de que quando você se der conta e sair dessa fantasia, o problema tenha multiplicado seu tamanho.
Nada vai mudar o fato de que existimos e nada disso é um sonho.
As coisas tem que ser encaradas e o quanto antes você se der conta disso e assumir o seu papel nessa equação, maiores as chances de você contribuir para o resultado esperado.
O terceiro ponto que precisa ser metabolizado é a compreensão do tamanho ou das proporções do problema.
Normalmente, as pessoas com dificuldades para lidar com essa questão se dividem em dois grupos.
O primeiro daqueles que negam o problema e sua dimensão, acreditando que tudo vai dar certo ou que Deus dará um jeito em tudo ou que a gravidade nem é tão grande.
O segundo é daqueles que criam no problema um monstro insanável. Entregam os pontos, acham que nada dará certo, que tudo está perdido, normalmente exprimindo sentimentos de injustiça e vitimização.
Ora, o problema é o que é e tem as soluções que tem. Enxergá-lo maior ou menor não mudará a forma como ele verdadeiramente é.
Para saber o tamanho do problema, devemos nos perguntar:
Levando-se em conta todas as ações que podem ser tomadas para resolver esse problema, quais são todos os resultados possíveis e suas probabilidades.
Não adianta brigar, o resultado sempre será aquele dentro do possível, nem mais. nem menos.
Aqui um adendo aos religiosos, nem sempre o possível é aquilo que conhecemos e descrevemos como possível. Pode ser muito maior do que isso.
A soma desses três fatores leva ao principal conceito que precisa ser compreendido e praticado quando se está diante de um problema:
Ok, o problema é inegavelmente real, possui a seguinte proporção e, independentemente de culpados, precisa-se buscar a solução. Qual o meu papel para solução do problema? O que eu devo fazer?
É preciso compreender, se conscientizar, vestira a camisa, arregaçar as mangas e pôr em prática tudo aquilo que estiver ao seu alcance para auxiliar na resolução do problema. Não existirá solução sem essa etapa.
E tudo significa, além de fazer seu papel, tentar demonstrar para os outros envolvidos o papel deles, como estou tentando fazer por meio desse texto, por exemplo.
A imensa maioria dos problemas têm solução.
As soluções podem ser mais ou menos satisfatórias.
Mas somente será obtida a melhor solução possível e imaginável (ou inimaginável) se cada um agarrar com afinco seu papel e praticá-lo da melhor maneira possível!
Somente a soma de todas as máximas dedicações na solução do problema poderá resultar no melhor resultado.
Por fim, existe um último fator a ser compreendido e praticado.
E, se o primeiro é o mais difícil e o quarto é o mais importante, talvez esse seja o mais insistente.
Precisa-se combater a impaciência.
A impaciência possui várias fontes diferentes.
Alguns ficam impacientes pela agonia em ter de encarar o problema, outros pela dificuldade em lidar com o sofrimento trazido pelo problema e, alguns, pela crescente incerteza, no decorrer do tempo, de que a solução satisfatória chegará.
A impaciência é capciosa, pois possui outras origens que desconheço ou possuo dificuldade de descrever.
A verdade é que muitas pessoas ficam impacientes quando confrontadas com um problema pelas mais diversas razões.
Então é preciso compreender qual o principal e invariável resultado da impaciência? O aumento do sofrimento.
Até que me provem o contrário, a impaciência sempre virá acompanhada de aumento do sofrimento.
Na maioria das vezes, trata-se de uma antecipação do sofrimento futuro pelo resultado adverso.
Ou seja, o resultado adverso ainda não ocorreu, mas como a solução ainda não chegou, presume-se o resultado adverso e sofre-se parcialmente por esse resultado que nem sequer existe.
Parcialmente sim, porque caso o resultado adverso aconteça, evidente que o sofrimento será ainda maior, muito maior.
Esse sofrimento é irracional e desnecessário.
Tudo na vida possui etapas que precisam ser transpostas, uma após a outra.
E a transposição dessas etapas não é igual para todos. Alguns passam por umas mais rapidamente, enquanto demoram mais em outras.
É verdade que muitos ficam pelo caminho, mas a impaciência nos faz crer, equivocadamente, que o mero curso normal das coisas é insatisfatório.
A grosso modo, seria o mesmo que achar que um rapaz de 15 anos que não sabe dirigir está fadado a jamais dirigir só porque existem campeões de kart cinco anos mais novos que ele!
Nem todos serão prodígios e nem todos trarão sempre o resultado dentro do programado.
Alguns cumprirão rigorosamente o cronograma e outros até atrasarão um pouco.
Além disso, cada situação específica possui um tempo esperado para que ocorra.
É essencial que, antes de agir com impaciência, seja avalido se o problema existente está de fato fora da curva normal de resolução.
Até porque, dentro da curva normal de solução, precisamos sempre desempenhar nosso papel para solução do problema, coisa que pode ser atrapalhada pela impaciência.
É preciso agir e agir muito para a solução do problema, ao mesmo tempo em que se senta e espera com paciência e muita paciência, os resultados começarem a surgir.
Eles não surgirão na hora em que se quer, surgirão no momento em que se tornam possíveis, viáveis.
Também é importante contar com os amigos e familiares para apoio.
É essencial ouvir perspectivas diferentes, palavras de incentivo e até mesmo desabafar.
No entanto, vale ressaltar que as pessoas não reagirão sempre como esperamos.
Algumas nas quais tínhamos o apoio em situação difíceis como certo não reagirão como esperado, ao passo que se descobre um imenso carinho inusitado por parte de alguns outros amigos.
Até mesmo o perfil de cada um pode surpreender. Aqueles seu amigo mais fechado e pouco falante pode chamar a responsabilidade e te apoiar, enquanto um mais falador e participativo não sabe como lidar com a situação.
Evidente que muitos dos bons companheiros próximos e queridos participam ativamente.
Todos eles são muito importantes para renovar energias, dar novas perspectivas e, principalmente, mostrar a importância do trabalho desenvolvido, além de ajudar nas escolhas, demonstrando prós e contras que muitas vezes passam despercebidos por quem está envolvido diretamente.
Eu particularmente, embora seja um cara muito falante e extrovertido, tenho um pouco de dificuldade de introduzir o assunto ou simplesmente sair desabafando.
No entanto, existem amigos sempre dispostos a perguntar como as coisas estão e, então, aproveito a oportunidade para falar e ouvir.
Esses são os conselhos que eu posso compartilhar com quem se interessar, sobre como lidar com grandes problemas.
Acho que ajuda se focarmos não no problema em si, mas na solução do problema.
Ao invés de nos martirizarmos pela existência do problema, podemos nos dedicar à sua solução, que pode representar a verdadeira realização de um sonho.
Isso certamente contribuirá direta ou indiretamente com a obtenção ou alcance da solução.
"Não tenha medo do sofrimento, pois nenhum coração jamais sofreu quando foi em busca dos seus sonhos." Paulo Coelho
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